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À sombra do híbrido biológico mecânico

Por Geo Abreu

Uma das principais alegorias do humano moderno pode ser resumida à cena em que Charles Chaplin aperta parafusos na linha de produção de uma fábrica em Tempos Modernos. Essa automatização ligada a movimentos repetitivos e condições ultrajantes de exploração seria o começo de uma linha evolutiva que muito em breve encontraria com a humanidade no estágio de completa transformação de ser biológico em máquina segundo as projeções de fantasmagoria da época.

O conceito de antropoceno trouxe para essa matéria novas questões e o cinema como lugar de elaboração das projeções humanas vem explorando os fantasmas do antropoceno como em Pajeú, filme de Pedro Diógenes ou Fog Dog, filme de Daniel Steegmann Mangrané. As contaminações químicas do solo e da água perpetradas por resíduos industriais tratados de maneira irresponsável, além das camadas de substâncias tóxicas que compõem a atmosfera provenientes da indústria química, tem contribuído para o desaparecimento de diversas espécies como também para o surgimento de híbridos ainda não classificados. 

A pergunta que nos assombra hoje é: de que formas essa combinação de elementos exógenos é capaz de nos afetar? Sugiro mantermos essa pergunta em mente enquanto encontramos com Titane, o longa dirigido por Julia Ducornau.

O encontro 

Arisco, o filme não entrega muita explicação para o que se desenrola na tela. Em dois atos bem marcados, acompanhamos a saga de uma figura híbrida que trava com o mundo embates extremamente violentos. Sua fúria expõe o drama que a atravessa: compreender as razões que movimentam as pessoas comuns. Titane, como o próprio título sugere, carrega consigo algo de extraordinário, um segredo, do qual o filme vai nos revelando apenas aspectos parciais, embalados em signos que podem ser facilmente lidos como adesão a assuntos que estão em alta no debate público.

Sem oferecer qualquer elemento que configure a exterioridade daquela personagem – nem estrangeira, tampouco extraterrestre – a primeira parte de sua história gira em torno da sua pouca adesão ao projeto humano expressa por uma curiosidade mórbida sobre os limites do corpo e das relações intraespecíficas. 

Desde pequena a jovem Titane esgarça a convenção da empatia, levando ao extremo todas as relações que trava, testando cada uma delas a partir de balizas muito próprias. Da tentativa de chamar a atenção do pai, provocando assim um acidente que lhe deixa uma marca profunda, até a performance provocativa em cima do carro – que atrai a primeira vítima que conhecemos -, suas atitudes desafiam a ideia de que sentimentos como dor e amor são condições inerentes à nossa natureza. 

Apostando no horror biológico como em filmes anteriores seus –  Júnior e RAW – Ducornau segue explorando o assombro que nosso corpo e suas constantes mutações são capazes de produzir, se aproximando pelo uso do neon e das parábolas cristãs a Divino Amor de Gabriel Mascaro. Indo um pouco além, a diretora projeta esse futuro de híbridos biológicos mecânicos cujos primeiros exemplares estão prestes a chegar.

Sangue e óleo

A jornada de Titane então é a da busca pela porção de humanidade que a compõe. Consciente de sua raridade, expressa sua sexualidade de forma predatória, com fluidez por escolhas às mais diversas a fim de explorar as possibilidades, como numa pesquisa de ordem urgente da qual depende a própria continuidade de sua existência. e aqui fica a certeza de que ela poderia assumir a forma de qualquer coisa de aspecto maquínico: mulher, homem, carro. Árvore, nunca.

À medida que as escolhas da protagonista se radicalizam e ela decide assumir a identidade de outra pessoa o filme se transforma, seguindo o movimento da personagem. Acolhida por um homem solitário e carente, Titane passa então a projetar-se num ambiente extremamente masculino, guiado pela figura desse pai que não mede esforços para inseri-lo em sua rotina. 

Desconhecendo os segredos do filho reeencontrado, o pai estabelece uma curiosa relação entre sua família recém reunida e a santíssima trindade: ele, no centro da corporação que comanda, atuando como um deus para seus subalternos; o filho, como jesus (e maria ao mesmo tempo); e um “milagre” que parece ser a verdadeira chave dessa história. 

A partir de então acompanhamos o sofrimento do protagonista frente a sua atual condição e os mistérios que carrega: a barriga que cresce e precisa ser escondida e o óleo que escorre pelas tetas e ferimentos, reforçando a distância entre ele e os meros mortais. Uma alegoria interessante para esse tipo novo que parece gerado a partir de fluidos inócuos, incapazes de carregar em seus genes informações básicas e ancestrais sobre o que seja humano. 

Assim caminhamos para o final que está longe de ser a redenção da espécie, senão apenas daquele pai que finalmente encontra um filho para chamar de seu. Diferente do caráter milagroso assumido pela criança nascida ao final de Divino Amor, o que Titane nos apresenta é uma pessoa que parece ser a primeira de uma série, aquela que consolida a fusão humano-máquina depois de todo petróleo e demais substâncias tóxicas às quais temos sido expostas. Um tipo novo, um híbrido biológico-mecânico do qual pouco sabemos.

Exorcismo Permanente

Por João Pedro Faro

Do cemitério só voltam os vivos. Eles são as sombras que cruzam o primeiro plano de Vitalina Varela, arrastando os pés pelo chão de rocha, para logo irem assombrar a casa da viúva. Ela, que veio de longe, fazendo o caminho inverso do colono e retornando de Cabo Verde para Portugal, chegou atrasada para o funeral do marido. Sua casa não é sua, os camaradas do marido morto não param de tocar à porta. Ficam no limite das portas, como vultos; sussurram entre si, pelos cômodos, histórias dessa vida passada que ali já não mora mais. São espectros de uma inabitação, verdadeiros assombros que à nova moradora recordam a origem das manchas nas paredes e das rachaduras no telhado. Não há fantasma de morto algum, o que existe é a presença, marcada por todo o barraco, de um prévio habitante que não permite uma mudança tão simples, que incita, por todos os rastros que deixou em vida, a expulsão de um intruso . Vitalina decide permanecer.

