O NÓ DO DIABO (2017) – Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abe, Jhesus Tribuzi

por Gabriel Papaléo

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As maldições historicas das terras brasileiras vem acertar as contas fisicamente com os opressores. Toda essa herança que o solo do país carrega pela violência na qual foi fundado e mantido vem através de uma interessante ressignificação mitológica sobre as lendas que são tradicionalmente orais e literárias no país, uma ideia de apropriação de gênero para comentar uma resistência cultural através da fantasia.

A forma que o segundo curta, dirigido por Gabriel Martins, se destaca vem muito pela disposição de marcar os rituais e a estrutura do terror e inseri-lo num contexto de pavor emocional, de lastro na personagem vivida pela sempre ótima Clebia Sousa, e cuja disposição para o gênero em linguagem não se contém apenas em emular zooms e utilizar o gore pontualmente. É um exemplo das possibilidades que o filme abre mas não concretiza, um ideal de antologia curiosa por ter uma unidade muito clara, e que busca uma atualização do gênero no Brasil como resistência do oprimido de forma similar ao recente As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra.

O flerte com diversos subgêneros do suspense e horror (o filme de cerco, o filme de possessão, o horror de corpo, o medo e delírio no deserto) demarca essa disposição de combate através do retrato de uma realista aumentada fantasiosa justamente para tentar denunciar a violência contra oprimidos ou devolver justiça às tensões raciais.

Essa intenção se perde muito por conta da direção dos outros quatro curtas, focados em estruturas consagradas e se bastando nisso. Por mais que a unidade da antologia chame a atenção, mostrando um trabalho de contextualização historica e espacial em um formato que tradicionalmente não se preocupa demais com isso, existe em O Nó do Diabo um visível interesse maior nas consequências e representações da narrativa que na estrutura e processo dos gêneros nos quais opera. O quarto curta é o que melhor exemplifica essa tendência: o sequestro do acid western para criar um conto de loucura no deserto aliando a uma consciência de classe para expor o abismo de tratamento étnico no Brasil é uma iniciativa com potencial, mas se sabota no momento que o filme exige atmosfera e um visual que dê conta dessa jornada psicológica sem apelar para o mito das palavras. O sertão nunca é ameaçador porque a câmera não o trata como tal, por mais que o texto diga que é. Sobram apenas os simbolismos imagéticos, esses aos montes, com o círculo do flare comentando o eterno retorno das ações, a caveira da morte, a água 

A solução novamente se apresenta no curta de Martins: o cuidado no qual os instrumentos de tortura são filmados dá uma dimensão palpável para toda aquela ameaça, mas são apenas nesses momentos que o filme torna-se um interessante ensaio sobre a mitologia vingando o racismo do Brasil, e não o exercício de gênero burocrático que está em tela.

Visto na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes