A morte circunda o cinema de Clint Eastwood. Ela ronda como uma assombração os personagens de muitos dos trabalhos que dirigiu, desde os seus melhores westerns (Josey Wales e Os Imperdoáveis), passando por Honkytonk Man, Um Mundo Perfeito, As Pontes de Madison, Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, A Troca, Cartas de Iwo Jima e Gran Torino, entre outros. Não é de estranhar que tenha feito dela o assunto desse seu mais recente longa, Além da Vida, agora com o filme circundando o tema (e não o contrário, como nos exemplos citados acima).

Pena ele ter sido encarado com a expectativa errada: a de filme espírita e sobre o além. Não que não trate dessas questões, mas se conservando o tempo todo no plano terreno, com os seus eixos girando mais em torno da vida antes da morte, e da relação dos personagens com ela. Um filme, sobretudo, de encontros, perdas, procuras e reencontros. Em alguns aspectos não tão diferente, à sua maneira, em relação (e em como lida com o tema) a um filme como Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, que por sua vez desenvolve-se como um filme de fantasia, enquanto Além da Vida permanece no real, bem mais pé-no-chão.

Mas quem chegou mais perto de um paralelo certeiro com o filme de Clint foi o crítico Sérgio Alpendre, ao invocar a obra-prima de Alain Resnais Medos Privados em Lugares Públicos, com a sua junção de histórias paralelas ocorrendo de maneira natural, em torno das dificuldades (ou impossibilidade) de laços permanentes entre as pessoas. Clint o faz com a grande elegância e sensibilidade que lhe são habituais, e dessa vez não faltou quem o apontasse como num meio caminho entre o filme europeu e o hollywoodiano.

Além da Vida não é um filme de respostas, mas de incertezas e de mistério diante de um fenômeno. Que outro filme “espírita” (aqui as aspas fazem todo o sentido) apresentaria uma série de charlatões e embusteiros mediúnicos como os que um dos protagonistas (o garoto) encontra pelo caminho? Mesmo os próprios personagens que vivenciam os flashes mostrados de algum além possível são obrigados a reconhecer a probabilidade de essas visões fugazes serem fruto de uma alucinação provocada por traumatismos decorrentes dos acidentes que sofreram em algum momento da vida. As tais sessões de “comunicação” realizadas a contragosto pelo personagem de Matt Damon nos são transmitidas unicamente por seus relatos, não por visualizações coloridas e exageradas do que ele pudesse estar enxergando. É tudo sóbrio, direto, sem firulas ou rebuscamentos.

Os três personagens centrais de Além da Vida manifestam insatisfações variadas com suas vidas, independente se vítimas ou não, todos são parte de um grande acaso que é a humanidade, que entre outras coisas faz com que um dos garotos escape de um desastre no metrô, ou antes ainda, seja o irmão e não ele quem sofra as consequências de um acidente tão perto da casa onde moram. Na América, George (Matt Damon) é um condenado a relações fadadas a não se consumar, e com potencial, mas sem vocação, para se tornar o guia espiritual incentivado por seu irmão Billy (Jay Mohr). Seu dom mediúnico não é uma benção, mas uma maldição, é o que George tenta lhe explicar, tendo, consequentemente, sofrido com isso desde muito tempo, por praticamente não poder tocar em quem lhe interessa, sem consequências desagradáveis (o que resulta nas cenas de Damon com a personagem de Bryce Dallas Howard, talvez as mais belas do cinema americano nos últimos dois ou três anos).

O filme, na verdade, começa com o famoso e trágico tsunami de 2004, no qual Marie (Cécile de France), uma apresentadora francesa de férias com o namorado em uma praia no Japão, sobrevive após uma experiência de quase-morte. Uma menção especial à cena do tsunami, com mais eficácia e autenticidade que qualquer outra sequência de desastre no cinema contemporâneo. Quanto a Marie, após o breve período entre vida e morte, passa a enxergar e se interessar de maneira diferente pelas coisas terrenas, como se nascesse de novo — o que em momento algum é mostrado como algo edificante, apenas como parte de uma rede de ações e transformações que perpassam ao longo do filme.

O vértice do triângulo de histórias é em torno dos pequenos gêmeos ingleses Marcus e Jason (vividos por Frankie e George McLaren), que cuidam da mãe problemática e desempregada até a inevitável separação. Não é um filme sobre os mortos, mas sobre o apego dos vivos por aqueles, como Marcus preservando em si próprio o antigo chapéu de sua metade que partiu. Os filmes de Clint quase sempre são sobre algum determinado acerto de contas, de seus personagens consigo mesmos (e suas consciências) e frente aos outros, e de um processo de conciliação (ou reconciliação), e Além da Vida não poderia ser diferente. Um filme notável em sua busca bem particular para dar corpo a um encontro: o de duas solidões que se procuram.