O box em Blu-Ray recém-lançado no exterior com todos os filmes de Superman motivou uma revisão, se não completa, ao menos com os melhores filmes do personagem. Mas para compreender o valor e a importância dos primeiros títulos da franquia é preciso voltar no tempo e conhecer suas origens no cinema. Seus produtores, os ingleses Alexander e Ilya Salkind (responsáveis, entre outros filmes, por O Processo, de Orson Welles), haviam obtido muito sucesso com a versão do romance clássico de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, que havia sido concebida inicialmente para ser um épico de 3 horas de duração, sendo depois dividido em duas partes, lançadas separadamente e com um ano de intervalo: Os Três Mosqueteiros e Os Quatro Mosqueteiros — A Vingança de Milady, ambos a cargo da direção de Richard Lester. Um procedimento semelhante ao que Quentin Tarantino faria anos depois com Kill Bill, e que com um verdadeiro frenesi imposto por Lester e a excelência da adaptação, deu origem não a um, mas dois ótimos filmes, custando, entretanto, um processo aos produtores, devido ao elenco ter sido contratado para um filme, e ter participado de dois. Com o êxito, os Salkinds aportaram no cinema americano tendo em mente repetir o sucesso, seguindo a mesma linha de aventura e humor, encontrando nos gibis o personagem do Super-Homem, e encararam o desafio de levá-lo às telas.

Que fique claro que adaptar uma história em quadrinhos naquela época era complemente diferente de fazê-lo hoje em dia: ainda eram os tempos da Nova Hollywood, e o público predominantemente adulto e inteligente, décadas antes da era dos multiplexes. Portanto, a primeira preocupação dos Salkinds foi com a concepção e roteiro da adaptação (atualmente essa parece a última etapa e a menos importante num filme de super-heróis), recorrendo a Mario Puzo, que estava em alta pelo livro e roteiros dos dois O Poderoso Chefão (pelos quais recebeu o Oscar na categoria), para conceber uma história que pudesse ser dividida em dois filmes. Para escrever o roteiro com Puzo, foram contratados alguns dos principais roteiristas da Nova Hollywood, a dupla Robert Benton (que depois se tornaria importante e premiado diretor) e David Newman, responsáveis pelo surgimento da Nova Hollywood ao conceberem Bonnie & Clyde — Uma Rajada de Balas, e que depois escreveriam o western Ninho de Cobras (de Joseph L. Mankiewicz) e homenageariam as comédias screwballs com Essa Pequena é uma Parada (de Peter Bogdanovich). Muito dos primeiros Superman deve bastante a qualidade de seus roteiristas (que inclui ainda Leslie Newman, esposa de David). Com um elenco estelar em mãos (liderado por Marlon Brando e Gene Hackman), a acertada escolha de Christopher Reeve como protagonista, o trabalho de fotografia de Geoffrey Unsworth (de 2001: Uma Odisséia no Espaço), a trilha apoteótica de John Williams (que emula o Assim Falava Zaratustra, de Strauss, não o prólogo, famoso por 2001, mas trechos posteriores), as duas primeiras partes de Superman começaram a ser rodadas simultaneamente, dirigidas por Richard Donner (então considerado uma revelação após A Profecia), para serem lançadas com um ano de intervalo.

Superman — O Filme estourou nas bilheterias como era o esperado, mas depois de Donner ter filmado sessenta por cento do segundo filme, desentendeu-se e foi despedido pelos Salkinds, que chamaram Richard Lester para assumir a direção (Lester já participara da produção do primeiro como supervisor e auxiliar de Donner). Durante muito tempo discutiu-se em fóruns e em tudo quanto é lugar quem seria o verdadeiro realizador de Superman II, mas se haviam dúvidas, elas se dissiparam quando há poucos anos foi lançado um director’s cut com o que seria o corte do Donner pro filme. Lester refilmou quase todas as cenas dirigidas por Donner e completou as filmagens, sobrando de Donner apenas as cenas que filmara com Gene Hackman, que se recusou a continuar no elenco, sendo utilizado um dublê e alguém com voz parecida com a de Hackman para dublá-lo em algumas das cenas em que fosse necessário. Cerca de vinte por cento de cenas filmadas por Donner foram preservadas, só que reeditadas e remixadas por Lester.