Seu nome surge duas vezes escrito na tela, primeiro como título e depois, ao final, como atriz. Vitalina Varela é uma personagem em excesso, do tipo que parece circundada por tantos caminhos de criação, que fica difícil aproximar-se com uma leitura sem a sensação de estarmos deixando de lado muitas outras possibilidades. Falemos do que se vê: seu rosto nos incita, num primeiro momento, a concentrarmo-nos em seus olhos. É justo, são olhos difíceis de evitar, enchem a interpretação de perigo nos momentos mais instáveis (sempre que o barraco parece estar à beira de cair, ou quando mais um sujeito se infiltra em sua residência sem pedir para entrar) e nivelam a altura da câmera quando a personagem precisa estabelecer sua presença (a perceber como eles se fixam no escuro durante os monólogos com o marido que não está lá).  A compreensão sobre esses olhos pode ser resumida ao notarmos que, em vez de Vanda Duarte como um tipo Miriam Hopkins, Vitalina está bem mais próxima de Joan Crawford. 

Por outro caminho, parece ainda mais impressionante sua capacidade de permanecer rígida em cena. Não se trata da mesma rigidez dos que firmam seus pés nas marcações dos quadros, como os vizinhos da favela ou as visitas indesejadas. Vitalina se estabelece ante a lente, por toda a extensão de sua figura, com a placidez de um concreto. Como no quadro iluminado pela luz do sol em um dos seus primeiros dias no barraco, em que se contorce à beira da cama a ponto de encaixar nos quatro cantos da tela, ou nas imagens que a centralizam violentamente (no banheiro, na cama, na sala), quando ela se torna o tronco de todas as ramificações de sombras e luzes que justificam o enquadramento. Que um filme que leva no título o nome de sua principal intérprete ocupe a maior parte de seu tempo procurando diferentes maneiras de encaixá-la no quadro, não se trata de nenhum espanto; mas sua execução certamente precede um conjunto de composições difíceis de equivalerem a outra atriz tão concêntrica quanto Vitalina.

Em conjunto, sua voz tonaliza toda a criação da personagem. Ela é suficiente para, com apenas um mando de livramento, expulsar o conglomerado do barraco; e para convencer, com determinadas pausas e determinadas entonações, um padre sem fé a rezar uma missa. A língua crioula, tão essencial ao som do filme quanto as misturas do extracampo da favela, fornece duas importantes cimentações: a da distância, da vinda de um outro lugar que recusa a osmose completa ao plano presente, e a da insistência, de uma decisão de imutabilidade que torna Vitalina a transformadora de todo o resto, e não o contrário. 

A contraparte de sua interpretação vem de Ventura, o tal padre em desespero com o plano terreno — culpa de um céu escurecido. Ventura, um ator mais do que calejado, é o oposto da rigidez e da firmação de Vitalina, é um personagem trêmulo, indisposto, desistente, quebrado. Diferente de quando interpretava uma mitificação mais particular de sua imagem, em Vitalina Varela sua desolação não é pela vida que ainda precisa viver, e sim pelas vidas que se foram. Igualmente, sua crise não é política ou habitacional, é precisamente espiritual. Nessa nova jornada de desespero, enquadrá-lo parece um ato comum ao realizador, e mesmo que lhe sejam entregues alguns dos mais definidores planos do filme (pensemos naquela única panorâmica que conecta dois becos estreitos, ou naquela grade desgastada que lhe serve de auréola), é fácil perceber que o seu papel é o de moldar, ao lado de todos os outros intérpretes, o ambiente a ser conquistado por Vitalina.

É justamente na pouca sutileza (ou quase grosseria) de um personagem como o de Ventura que o filme demonstra o alcance da sua encenação, plástica e método. Para além de trabalhos anteriores, as Odisseias de Ventura inclusas, Vitalina Varela configura uma transparência aterradora de criações com os sujeitos (passos, movimentos, respirações, olhares) e os cenários (as luzes quadradas, as imagens nas paredes, as curvas dos becos), que demonstram vivacidade pela via do falsário, da construção, dentro de uma trilha inevitavelmente dramática. Não só isso, como ainda não teme banalidades e explicitações (antes mesmo do título aparecer, já temos sangue e lágrimas em tela), apresentando seus personagens como disposições dessas idiossincrasias. Ou seja, trata-se de uma dramaturgia altamente cenográfica. Chamá-lo de melodrama seria uma canalhice, mas é difícil dizer que o filme não invoca sentimentos desestabilizantes bastante objetivos pela formação de um mundo calculado pelas sensações.

O que é preciso ser lembrado sobre as formulações das ruínas e habitações da favela, além da igreja, do cemitério e do bosque que dão palco ao filme, é que nunca se trata de um cinema feito por locações. O propósito é transformar esses lugares em verdadeiros estúdios cinematográficos, erguimentos feitos especialmente para serem resguardados pelo quadro. É assim que o fundo das imagens pode, por vezes, se abster por completo de iluminação, mergulhando os intérpretes no escuro total e apagando os limites da janela reduzida, experimentando com a forma quadrada que acaba por transformar-se em janelas circulares (o túnel, a grade) ou até verticais (com a câmera escondida por trás das paredes das vielas). Também pode redesenhar toda a paisagem, até que ela não se pareça com nada real, como acontece, em mais de uma ocasião, com o céu (a sequência da tempestade no telhado não estaria fora do lugar, se presente em qualquer uma daquelas produções de outrora, que faziam suas paisagens com tinta na parede ).

Mas esse ambiente de criações não está a serviço apenas do campo estético. O que está em jogo é a possibilidade narrativa de cada plano de Vitalina Varela, onde nunca se abriga um corte sem que nele se encerre um gesto ulterior. A narrativa dos planos geralmente é a da travessia, personagens que cruzam a tela de um canto a outro ou percorrem seu centro, se esgueiram pelas beiradas, se arrastam do escuro para a luz, etc. Quando filma diálogos, a narrativa do plano se atém a movimentações macroscopicamente dramáticas. O melhor exemplo deve ser o da personagem que, após acender um cigarro com uma vela ao falecido, aparece no plano seguinte iluminada por um círculo de luz na porta. Ao abandonar a tentativa de conversa com o seu noivo, que logo invade o canto do plano, ela transita para o escuro, deixando a luz pendurada na porta solitária. E o plano só vai cortar quando Vitalina fecha a porta de casa, deixando os problemas conjugais dos outros para fora do barraco (ou seja, para fora do enquadramento). 

