A Tortura do Silêncio (Alfred Hitchcock, 1953)

A Tortura do Silêncio

Acredito que todos, quando houvem o nome “Hitchcock”, lembram logo de “Psicose”, “Um Corpo Que Cai”, além de vários outros filmes dele. Também lembram das características base da grande maioria dos filmes do carequinha: O Suspense enfatizado pela sua direção, o tema-base do homem que é acusado de algo que não cometeu, entre várias outras. Mas pouquíssmas pessoas lembram de uma característica não tão evidente assim: a questão da fé, relacionada as referências ao catolicismo. Esse assunto acabou gerando dois dos filmes mais pessoais e interessantes de Hitch (que teve uma rígida formação católica). Um deles é exatamente esse que está sendo comentado (O outro é “O Homem Errado”, que comentarei em seguida). E em ambos os filmes é possível observar certas características que fogem um pouco aos filmes de maior notoriedade de Hitch. O característico humor inglês dele (que é inserido para que haja uma pausa para o espectador) é inexistente aqui. Tudo é mais sombrio, mais dark e, por que não dizer, mais noir. E essa característica noir é muitíssimo bem explorada pelo diretor, especialmente na cena inicial. O modo como ele usa as locações em Quebec, os seus prédios antigos, como facetas das expressões da alma e dos sentimentos dos personagns é simplesmente um toque de gênio. Isso também é enfatizado pelas atuações, que aqui, ainda mais do que nos outros filmes dele, dependem (e utilizam brilhantemente) cada vez mais o olhar para expressar a angústia e o desespero dos personagens. E, nesse ponto, destaca-se Montygomery Cliff. Poucas vezes vi olhos tão expressivos como os dele nesse filme. Sua atuação contida expressionalmente, mas cheia de sentimentos nas entrelinhas, é um dos maiores destaques. Temos ainda, um interessantíssimo confronto entre fé X razão (ou, se preferirem, Justica de Deus x Justiça dos Homens), nos embates entre Monyty Cliff e Karl Malden (que faz o metódico policial encarregado da investigação). Um filme que merece linhas e linhas de discussão, e que merece ser estudado em todas as suas entrelinhas.

4/4

Adney Silva

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3 Responses to A Tortura do Silêncio (Alfred Hitchcock, 1953)

  1. Luis Henrique Boaventura

    Já disse isso, mas aquele plano da ruazinha de calçamento, durante a fuga do assassino, é das coisas mais bonitas que o Hitch já filmou. Sei lá por que, adoro aquilo.

  2. Adney Luís A. Silva

    Realmente aquele plano é lindíssimo. Mas acho ainda mais memorável a maneira que Hitch se utiliza dos cenários para expressar exatamente as aflições, os sentimentos daqueles personagens (em especial o padre vivido pelo Monty Cliff).

  3. Caio Lucas

    Dos filmes “menores” do Hitch, talvez esse seja o meu favorito. Não pelas seqüências geniais ou por qualquer coisa do tipo, mas pelo roteiro mesmo que é muito interessante. Aborda um tema sensacional. Acho que esse foi o único do mestre que concorreu algum prêmio em Cannes, estando na Seleção Oficial daquele ano. Mais um motivo para nos interessarmos por essa obra que devia ser mais bem reconhecida.