Ganhador de uma Palma de Ouro em Cannes por A Bossa da Conquista, na década de sessenta, Richard Lester num primeiro momento pode parecer um tipo improvável num blockbuster, só que ele abraçou a série com todo o empenho. Lester sempre praticou cinema de autor, mas seus filmes na maioria das vezes nunca deixaram de ser comerciais. Os filmes que realizou com os Beatles, Os Reis do Iê-Iê-Iê e Help, foram revolucionários pelo ritmo frenético, pela montagem inventiva e alucinada, por retirarem os Beatles de um pedestal e apresentá-los mais de carne e osso, brincando com a imagem dos integrantes do quarteto, trazendo-os para mais próximo de nós. Ambos foram referência e inspiração para os filmes de estreia de realizadores como Francis Ford Coppola, William Friedkin e Bob Rafelson, que surgiriam pouco depois. Os filmes com os Beatles possuem um toque de aventura, mas também são dotados de um humor físico (Buster Keaton é um dos heróis confessos de Lester) e irreverente, gags ininterruptas, dentro de um conjunto vertiginoso. Muitos desses elementos foram transportados para os dois Mosqueteiros que dirigiu, nos quais tira o pó que poderia sair das páginas emboloradas dos livros de Alexandre Dumas, aliando um notável sentido de aventura com humor que não raro beira o pastelão.

Diante de Superman II e III, Lester também não recuou e imprimiu a sua assinatura e estilo não muito diferente de como se estivesse dirigindo um dos filmes dos Beatles. Fica a questão: seriam então filmes de autor ou de super-heróis? A resposta: os dois. Muitos cineastas autorais, ao assumirem produções milionárias, não raro se descaracterizam e se deixam levar por concessões ao mercado. Ou então se veem sem liberdade para tocar o projeto como gostariam. Não foi o que ocorreu com Lester, que trabalhou com tranquila liberdade nos seus Superman, e impôs sua visão de cinema neles, mais ou menos como tantos autores que investiram sua marca e sensibilidades pessoais nos mais diversos gêneros e filmes de grande público (western, terror, suspense, comédia, etc.).

Eis que Superman II é esta coisa rara: um filme de super-herói tanto quando uma obra autoral, e idolatrado tanto pelos fãs do personagem como pelos admiradores do cineasta (entre os quais há um consenso de que o filme é a obra-prima final de sua carreira). Embora seja em parte uma extensão do primeiro filme (que já possuía bastante humor e aventura), Superman II sofre menos sem o gigantismo e a necessidade de mostrar e explicar as origens do personagem, podendo ir direto ao ponto, como se o primeiro fosse somente um longo prólogo para este. E mais importante: sem uma contemplação mitológica que havia no trabalho de Donner (que se pode dizer, era um equivalente anos setenta a filmes épicos mais antigos como Ben-Hur), Lester uma vez mais retira seu herói do pedestal, de um excesso de seriedade e reverência que por vezes pesava no filme original.

Após um breve resumo dos fatos do filme anterior (com Lester refilmando os trechos com os três vilões de Krypton e os de Susanna York como a mãe do Super-Herói), o longa começa em plena ação com o Super-Homem tirando uma bomba da Torre Eiffel, e ao jogá-la para o espaço, a sua explosão provoca a libertação do general Zod (Terence Stamp) e seus comparsas, os vilões que haviam sido expulsos de Krypton e presos em outra dimensão.  O filme passa a se desenvolver em três eixos através da montagem em paralelo: a vinda e posterior dominação dos vilões sobre a Terra, a fuga de Lex Luthor (Hackman) da prisão, e a relação de Clark Kent (Reeve) e Louis Lane (Margott Kidder) na redação do Planeta Diário e depois nas Cataratas do Niágara, aonde vão para cobrir uma matéria. Lester vai construindo seu filme mesclando tensão, aventura e humor, como nas tiradas sempre cheias de irresistível sarcasmo do personagem de Hackman e o ajudante atrapalhado vivido por Ned Beatty. Há cenas cômicas exageradas que antecipam o pastelão de Superman III, como a em que Clark Kent é atropelado por um táxi e a dianteira do carro é amassada enquanto o personagem cruza calmamente a rua (ou no final, com o estrago provocado por Clark em um bar). Já as sequências passadas na redação do jornal, com toda a velocidade da construção impecável dos diálogos, lembram as clássicas comédias screwballs dos anos 30, remetendo à parcerias de Howard Hawks e Cary Grant, como Jejum de Amor, com as faíscas que surgem da interação entre Clark e Lane, e seus colegas e ambiente de trabalho.