A estrutura que permite com que cada plano tenha sua narrativa é também uma estrutura de tensão. Depois de um tempo começa a ficar claro que a imagem não vai cortar antes que o personagem encerre um gesto, parte do que torna a experiência constantemente engajada com cada ação em cena. Sendo Vitalina Varela circundado pela necessidade de expurgo de sua intérprete, é condizente que o estado das coisas seja o da apreensão. Como explica o Padre, em um de seus breves momentos de ciência, “o medo também leva ao céu

Vitalina, apesar de não estar em busca de salvação, utiliza-se do medo como uma forma de exorcismo do barraco do marido morto.  Que outra forma de enfrentar um espaço que se decidiu assaltar, senão pela exposição de todos os sentimentos que a perpassam dentro daqueles assombrosos limites? Ela esclarece às paredes que não perdoa o morto, ao mesmo tempo em que resguarda suas memórias e compreende suas mentiras. Também teme a queda do telhado enquanto deixa que os tijolos lhe caiam na cabeça, não aceita falar o português enquanto lê as tiras de jornal coladas pela cozinha. Por estar a par de suas contradições e feiuras, por insistir ser parte de sua insalubridade e reconhecer esse lugar que não lhe pertence como terreno de conquistas, Vitalina vence o barraco para si. Uma colonização individual que carrega toda a violência da palavra.

É um processo que não se encerra por completo e deve continuar dependendo de sua insistência e de suas aberturas ao concreto falho, por sua rigidez contra a instabilidade de uma habitação inabitável e inabitada. As memórias de sua antiga casa em Cabo Verde, que construiu com o morto, penetram o presente como mais uma firmação indesejada no barraco, mais um exorcismo. O domínio de um espaço nunca é permanente, isso filmes anteriores já estabeleceram; o que Vitalina consegue é tornar aquelas ruínas como sendo suas, pela intimidade que assalta dos mofos, das infiltrações e das rachaduras. Não é que a casa esteja livre de espíritos, ela só está abarcando novas assombrações. 

Paris Nos Pertence

Por Gabriel Papaléo

É um trem, ou um metrô, que nos traz à cidade. E quando chegarmos é possível sentir no ar o ponto de convergência entre a paranoia política e o niilismo que paira por Paris sob os signos dos intelectuais. Dali em diante, testemunharemos encontros de almas à procura de sentido, a experiência de dobrar um texto às suas vontades (e também limitações), as disparidades culturais na forma de expressar suas dialéticas, e as intrigas e amarguras passadas que vem com a necessidade de conviver num círculo social no qual os rostos, e sobretudo os desejos, se repetem insistentemente.

Jacques Rivette, interessado nos jogos místicos, na performance humana diante dos astros, na fronteira do ludismo mágico e sombrio cujos canais habitantes do realismo se tornam metafísicos, começa seu primeiro longa com personagens espalhados pela dramaturgia, sem curso específico, focado totalmente em comportamento. É a partir das discussões sobre o suicídio de Juan, um elo misterioso entre os tipos que conhecemos, que começa a investigação dessa deturpada sensação de desarranjo que podemos chamar de transição dos tempos. A encenação então coloca Anne pra procurar pelo fantasma de Juan em busca de respostas emocionais para sua desaparição, indo de pessoa a pessoa ouvir seus relatos e impressões, porque à margem de respostas há de se entender esse estranho sabor do suicídio entre os artistas ao seu redor. A investigação pela melodia de Juan se torna uma dialética travada, quase um mapa de influências que o personagem exercia, para descobrir – ou intuir, já que não há respostas unas – onde reside o segredo da alma de quem foi interpretado pelos outros de formas tão distintas. Existe um fantasma à solta, e não sabemos se é o espírito de Juan, ou uma conspiração muito maior. A carpintaria dramatúrgica de Rivette é interessada nos labirintos e nas teorias ocultas, e na forma de dar corpo a essas abstrações é que encontra novas formas de fantasmagoria. Que essa arquitetura se traduza em imagens desconfiadas é uma característica fundamental para que os votos místicos do diretor criem vida.

Ao investigar a morte de Juan, Anne conhece a consciência incomunicável da cidade, e a rigorosa encenação de Rivette parte de interações cotidianas, da declamação da peça encenada por Gerard às confissões ao pé de ouvido nos apartamentos dos personagens, para se concretizar num oblíquo jogo de sedução com o não-dito. A cidade é um coral misterioso, e ocasionalmente interessa ao diretor que acessemos, sempre que breve, esse estado flutuante dos habitantes que desconhecemos – como na sequência em que Phillip narra o nome, idade e ocupação dos seus vizinhos, até Anne o interromper quando reconhece uma das vizinhas.

Essa escolha de retrato fugidio da cidade não vem sem percalços, e se reflete diretamente na arriscada identificação de Rivette com Gerard, o diretor teatral. A forma que o cineasta compra as palavras do diretor, em especial na cena da conversa com Anne na ponte, sublinha muito do sentido do filme sem que haja nessa opção uma fricção narrativa entre os personagens que a justifique. Em imagens e sons percebemos o fio narrativo entrelaçado pela música destoante, pela estrutura dos encontros, a sensação palpável do desarranjo da vida refletido na cidade. É um personagem complexo porque é o único que parece progredir no filme, no processo abrasivo de sua adaptação de Péricles de Shakespeare diante da investigação convoluta de Anne, presa na teia de contradições e paranoias de seus encontros. Quando Rivette compra sua visão de mundo, a do artista em busca de autonomia, não é sob as lacunas fantásticas de alguma obra posterior como Duelle; parece a vontade de tornar discurso falado o que a dramaturgia já dá conta. Paris nos Pertence exala a ansiedade jovem, a pulsão de organizar ideias estimulantes e as deixar acumular sem necessariamente ter precisão, verborrágico e disposto a buscar perguntas além do bom senso; dentro de suas aspirações, um filme jovem, enfim.

Por acaso, ou por tremenda boa vontade do cineasta em se manter aberto ao acúmulo romanesco de comportamentos dos sujeitos que filma, a estrutura dramatúrgica de falência do personagem acompanha diretamente o movimento de desaparições com a cidade. A amargura toma conta do encantamento, contaminada pelo dinheiro, pela influência, pelo exercício do poder até mesmo no mais modesto proscênio; o niilismo se infiltra no místico.

O que é niilismo na França pré-1968 – e vale lembrar como o filme sintoniza movimentos políticos posteriores – também é paranoia diante da necessidade de fuga dos perseguidos políticos; a figura de Phillip Kaufman, escritor aclamado e exilado político, habita Paris como fugitivo da América sem trocar o modus operandi do acossado. Sua relação com Terry, sua ex que também é a viúva de Juan, é marcada pela desconfiança e pela amarga herança do relacionamento. Seu comportamento aos poucos o obriga a se isolar, a duvidar das amizades dali, da hospitalidade antes insuspeita do país que o acolheu. O isolamento e a paranoia andam juntos, mas é na criatividade e na imaginação onde reside a verossimilhança da intriga que alguém propõe para convencer ao mundo da soberania desse comportamento; alguém definido como “brilhante escritor, ganhador do Pulitzer” pelo círculo intelectual que o abriga pode ter em mãos a influência dos deuses.

