Paixões que Alucinam (Samuel Fuller, 1963)

Dentre tantos filmes concebidos como linhas de fogo contra a América e seus pilares feitos de ossos, Paixões que Alucinam talvez seja o mais maciço. Resumindo um século de história e fazendo das paredes do hospício as fronteiras do seu país, Fuller atravessa Guerra Civil, racismo e construção da bomba atômica a partir da busca do sucesso a qualquer preço como elemento básico da argamassa do american way, nivelando, portanto, três módulos de violência (apesar de a bomba atômica ter sido o mais eficiente instrumento de paz do século XX, mas aí lê-se todo maquinário  e vocação para a guerra dos caras) com a obsessão pela vitória e a realização só encontrada sob caminhos (auto)destrutivos. A idealização do sonho americano, para Fuller, é toda segmentada de violência, e esta, a base sólida para construção de qualquer império, seja o pessoal-profissional, seja o americano. Porque já dizia o Selton Mello naquele Tarantino’s Mind “americano tem que ser alguma coisa na vida, nem que seja funcionário do mês no McDonald’s ou líder dos lobinhos escoteiros”, daí que John Barret e seu foco quase sexual sobre o prêmio Pulitzer é um atestado (preconceituoso ou não, foda-se) da enfermidade (para Fuller) crônica dos ianques.

Não deixa de haver, portanto, um sopro de apologia à mediocridade na óptica do cara. De qualquer forma, e leituras metafórico-masturbatórias à parte, Paixões que Alucinam é sensacional. Peter Breck fantástico e Constance Towers a coisa mais linda do mundo naquele palco. Fuller não deixa de permear tudo com um humor e uma ironia incompatíveis (e por isso mesmo acertadíssimas) com os problemas expostos, ficando claro o quanto ele caga pra o que teoricamente deveria ser tratado com tanta seriedade. Não é exagero, aliás, classificar Paixões que Alucinam como uma comédia de humor negro, numa esquizofrenia de gêneros contrabandeando-se constantemente de um drama pesado de deterioração para uma comédia com toques latentes de Este Mundo é um Hospício. E ouvir um negro correndo atrás de outro aos gritos de “peguem-no antes que se case com minha filha!” não está tão longe de um “CHAAARGE!” como parece. Assim como a regressão de um cientista genial para uma criança de 6 anos, que dialoga, através do vínculo da bomba atômica, com a regressão da humanidade da maturidade à sua infância (o que teria efetivamente ocorrido caso o risco iminente de destruição nuclear da época – 1963 – tivesse se consumado, confirmando ainda a profecia de Einstein naquela resposta sobre as armas numa hipotética 3ª guerra mundial), tem sua força na ironia natural do acontecimento, ainda que as gargalhadas se mantenham num nível mais grave, silencioso, num pano de fundo.

E os últimos dez minutos são orgásmicos, com um surto surrealista e um plano final chocante (ainda que meio previsível – entre outras coisas também – , o que não faz diferença alguma, já que não poderia mesmo ser de outro modo).

3/4

Luis Henrique Boaventura

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