É um filme de síntese na franquia de Superman, entre a aventura recheada de ação da primeira parte, e o humor exagerado da terceira. Ambas as tendências estão presentes em equilíbrio em Superman II, com os maiores vilões que o herói enfrentaria em toda a série, os rebeldes de Krypton que possuem os seus mesmos poderes. Lex Luthor é um criminoso sem força física ou sobre-humana, dotado apenas de seu intelecto e capacidade de manipulação. Já a dominação de Zod e sua turma na Terra é gradual e absoluta, como a de qualquer ficção apocalíptica em torno de invasores vindos de um planeta distante causando terror e destruição, ganhando uma vitalidade de espetáculo físico, e incluindo visões de guerra e de conflito num microscomo que é só um passo a uma dimensão maior. Cenas como a calamidade provocada pelo vilões soprando ventos de ar contra a multidão na espetacular luta noturna em Metrópolis que ocupa a meia hora final do filme são ao mesmo tempo engraçadas e desesperadoras. Brincalhão como de costume, Lester tripudia com imagens tradicionais como as das faces do Monte Rushmore sendo destroçadas e reconstruídas com as dos rostos dos vilões, ou a ocupação e quebra das paredes e portas da Casa Branca. De memória só consigo lembrar de outro filme (Fuga de Nova York, de John Carpenter, realizado um ano depois) em que uma figura sempre respeitável e imaculada no cinema como o presidente norte-americano tenha sido submetida a humilhações e flagelações com os impropérios que ouve ou o fato de ter que se ajoelhar a um inimigo invasor como em Superman II.

Oposto a isso tudo, a ausência de Super-Homem, numa história de perdas e de renúncias, com um personagem dividido entre a dificuldade (e impossibilidade) de se encaixar numa espécie que não é sua, ao tentar manter um romance com Louis Laine, e o senso de dever de salvar a humanidade. Peter Tonguette, no seu excelente artigo sobre Richard Lester para a Senses of Cinema, chama Superman II de um improvável trabalho de síntese dos elementos que compõem sua obra e de talvez o mais explicitamente romântico dos filmes de Lester, constituindo-se o ápice de uma tendência que normalmente permanecia submersa, porém surgindo claramente em alguns de seus filmes: Petúlia (possivelmente o melhor trabalho do diretor) era um melancólico estudo de encontros, crises conjugais e relacionamentos inusitados em torno de um casal de amantes (interpretados por George C. Scott e Julie Christie) em meio à revolução de costumes, enquanto que Robin e Marian ousava imaginar um romance crepuscular entre um envelhecido Robin Hood e sua amada (Sean Connery e Audrey Hepbun) em mais um trabalho de desmistificação de um herói tradicional em sua filmografia. Tonguette diz que quando o amor irrompe nos filmes de Lester, é sempre dentro de circunstâncias adversas, afetadas pela realidade do mundo exterior, conferindo uma dimensão trágica à visão romântica do diretor. “A cena final de Clark beijando Louis para que ela apague da memória o caso que teve com ele enquanto Super-Homem é dolorosa em seu sentido de perda”, completa.

Mesmo assim, Superman II é diversão incessante, permanecendo ainda hoje como o melhor e mais divertido filme de super-heróis já produzidos. Um dos aspectos mais impressionantes é sua noção de ritmo, assim como seu roteiro quase impecável onde cada cena cumpre uma função específica e brilhante dentro da estrutura do filme. Existe ainda hoje um ideal que sempre dominou a crítica, que tende a associar a qualidade artística ao que seriam “os grandes temas” (herança da literatura), “as grandes imagens” (o peso da pintura) ou os textos redondos e solos de interpretação super-elaborados (herança do teatro). Uma vontade, pois, quase elitista, de arte “inteligente”, e que desconhece que o cinema é de natureza tão particular cuja essência envolve formas, ritmos, harmonias e desarmonias visuais, podendo se manifestar plenamente em filmes B, de gênero ou até num blockbuster, por que não? Certos filmes sofrerão eternamente os mesmos preconceitos. Eles Vivem, por exemplo, dificilmente é reconhecido como a intensa obra política que Carpenter ousou fazer. Assim como alguns de Paul Verhoeven, ou Planeta dos Macacos de Tim Burton. Não são filmes de grife. São aparentemente vagabundos, e necessitam de uma compreensão e entendimento maior do que está por trás de suas imagens violentas (ou bem-humoradas, quando for o caso). O mesmo com Superman II e III de Richard Lester.

Não é difícil gostar de Superman II. Longe de ser fácil, porém, é encarar o terceiro filme sem um misto de espanto e perplexidade, que normalmente se transforma em frustração e aborrecimento em fãs habituados às abordagens mais tradicionais com o personagem. Mas é só estar disposto a uma compreensão um pouco mais ampla da função das ideias concebidas por Lester e seus roteiristas (e é incrível como o diretor consegue executá-las), num entendimento de que não é preciso pensar os elementos em torno das histórias de super-heróis como se fossem processos estanques e pragmáticos, para reconhecer que há todo um projeto e noção de cinema existente em Superman III. Para começar, basta observar a extraordinária e longa sequência durante os créditos de abertura envolvendo diversos personagens (incluindo as primeiras aparições de Clark Kent e Super-Homem) em torno de desastres no tráfego que é digna do cinema de Jacques Tati. O filme todo se constitui de uma série de invenções cômicas por trás da moldura de um filme de aventura como devem ser os da franquia do personagem, que já em seu terceiro capítulo não possuía mais quem pudesse enfrentar se não ele próprio.