E o que Rivette imagina é uma profunda e detalhada descrição do fim do mundo, que apaga as luzes dos cômodos confortáveis, que reduz subitamente a importância dos conflitos internos, que traz a urgência da destruição. Terry profetiza nos seus graves monólogos, Phillip destila sua paranóia, e em algum momento a imagem – e irrevogavelmente nós espectadores – passa(m) a acreditar nisso; através da palavra organizações secretas operam nas sombras com suas ferramentas e meandros desconhecidos.

Como se imagina a presença da cidade-título diante da constante sensação de perigo à espreita, refém de forças ocultas, quando a cidade parece exigir ser evitada? Pensemos em Godard em Acossado e Truffaut em Os Incompreendidos, para ficarmos nos exemplos próximos em época, contexto, e de base teórica similar ao cineasta. O esforço de filmar na rua, os personagens transitando por Paris, a esmo ou com objetivos fixos, parte do encanto com as possibilidades da locação, do que o movimento das ruas tem a oferecer para essas novas abordagens estéticas que se ensaiam: em Godard, uma Paris do embate entre o charme do criminoso que pensa a dominar com a turista à procura das aventuras que uma visão distanciada de cidade tem a oferecer; em Truffaut, uma Paris de juventude, de pequenas descobertas, de lugares a frequentar, hábitos a construir, rituais a sedimentar. O que une os dois, a disposição benjaminiana de andar pelos corredores claros e escuros da capital europeia planejada à exaustão.

No entanto, flanar não é uma opção tão viável para Rivette da forma que era para seus companheiros de Cahiers du Cinema. Seus personagens começam ocupando Paris com sua juventude, andando pelas pontes, sentando-se em seus bancos, ensaiando peças ao ar livre. Mas aos poucos, Paris se torna ameaça, e todos os acossados se tornam paranóicos, seja essa paranoia herdada do outro lado do Atlântico Norte ou pela própria articulação pessimista de pensamento doméstica; o filme começa a se tornar um jogo de internas, de conversas em apartamentos, e todo o emocional investido por essas relações veste uma desvelada clausura. A reiteração do estado de paranoia toma conta do filme, na cidade que aos poucos vai sumindo, as internas que se espalham, o mundo dos soberbos consumado até o sufocamento.

A necessidade de se sentir perseguido gerando a tensão do fim do mundo, principalmente na boca de Terry, retorce o místico sob a encenação do cotidiana caro ao diretor. Não são poucas as vezes que se sente que algo está observando a todos, e nisso Paris nos Pertence parece mais uma adaptação mais sisuda, fantasmagórica e realista de Phillip K. Dick que filmes que referenciam o autor diretamente – como Southland Tales, por exemplo. Na magistral ficção-científica de Richard Kelly, aliás, a conspiração política também abraça a farsa e as profecias, sempre buscando na crença no místico e no mágico um lastro para as paranoias de seus personagens – mesmo que o diálogo de Kelly seja com o tresloucado humor satírico e as viagens interdimensionais de Alan Moore e Grant Morrison (como lembrado por Filipe Furtado em seu texto [1] sobre o filme). Kelly retrata estrelas de cinema, policiais e atrizes pornô, com a vulgaridade que se espera de Los Angeles, enquanto Rivette filma Paris com a solenidade na qual os intelectuais que a habitam encaram a cidade.

Diferente de Southland Tales, no final de Paris nos Pertence não há conspiração alguma; é consequência direta de que, para os eleitos gênios da arte filmados por Rivette, como um personagem certa hora classifica, é sem dúvidas mais trivial colocar a causa de suas desventuras no mundo e nas organizações que controlam secretamente as vontades e cursos do planeta que assumir o impacto pelas formas que afetou os que estão ao seu redor.

Que existam tais pessoas, as quais foi concedido o imenso poder da influência cultural e de serem representantes quase oficiais da articulação sociopolítica burguesa, é menos o problema para Rivette que o fato de que é preciso responsabilidade na hora de atrair pessoas para seu círculo, para sua gravidade, o cuidado exigido quando for cuspir profecias por aí. Nunca se sabe quem pode estar ouvindo, e a Paris de 1961 e o Rio de Janeiro de 2021 não tem cenas artísticas tão discrepantes quanto eu gostaria. Não que isso importe; como Peguy diz ao abrir o filme, essas cidades não pertencem a ninguém. É importante lutar por elas.

[1] – https://boxd.it/1ex4gn

Homem-aparelho: entrevista com Wilson Oliveira Filho

Para a edição “Imagens Fantasmas” considerei um papo com Wilson Oliveira Filho muito importante pensando em sua área de atuação com as salas de cinema e meios tecnológicos. Um novo espectro toma esse espaço e Wilson, em tempo, mostra seu projeto de expansão de atividades para novas leituras e, claro, releituras do espaço através da arqueologia dos meios.

  • O projeto que pensa a sala de cinema do campus João Uchoa da UNESA para usos e reusos toca, entre diversos sentidos, um ponto crucial: o da sala como laboratório da sociedade e da comunidade científica. Quais são planos para tornar estes planos acessíveis ao público a pensar que o projeto lida com um espaço privado?

Por se tratar de um projeto de extensão, esse pensar já se dá com a comunidade como um todo. Não só para com os alunos, mas para com o entorno. A extensão universitária é uma grande “sala de aula sem paredes” para lembrarmos o que McLuhan pensava sobre o cinema. Tentamos nos aproximar dos antigos frequentadores de salas de cinema, além de, com os discentes e funcionários do campus, pensar a formação de público que salas em espaços como Universidades podem e devem (re)despertar. A sala de cinema no campus João Uchoa sempre foi aberta ao público. O que meu projeto amplia é a possibilidade de outros usos para manifestações audiovisuais contemporâneas como o live cinema e outras performances audiovisuais e assim pensar as potências dessa economia criativa que vai ainda e por muito tempo precisar de salas de cinema

  • Este mesmo projeto toca na memória das salas de cinema de rua – o que nitidamente separa da experiência do filme como uma parte do consumo em um passeio no shopping center. Um grande “trauma”, a citar Benjamin. Como trabalhar a sala de cinema, neste espaço acadêmico, e reativar o hábito de ida ao cinema?

