Prelúdio Para Matar (Profondo Rosso – Dario Argento, 1975)

Não existe experiência cinematográfica mais intensa que Profondo Rosso. Argento agarra e rasga os nervos do espectador num processo de estupro e orgasmo do mais puro cinema já concebido. Nem Janela Indiscreta, nem Veludo Azul, Peeping Tom ou Blow-up. Nada é mais cinema que Profondo Rosso. Pegando emprestado tanto David Hemmings como o espírito obsessivo do seu personagem no filme do Antonioni (e no de Hitchcock, e no de Lynch), e torturando seu espectador de forma ainda mais terrível que Michael Powell ao transformá-lo no assassino do seu filme (através de uma lente subjetiva filtrada no mais bruto voyeurismo), Dario Argento consegue afinar o cinema no tom definitivo.

Enlouqueci assistindo. O Noonan e o Scofa me encontraram logo depois e sabem do meu estado. Fui abusado cinematograficamente. Nunca estive tão dentro de um filme. E falo literalmente quando digo que Argento faz do espectador o assassino de Prelúdio (que sempre sabe de tudo, sempre está um passo à frente, como Marcus comenta em determinado momento). A linguagem visual poucas vezes (ou nenhuma, sabe-se lá) foi usada com tanta fluência e tanta beleza. A primeira vez que chegamos ao auditório, por exemplo (e chegamos caminhando, que fique claro) e nos deparamos com o hipnotismo do vermelho incandescente nas cortinas e nas poltronas, revisitado mais tarde (descarnados do assassino) sob a predominância dos tons de cinza. Ou depois, na casa da escritora, quando um personagem deixa uma velha senhora sozinha no lugar. A enxergamos do outro lado do corredor como se contemplássemos um pedaço de carne. Uma madeira do piso estala, damos um passo atrás, ela vem em nossa direção, e nos escondemos sob uma parede em outro cômodo e a cena corta para nada em torno dela ser retomado mais tarde. Sim, o Argento é um filho da puta.

E tem muito disso, de sermos relegados quanto a coisas que não tinham, de qualquer modo, importância para o que se busca em Profondo Rosso. E várias vezes essa condição de a lógica não ter espaço algum no filme é criada ao invés de meramente acontecer, revestindo-o de uma expressão surreal de pesadelo. Há quem possa reclamar de soluções e conexões non-sense no roteiro, como a adição de um livro como caminho para a investigação na mansão e pretexto de outro assassinato. E é genial, não há limites neste ajuste onde se joga um elemento no lixo apenas para amplificar outro. Foda-se a coerência, foda-se a lógica. Argento usará o que for preciso, sem qualquer compromisso nem rota regrada de margens para produzir efeitos.

Daí que para pervertidos incuráveis por atmosferas, Profondo Rosso é novamente o filme definitivo. E a trilha do Goblin é das coisas mais absurdas já compostas e já utilizadas, o que torna sua simbiose com as imagens algo como uma relação sexual. Daqueles casos em que houve uma compreensão absoluta, uma harmonia encantada entre compositores e cineasta. Há momentos, inclusive, em que a música tem picos de um agudo agressivo aos ouvidos, transformando a trilha numa lamina que fere o espectador. E outras nuances fantásticas, como, quando percorrendo a amplitude da mansão (uma seqüência com possíveis sérios agravantes psicológicos), música altíssima, Marcus pisa num caco de vidro. Tudo silencia. Lembrando de Lynch em Império dos Sonhos, na cena em que o som e as dançarinas desaparecem, o efeito é provocado através da ausência de efeitos, comprovando a imersão total do espectador a ponto de tornar uma atmosfera completamente tensa e vazada sensorialmente na atmosfera “normal”, por alguns minutos, transformando a silenciosa e antes cômoda, exatamente, na incômoda. Depois de uns instantes de silêncio, a trilha volta, provocando um novo impacto. O resultado é inexplicável (não, apesar de eu ter descrito aqui, não há como ter idéia do que acontece).

O prelúdio de cada assassinato pode ser recortado em pequenas-gigantes obras-primas da construção de clima, fazendo da escada para a tensão o próprio pico da tensão. A primeira iniciativa contra Marcus é som e imagem pra se derreter e injetar na veia. O gesso sobre o piano, a câmera que de repente invade a saleta de música transpassando as cortinas, o passeio do espectador-assassino pelos cômodos à espreita de Marcus, a sustentação da trilha no piano com uma mão, como elemento de cena… E tudo, o tempo todo, é compulsivamente pensado e desenhado. Em cada plano e cada movimento, seja na simetria ou na assimetria misteriosamente perfeita dos fundamentos.

A cena final é uma coisa que não tem teoria, tratado nem religião que explique. E o reflexo na poça revela não apenas o assassino refletido no seu oposto, como no espectador. Este mesmo espectador que teve ao longo filme sua sede de sangue saciada a gordos jarros de sadismo, que foi encarnado, que vestiu nas mãos as luvas negras do psicopata, dando vazão à própria psicopatia no conforto de uma ficção.

Absurdo. Inexplicável. Obra que justificaria inteira um século de cinema.

4/4
 

Luis Henrique Boaventura

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