Não haveria sentido em repetir todo um esquema e procedimentos que os dois primeiros filmes esgotaram por completo. Superman III vai além e um de seus grandes trunfos é justamente brincar com a imagem fantasiosa que temos dos super-heróis. Robert Vaughn encarna o criminoso multimilionário da vez, e Richard Pryor (comediante popular na TV americana da época, mas veneno de bilheteria no cinema) o seu ajudante atrapalhado, um gênio da informática que antecipa muito dos hackers que viriam com o avanço dos computadores. Os vilões descobrem um tipo de Kryptonita que, em vez de enfraquecer Super-Homem, o torna “humano”, permanecendo com os mesmos poderes, mas com os bons sentimentos substituídos pela ganância, luxúria, desprezo e indiferença. A situação é tratada com humor, mas causa um curto na visão de qualquer espectador: o maior herói do mundo comete travessuras como desentortar a famosa torre de Pisa, acaba com toda a solenidade existente na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos ao apagar a chama da tocha olímpica diante de um vasto público, se permite se dar aos prazeres da carne com uma ajudante do vilão (que brinca com o estereótipo da loira burra e gostosa lendo e discutindo Kant) ou beber e treinar tiro ao alvo com amendoim e destruir as garrafas do dono do bar. Não é o caso, como fazem os detratores ou mesmo eventuais fãs de Superman III, de reduzir o filme a uma piada (o que seria um desfavor ao filme e ao seu cineasta); trata-se de mais um processo de desconstrução icônica de um mito da cultura pop contemporânea numa aventura satírica como Lester (iconoclasta por excelência) já fizera nos seus filmes com os Beatles. Superman III vai se tornando progressivamente o filme mais insano do diretor desde Help, que também exarcebava essa tendência ao colocar os fab four nas situações mais malucas e inusitadas (especialmente as que envolviam Ringo Starr), destruindo com a imagem imaculada que possuíam aos olhos do público, terminando Superman III por encerrar um ciclo de vinte anos de ótimos filmes do seu realizador.

Por sinal, Lester não deixa de incluir uma música dos Beatles em Superman III, o que pode ser encarado como uma citação bastante direta ao seu trabalho. A canção toca no baile da reunião da classe em que Clark Kent comparece em sua visita de retorno a Smallville (fazendo a ponte com o que é mostrado no primeiro filme), reencontrando Lana Lang (Annette O’Toole), personagem importante dos quadrinhos e do universo do super-herói, que substitui Louis Laine como interesse romântico de Kent (Margot Kidder só faz uma ponta, o que é coerente com os rumos da série, visto que o ciclo da relação de sua personagem com o protagonista também se fechara no final do segundo filme). Superman III possui também outros belos momentos como os estragos provocados pelo computador programado por Richard Pryor (o que inclui um nonsense inacreditável envolvendo um sinal de trânsito). Ou o duelo entre Clark Kent e Superman, sem dúvida uma das melhores cenas de luta de toda a série. No clímax, Lester escancara a relação da indústria com os super-heróis: eles são apenas instrumentos de um jogo de videogame (a própria Atari, uma das principais responsáveis pela popularização dos games, foi contratada para criar animações do Super-Homem para o filme, enquanto o vilão comanda os ataques ao herói como se estivesse num jogo), sendo que no filme inteiro o cineasta investe parcialmente em desestabilizar esta lógica, ousando vestir o uniforme do personagem para satirizá-lo de dentro do seu sistema de produção.

Superman III é o filme maldito da franquia, e o canto do cisne do talento de Lester. Como Popeye, de Robert Altman, nunca foi um filme benquisto por ser uma comédia que subverte completamente a noção dos filmes de super-heróis. A má-recepção de ambos os filmes e os fracassos de bilheterias de outras obras transgressoras ou críticas de grandes diretores daquele período, como O Portal do Paraíso, O Fundo do Coração e O Rei da Comédia, foi um duro golpe no cinema de autor em Hollywood — além de que filmes com super-heróis desde então nunca mais seriam os mesmos. Quanto a Richard Lester, ficou queimado na indústria cinematográfica, e praticamente não pôde mais dirigir, tendo que se contentar com uma terceira parte de Os Mosqueteiros (O Retorno do Mosqueteiro, que foi uma decepção total). O seu velho amigo Paul McCartney o chamou para o que até agora é o seu último trabalho no cinema, o documentário Get Back, feito há exatos vinte anos. Um desperdício.