Essa é uma parte importante uma vez que a sala possivelmente deixará de existir enquanto tal, já que o campus sairá daquele local. Mas suas memórias estão impressas em diversos momentos da sala. Nessa sala mediamos debates com Nelson Pereira dos Santos, Walter Carvalho, exibimos dezenas de filmes universitários e experimentais (creio que a vocação desse tipo de sala em seu uso mais tradicional seja o de exibir o que não tem lugar para a exibição). Nesse espaço, no entanto, vimos não só filmes ou debates, mas performances audiovisuais como o belo trabalho “Cinema das atrações”, de Raimo Benedetti. E aqui usar mediamos e vimos é afirmar uma configuração da memória coletiva. Acho que uma experiência em sentido benjaminiano, mais do que esse trauma, essa fratura que o cinema fora do lugar que lhe conferiu tradição e dentro dos templos de consumo mencionando por você é o que de mais importante fica. E tentamos justamente isso: trabalhar dentro da Universidade hábitos (também no plural), entender novas espectatorialidades e potências desses lugares de memória para usarmos a expressão de Pierre Nora. É nesse sentido que acho que podemos trabalhar salas de cinema em espaços como a Universidade. No futuro, acho que cursos de cinema precisarão ter disciplinas que lidem com a sala como um ambiente; a sala como ecologia das mídias.

  • Em tempos de consumo de novos materiais audiovisuais e a proposta de oferecer o espaço da sala de cinema para uma espécie de contragolpe da relação postura-memória. Como se dá essa relação? Como estes novos materiais digitais ajudam a manter uma tradição que envolve a sociabilidade e articula contra o declínio das salas de rua?

Primeiro pelo entendimento arqueológico dos meios. Aqui sua questão se torna crucial. Essa sala dentro do campus João Uchoa conta com dois projetores analógicos em uma cabine e um projetor digital fora da cabine. Aí acho que já há toda uma perspectiva a ser analisada. O hábito do cinema ainda em tempos da sala e a sala agora aberta (o projetor não mais atrás das nossas cabeças como no velho e bom hábito cinema para destacarmos a expressão de André Parente e Kátia Maciel), mas também acima das nossas cabeças ligado a computadores, videogames, celulares (rompendo justamente o hábito e, seguindo ainda André e Kátia, criando uma outra situação cinema, estendendo a concepção de Mauerhofer). Tentamos pensar “sessões” nesse sentido. Uso as aspas, pois não sei se estamos diante do mesmo fenômeno. A exibição por exemplo de uma sequência de gifs direto do meu celular problematiza a ideia de exibição e curadoria (e aqui meu projeto toca no seu projeto de mestrado creio, mas isso já daria outra conversa…).

  • Logicamente falamos de um espaço fantasmagórico envolvido pela memória, pela nostalgia que hoje são tomados por igrejas, farmácias e lojas de departamentos. Inclusive a sala está localizada no bairro que hospedava o Cinema Apolo (fechado em 1949).  Há alguma ideia que se relacione diretamente com a história das salas de cinema neste projeto?

Na pesquisa inicial que levou ao projeto busquei informações sobre o Apolo que até pouco tempo era uma academia de ginástica. Entrei no lugar como faço em diversas salas que se tornaram outra coisa e não obtive informações. A fachada  deve ser a mesma de outrora e no bairro poucos se lembram da sala. Há já aí algo que passeia pela nostalgia, pela nostalgia das ruínas como já abordou Andreas Huyssen. De forma mais direta comecei a pensar em um curta sobre essa sala no Rio Comprido (uma sala com mais de 400 lugares), mas é algo que segue ainda só nos planos. Muitos filmes sobre salas específicas vêm surgindo, mostras dentro de festivais etc.

  • Há uma ligação com a experiência completa envolvendo a coleção de memórias ao utilizar o espaço completo como o hall de entrada, a aparelhagem e, claro, a tela. Como este projeto pensa em construir um novo público que hoje não acostuma a consumir imagens? Hoje o consumo me parece uma experiência solitária através da TV, do celular, torrents, etc.

Novamente você toca em outra questão central. Como conviver o espaço com novas formas (e certamente solitárias) de consumo audiovisual. Fazendo, creio eu, o radical entendimento do reuso. Tratando os ambientes que compõem uma sala como o lócus de fato em sua totalidade. Recuperar a sociabilidade que uma ida ao cinema cria, provoca com novas atrações. Escrevi com Márcia Bessa sobre isso em artigo apresentado na Socine em 2019. Segue para quem se interessar. https://www.socine.org/wp-content/uploads/anais/AnaisDeTextosCompletos2019(XXIII).pdf (pp.1231-1235)

  • Nesta proposta de ter novas utilidades à sala me vem o pensamento de equilíbrio que Benjamin fala sobre as funções sociais do filme envolvendo o ser humano e a aparelhagem. Como esta proposta equilibra estas funções?

Aliando o aparelho (analógico/digital) ao cidadão.

Wilson Oliveira Filho é professor da Unesa desde 2005. Foi coordenador entre 2012 e 2021 dos cursos de Cinema, Fotografia e Produção Audiovisual no campus João Uchoa. Atualmente é extensionista com o projeto “A sala de cinema no campus João Uchôa: usos e reusos para Economia Criativa”. Foi pesquisador do programa Pesquisa Produtividade entre 2013 e 2020. Autor de McLuhan e o cinema ( editora Verve, 2017) e artista multimídia com o DUO2x4 em parceria com a professora, cineasta e pesquisadora Márcia Bessa.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Atlântida (Yuri Ancarani)

Por Camila Vieira

A direção do italiano Yuri Ancarani é seduzida por alguns códigos de formatação de um certo padrão de cinema contemporâneo: a duração de um cinema de fluxo que se interessa mais pela ambientação que pela centralidade de seus personagens, a composição com luzes artificiais que estetizam cenas aparentemente filmadas como realistas, a montagem que intensifica a indistinção temporal dos acontecimentos. A elaboração de tais elementos facilmente coloca Atlântida em lugar muito confortável dentro da dinâmica dos festivais internacionais.

O tour de force do filme seria Daniele, um jovem de uma ilha às margens da Lagoa de Veneza, que vaga pela região com seus engenhosos barcos a motor, sem demonstrar qualquer interesse pelas demais pessoas que transitam no local. No entanto, tudo o que o personagem fala parece ser de menor importância para o que Atlântida deseja olhar: o modo como os jovens se encontram, mergulham na lagoa, fumam e se divertem com a música e com os passeios nos barchinos. O cotidiano ocioso da juventude está presente em boa parte das sequências, inclusive várias delas filmadas com o desgastado efeito flare.

Quando o longa-metragem escapa do registro espontâneo dos jovens, ele tenta se enveredar na construção de um esboço dramático para Daniele, mas a execução torna-se bastante esquemática. Um exemplo é o modo como aparece a jovem que se interessa pelo personagem e que responde sobre os questionamentos sobre seu futuro. Em uma cena no salão de beleza, ela afirma que “desistiu de sonhar”, mas, fora o discurso, não parece haver mais nada que aponte para tal certeza. 

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Notas breves sobre alguns filmes – Parte 3

Por Camila Vieira

Um Forte Clarão (Ainhoa Rodriguez)

Em um vilarejo na região espanhola de Tierra de Barros, as ruas estão vazias. Há algo de misterioso e sombrio que se captura nos planos gerais de Um Forte Clarão. O longa busca aliar o registro documental ao filmar moradores da região com estratégias ficcionais que flertam com o realismo mágico. Em um território onde mulheres sobrevivem mediante a concretude do despovoamento da comunidade, são alimentados rumores de que mais pessoas irão desaparecer.

Em sequências isoladas, o longa de Ainhoa Rodriguez consegue amplificar a sensação de estranheza de viver em uma cidadezinha isolada: mulheres idosas conversam sobre o medo de sair à noite e, mais à frente, um disparo balança o lustre da casa; outra mulher vê um programa de televisão em que um homem pede que sua esposa volte para casa e ouvimos várias gargalhadas altas em off; uma jovem entra em um casarão e derrama leite em seu corpo nu. Com rigor na composição de cada plano, o filme parece ter algo de incompleto no conjunto, sem também chegar a uma radicalidade na sua tentativa de romper com a estrutura narrativa tradicional. 

Sanguessugas – Uma comédia marxista sobre vampiros (Julian Radlmaier)

Pode parecer até interessante a premissa inicial do filme em forjar uma comédia a partir da crítica marxista ao capitalismo como o vampiro dos nossos tempos que suga a força de trabalho do operariado. Com a trama concentrada no final dos anos 1920, a senhorita Octavia Flambow-Jansen é uma vampira entediada com seu cotidiano aristocrático, ao lado de seu assistente Jakob, que toma consciência de sua condição como explorado por meio de Rosa, uma jovem militante e integrante de um clube de leitura das obras de Marx.

Em paralelo, acompanhamos a história do misterioso barão Kobersky, que chegou a interpretar Trotsky em uma das filmagens de Sergei Eisenstein e agora sonha também em ser cineasta em Hollywood. O desenvolvimento da narrativa de Sanguessugas não consegue fazer uso efetivo de seus personagens como alegoria da exploração apontada por Marx e referenciada o tempo todo nos diálogos e tampouco as situações construídas aproveitam bem o potencial da comédia como gênero.    

* Vistos na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Lua Azul (Alina Grigore)

Por Camila Vieira

A primeira cena de Lua Azul anuncia a gradação de violência que Alina Grigore deseja explorar ao longo de seu filme: a protagonista Irina é acordada de forma brusca pela irmã Viki que a sufoca e insiste que ela não conte nada para seu pai que está chegando para uma visita. Filhas de pais divorciados, Irina e Viki moram na casa dos tios e são completamente controladas pelos primos, que as obrigam a trabalhar nos negócios da família. Irina deseja fazer faculdade em Bucareste, mas o pai ausente não entende a escolha dela e o primo mais velho quer que ela continue a fazer a contabilidade da empresa familiar. 

Da mesma forma como tantos outros filmes da Romênia que escancaram a violência e a crise social do país (como é o caso de Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, de Radu Jude, outro filme na Mostra que já publicamos crítica), o problema de Lua Azul é a necessidade de posicionar exclusivamente o corpo da mulher como receptáculo incondicional da violência. Irina não reage quando o primo a espanca. Quando ela é estuprada por alguém desconhecido na festa, ela até se aproxima dele como se estivesse com Síndrome de Estocolmo. Há tanta passividade e silenciamento em Irina que é por demais desconcertante e incoerente diante de tanta violência que a cerca. 

Talvez com a intenção de não tornar a trama monótona e homogênea demais, a direção de Alina Grigore se serve de uma reviravolta do último terço de Lua Azul: para proteger a irmã Viki que também é vítima das opressões familiares, Irina realiza sua única ação para interromper o ciclo. Com uma câmera que circula em meio aos personagens da família, a penúltima sequência até consegue expressar a vertigem da situação que Irina desencadeia. No entanto, o desfecho acaba por reduzir o filme a tudo o que já foi visto antes. 

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: O compromisso de Hasan (Semih Kaplanoğlu) 

Por Camila Vieira

A dramaturgia de O compromisso de Hasan desvela aos poucos o não dito que se forja nas ações de seu protagonista: um homem que herdou as terras do pai e aparentemente tenta arranjar formas lícitas para sobreviver da agricultura. A sequência inicial apresenta a infância do personagem, que revela as circunstâncias do seu vínculo profundo com o terreno herdado. É onde Hasan cultivou durante muito tempo seu pomar que lhe serve de sustento, mas que agora recebe a ameaça de uma grande empresa que deseja se apropriar das terras para a construção de uma torre industrial de energia elétrica. 

A tendência inicial seria permanecer ao lado das intenções do personagem. Os empresários querem destruir as plantações, em prol da ampliação do próprio lucro. Hasan tenta convencer a empresa a usar o terreno ao lado que está improdutivo. Ele também procura ouvir outros agricultores da região que pediram empréstimos e precisam vender suas terras por valores irrisórios para pagar dívidas.

De forma gradativa, pequenos acontecimentos surgem como consequências das ações equivocadas do protagonista. Animais aparecem mortos por causa da água contaminada por agrotóxicos que Hasan usa de forma irrefletida em seu pomar. Sua esposa se lamenta por ser dependente dele financeiramente para conseguir fazer a peregrinação à Meca. Ao situar como as decisões de Hasan destruíram as vidas dos menos favorecidos na comunidade e de sua própria família, o longa de Semih Kaplanoğlu instaura um mal estar necessário pelo modo como o individualismo arruina interesses coletivos.  

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Notas breves sobre alguns filmes – Parte 2

Por Camila Vieira

I Comete – Um Verão na Córsega (Pascal Tagnati) 

A direção de Pascal Tagnati parece menos interessada na composição de personagens e no modo como eles interagem entre si em I Comete – Um Verão na Córsega, do que em uma certa ambientação a ser capturada de uma experiência de verão na ilha francesa. Jovens conversam entre ruelas onde motocicletas atravessam com rapidez. Os assuntos vão de férias a trabalho. Na beira de uma piscina, garotas falam sobre relacionamentos. Adultos constroem armadilhas para animais e conversam sobre jogos de futebol. Os diálogos são passageiros, como se fosse uma forma de observação à distância. 

A impressão é que o diretor não deseja psicologizar seus personagens, mas tampouco consegue fazer com que as conexões dos corpos em cena produza algo para além de um mero acúmulo de situações ligeiras. Em alguns momentos, o que está sendo dito por um ou outro personagem parece sair do individual para querer dar conta de uma condição estrutural do país, como o comentário sobre a Europa ser dos tecnocratas e dos banqueiros. Mas tudo fica muito aquém de qualquer tentativa de constatação.

O Garoto Mais Bonito do Mundo (Kristina Lindström e Kristian Petri)

Poucos documentários conseguem perspectivar a forma como o fazer cinematográfico pode destruir a vida de pessoas comuns em busca da idealização de uma imagem que será perpetuada como eterna para o público. O Garoto Mais Bonito do Mundo aborda o impacto que a repercussão de Morte em Veneza teve na vida de Björn Andrésen, o ator que ainda adolescente interpretou o belo personagem Tadzio no longa-metragem de Luchino Visconti. A beleza tão almejada pelo diretor italiano não converge em nada com o olhar triste e amargurado de Björn Andrésen em sua rotina atual. 

Em contraposição às imagens dos testes e das viagens de divulgação de Morte em Veneza em que a bela aparência física de Björn foi exaustivamente explorada, os registros cotidianos atuais apresentam um homem já velho, descuidado com a própria vida, perto de ser despejado e inábil com a namorada e com a filha. O filme também escancara que Björn teve sua imagem vendida mundialmente como objeto sexual, enquanto na intimidade sofria com a ausência da mãe e, anos mais tarde, levava uma vida dependente de drogas.

* Vistos na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: As Bruxas do Oriente (Julien Farout)

Por Camila Vieira

O ponto de partida do documentário As Bruxas do Oriente é desmistificar a comparação das ex-jogadoras da seleção de vôlei feminino do Japão com a simbologia das bruxas que alimentam o imaginário popular do país, sobretudo nos desenhos e animes antigos. A figura da bruxa costuma ser associada de forma pejorativa a algo maligno e misterioso. Para desfazer a imagem de que as entrevistadas tinham poderes sobrenaturais indestrutíveis nas quadras, o filme reúne as entrevistadas ao redor de uma mesa de jantar 50 anos depois do período em que elas foram consagradas. 

Ao mostrar cenas do cotidiano atual de algumas das ex-jogadoras, elas relembram detalhes da rotina diária de trabalho como operárias da fábrica têxtil Nichibo Kaizuka nos anos 1950, os treinos árduos de vôlei após o expediente e os campeonatos em que elas conquistaram vitórias consecutivas na década de 1960. Cada uma delas é introduzida no filme com uma espécie de etiqueta ilustrada que informa qual era o status, o perfil, a habilidade e o apelido da jogadora na época. O documentário intercala registros atuais das ex-jogadoras que agora já são idosas com imagens de arquivo em que elas aparecem bem jovens como atletas em reportagens da época e registros de partidas e treinos. 

O momento mais intenso de As Bruxas do Oriente é uma longa sequência que intercala as imagens das famosas partidas da seleção de vôlei nos jogos olímpicos com suas reconstituições em formato de um anime que se tornou bastante famoso na época em reconhecimento ao desempenho brilhante do time. Em outra sequência, o mesmo paralelo é feito com as cenas dos repetitivos e rígidos treinamentos que elas recebiam. Ao dimensionar o que era exigido delas e como algumas desistiram após a primeira derrota, o documentário é bastante honesto com a trajetória das personagens, sem cair no risco de um resgate romantizado ou idealizado. 

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Notas breves sobre alguns filmes – Parte 1

Por Camila Vieira

Os Inventados (Leo Basilico, Nicolás Longinotti, Pablo Rodríguez Pandolfi) 

O longa-metragem argentino Os Inventados poderia despertar algum interesse mínimo, caso sua proposta inicial fosse levada adiante. Lucas é um atendente de telemarketing que deseja voltar a trabalhar como ator. Ele passa por vários testes e falha miseravelmente. Ao se inscrever em um workshop de atuação com mais quatro participantes, ele poderia ser levado a uma experiência sobre jogos de encenação fora das limitações adestradas do cotidiano, tal como o instrutor apresenta no início da trama. 

No entanto, a complexidade do exercício de interpretação e a possibilidade da construção de uma persona são apenas subterfúgios para o trio de realizadores Leo Basílico, Nicolás Longinotti e Pablo Rodríguez Pandolfi pensarem uma outra dinâmica para Os Inventados. Por meio da subjetividade insegura do protagonista, o filme prefere seguir uma narrativa enfadonha com brincadeiras sobre coincidências e personagens que desaparecem de forma misteriosa. 

Madeira e Água (Jonas Bak)

A sequência inicial de Madeira e Água mostra Anke, uma idosa que mora sozinha, em seu primeiro dia de aposentadoria. Ela conta a novidade para sua filha Theresa pelo telefone e confessa não esperar mais a hora de poder ver o mar nas férias de verão com seus filhos. Quando Anke abre a porta da casa, acontece um misterioso salto temporal e espacial. O contraplano é a imagem de Theresa e Lena à beira da praia. A filha de Anke é levada a recordar sua infância bela e tranquila, onde a antiga casa agora é apenas um símbolo do que falta. 

Anke é levada a procurar seu filho Max, que mora em Hong Kong. Há um contraste evidente entre a calmaria a qual a personagem estava acostumada e o fluxo intenso da cidade grande, com vários arranha-céus iluminados. Em visita a um bairro chinês, Anke é levada a pensar em si mesma e na relação com os filhos como a imagem da água em contato com a madeira. Filhos crescem e tomam outros rumos, longe dos pais. O filme de Jonas Bak é um silencioso estudo sobre o que se perde ao longo da vida e como os diferentes rumos da existência conformam ou limitam a experiência. 

* Vistos na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Pegando a Estrada (Panah Panahi)

Por Camila Vieira

A estreia do iraniano Panah Panahi na direção de longa-metragem de algum modo é devedora do cinema do seu pai, o veterano Jafar Panahi. No exercício do realismo forjado pela ficção, ambos lançam olhares críticos para o modo como a conjuntura político-social interfere no destino das vidas individuais. Em Pegando a Estrada, uma mãe preocupada, um pai com uma perna engessada, um garoto que cuida de um cachorro doente e o filho mais velho que dirige compõem uma família que atravessa a paisagem desértica de Teerã para chegar até a fronteira com a Turquia.

Não se sabe de imediato o motivo pelo qual os quatro estão fazendo juntos a viagem. As pausas para descansar ou ir ao banheiro podem ser observadas de dentro do próprio carro ou a uma certa distância em que os personagens começam a revelar detalhes. Eles foram instruídos a manter discrição na viagem, sem poder usar o celular. A mãe desconfia estar sendo perseguida e logo desabafa que a família perdeu a casa e o carro para que o filho mais velho pudesse ir embora. O marido diz confiar no atravessador chamado Hoshang. 

Na presença do garoto, o casal sustenta a mentira de que a viagem urgente seria justificada pelo casamento do filho mais velho. O jovem está irritado e se chateia por ser tratado pelos pais como se fosse uma criança incapaz de resolver sozinho seus problemas. Uma névoa encobre a paisagem, enquanto um homem encapuzado aparece para dar as primeiras instruções. Mesmo com a certeza de que fugir seja a única saída possível, o destino incerto do filho é tão nebuloso quanto a impossibilidade da despedida.

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Coisas Verdadeiras (Harry Wootliff)

Por Camila Vieira

Inspirado no romance True Things About Me, de Deborah Kay Davies, Coisas Verdadeiras encena uma narrativa em torno de uma mulher millennial. Kate Perkin mora sozinha e prefere ficar distante de seus pais controladores; trabalha como atendente, mas chega sempre distraída ou atrasada; e sua rotina a coloca em constante estado de apatia. Sem vontade para se acordar e com baixa auto-estima, ela mal consegue manter laços sólidos de amizade e se encontra em uma posição vulnerável.   

Mais do que se sentir desejada, Kate busca alguma conexão com um homem ex-presidiário que ela conheceu em um dos seus atendimentos. Depois de interpretar um homem pouco confiável em The Souvenir (2019), o ator Tom Burke assume um registro semelhante ao interpretar Blond, o desconhecido que se envolve com Kate e se aproveita de sua fragilidade. Ele aparece e desaparece quando sente vontade. O sexo é sempre apressado. Blond altera rápido de humor: às vezes, é carinhoso e solícito; em outras, é grosseiro e estúpido. 

Por meio de uma câmera instável, o filme centra o olhar para Kate e o modo como ela vai absorvendo aos poucos suas próprias angústias e insatisfações. Ao acompanhar o descompasso cotidiano da personagem, a cineasta Harry Wootliff quer se solidarizar com uma mulher comum que sofre os efeitos de uma vida pouco desejável. Apesar do acúmulo de situações desconfortáveis, ela não desmorona totalmente e, ao mesmo tempo, sua tomada de consciência não se seduz pela estratégia fácil de transformá-la em heroína. 

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: No Táxi do Jack (Susana Nobre)

Por Camila Vieira

O problema de No Táxi do Jack, da portuguesa Susana Nobre, é confiar plenamente no possível carisma que seu personagem principal possa sustentar. Joaquim é um senhor na faixa dos 60 anos de idade, que está perto de se aposentar e acumulou em sua trajetória inúmeras experiências de trabalho, em sua maioria precarizados, desde limpar chão de fábrica a dirigir como taxista. Ao longo do filme, a maior parte de suas interações acontecem com funcionários que representam o peso das instituições que exigem procedimentos burocráticos para que o personagem mantenha-se com algum emprego. 

Durante as viagens que realiza pela cidade, Joaquim relata sobre seu passado na Inglaterra e nos Estados Unidos, a dificuldade para aprender a falar em inglês, os diferentes empregos provisórios que ocupou, a desconexão com o filho devido a rotina árdua de trabalho, o retorno a Portugal no momento pós-ditadura. É certo que a narrativa demonstra preocupação em aprofundar o personagem como uma subjetividade que se faz pelas diversas condições de trabalho que ele enfrentou ao longo da vida. No entanto, o relato parece apenas dar conta de um amontoado de situações pregressas, sem qualquer pausa reflexiva sobre os efeitos do trabalho. 
Como o foco acaba sendo a presença do personagem e sua forma pitoresca de narrar, No Táxi do Jack deriva por algumas brincadeiras cênicas, como aquela em que Joaquim parece estar dirigindo um táxi em uma rua movimentada, mas a câmera recua em um travelling que mostra a filmagem dentro do cenário de um estúdio. Em outro momento, ele conversa com um amigo cego e cadeirante, por meio de diálogos quase sempre jocosos. Nem sempre o humor é alcançado e o filme perde algo no meio do caminho.

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Lidando com a Morte (Paul Sin Nam Rigter)

Por Camila Vieira

O maior mérito de um documentário como Lidando com a Morte é escancarar o quão ridícula e absurda é a tentativa de um grupo de europeus brancos que desejam capitalizar em nome dos rituais que envolvem o luto e a morte de comunidades étnicas que habitam a Holanda. No bairro multiétnico de Bijlmer, em Amsterdã, a agência funerária Yarden tem o interesse de ampliar seus negócios para alcançar turcos, antilhanos, indianos, angolanos e outros tantos imigrantes como potenciais consumidores de seus serviços.

Sócia da agência, Anita Von Loon é a empresária que mais se empenha em fazer as tratativas diretamente com o público almejado. Ela visita templos, igrejas e mesquitas com um sorriso que deseja parecer amigável a quem ela não conhece, mas também expressa simpatia fingida e desrespeitosa por refletir seu olhar exotizado para culturas diferentes. Logo após a dor da perda de seu pai, Anita percebe a armadilha do “entusiasmo ingênuo” que ela tanto defendeu.

Por mais que disseminem o discurso de que a empresa precisa se modernizar frente às mudanças do bairro, ela e seus colegas funcionários da Yarden perpetuam o pacto colonial. Na sequência em que ganenses questionam a empresa sobre detalhes incompatíveis no que se oferta com suas cerimônias de luta, os funcionários soltam gargalhadas. Menos por se perceberem como alheios a demandas simples, como banheiros maiores ou horários ampliados, mas certamente por uma falha estrutural de acolhida e compreensão das especificidades culturais das diferentes etnias consultadas. Nada mais contundente que o contraste entre as salas vazias e assépticas da agência funerária e os festejos movimentados em celebração aos mortos nas demais comunidades.  

* Visto na programação da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.