ESPECIAL Anthony Mann

Finalmente, depois de pouco mais de um mês desde o anúncio da reabertura do Multiplot! e tudo mais, o Especial Atnhony Mann está aberto. Como expliquei no tópico lá no fórum, serão 33 textos (pelo menos, até o momento) sobre esse que é dos caras mais subestimados/raramente lembrados do cinema. Porque pouco se fala sobre Anthony Mann (principalmente fora desse eixo-westerns-com-James-Stewart). Rola uma urgência de diálogo pela desproporção na relação necessidade de se falar sobre / tudo que já se falou sobre. Em termos de internet em português, o material disponível sobre Anthony Mann, e que fuja dos dois 3 ou 4 filmes mais populares, é muito raro (o que foi – basicamente – pretexto pra dedicarmos um especial ao cara).

Anthony Mann é o cineasta americano clássico, por excelência, pra vir ilustrando verbete. Toda a classe e a habilidade pra narrar histórias dentro de um único plano, o domínio absoluto do ritmo e a inventividade pra compôr quadros e movimentos e lidar com a câmera como se tivesse nascido com ela no lugar de um braço, resumem por vezes em uma única cena os principais propósitos e valores que se deve perseguir no cinema. Poucos entenderam como Mann que a sétima é – acima de todas – a arte da comunicação, a arte de expressar, de falar através da imagem, e é por isso que a gente entende que há tempos ele reivindica um lugar de mais destaque, dono de um cinema que deve ser visto, lido e comentado com urgência – pra usar a palavra de novo – pela galera que ou viu apenas meia-dúzia, ou não viu nada ainda, ou mesmo por quem viu a maior parte e ficou sem ter com quem repartir.

No mais é isso, os textos vão ser postados em ordem cronológica. O link pra página do especial (com o índice e um textinho que é o mesmo que esse aqui porque fiquei com preguiça de escrever algo diferente) vai ficar fixo aqui à direita, e claro, tudo pode ser acompanhado de perto pelo tópico lá no fórum.

Abril é mês de Anthony Mann no Multiplot!. o/

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Screenshots! – Ilha do Medo (Shutter Island – Martin Scorsese, 2010)

Por Daniel Dalpizzolo

O miolo de Shutter Island é um surto demente e hipnótico tão intenso que me deu a impressão de que Scorsese tá de volta com as drogas. Se sim, putz, expectativas pros próximos trabalhos crescem imensamente. Aí vai um grande apanhado de alguns planos e cenas geniais do filme, e eu tô pouco me fodendo se tem spoilers ou não porque meu interesse é único e exclusivamente o de encher o Multiplot! com essas lindas imagens registradas pelo taturana-man pra galera cair aqui nas pesquisas pelo Google Images.

Texto: Ilha do Medo (Martin Scorsese, 2010) – Murilo Lopes de Oliveira – 3/4

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Screenshots! – Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo – Mario Bava, 1963)

por Luis Henrique Boaventura

Muito se falou de Olhos Diabólicos nessa recente redescoberta de Mario Bava após legendas em pt-br finalmente terem caído na internet. No entanto, diante do delírio de cores em Seis Mulheres Para o Assassino, do surto narrativo em Banho de Sangue e mesmo da opressão atmosférica de Operazione Paura, Olhos Diabólicos costuma ser um tanto subestimado. E é compreensível, as pessoas erram a mão na expectativa e se decepcionam por não encontrarem outro maravilhoso show de malabarismo com luzes, sangue e uma câmera que vira brinquedo de criança nas mãos do italiano.

Mas Olhos Diabólicos é único, perdido numa lacuna entre dois gêneros que sempre estiveram ligados, mas que nunca se encontraram: o noir e o giallo.

Isto abaixo é uma cena de, sei lá, uns 15 ou 20 segundos. Uma moça caminha para casa, sozinha, no meio da noite. O que parecia ser um plano comum converte-se em subjetivo assim que duas mãos saem de dentro da câmera e acendem um cigarro. Um homem surge, cobre a tela por um momento, e pára no centro no plano. Um casaco, um chapéu, cigarro e fumaça. A cena corta e estamos dentro da casa, onde a mulher se vê sozinha, no escuro, com medo, e sem saber o que a cerca do lado de fora.

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O Livro de Eli (The Book of Eli – Albert Hughes / Allen Hughes, 2010)

Eli é um Messias, um ser enviado por Deus para resgatar seus ensinamentos e devolver novamente para população a capacidade de ter fé. E isso seria chato pra cacete. Mas Eli não é um Messias comum, não desses que os livros históricos nos contam, ele é praticamente uma inquietação divina personificada, como se Deus estivesse de saco cheio do que isso se tornou, e das pessoas que nos tornamos, e dessa vez não enviasse alguém que estivesse disposto a ser crucificado pelos seus pecadores, ou tivesse o altruísmo elevado de implorar pelo perdão desses até no momento da sua morte, não, dessa vez o enviado resolve tudo da única forma que esse mundo parece entender: na bala.

Um clarão toma conta do mundo, os raios de sol rasgam a terra e acabam com a imensa maioria da população. Isso não é mostrado, apenas explicado. E essa ação faz com que os poucos sobreviventes vivam em um mundo cinza, de perdas, tomado por subtrações extremas, onde a água vira um produto de luxo, o verde praticamente deixa de existir, o canibalismo se torna quase tão banal quanto ser vegetariano, e, a principal mudança de todas: o extermínio da religião. 30 anos se passaram desde o clarão, os livros que continham esses ensinamentos foram destruídos, e a fé que as pessoas carregavam foram evaporando, de modo que um “amém” se torne uma palavra estranha, fora do vocabulário comum. Com isso cria-se um povo sem medo de consquências futuras, movido apenas pela satisfação do próprio desejo, e cabe Eli tentar levar a palavra de Deus novamente para as pessoas, proteger o último exemplar da Bíblia sagrada que restou no mundo.

Acontece que mais pessoas querem tomar posse desse livro. Usa-lo de forma inversa, como arma, transformar a fé em medo, controlar as pessoas mais influenciaveis. E então Eli ta ali [/ginga] pra protege-lo da forma que pode, da única forma que esse “novo” mundo entende: com a violência extrema. O cara realmente não parece desse mundo, parece um anti-herói tirado de algum quadrinho do Frank Miller, que quando o bicho pega, ele vira um demônio. As cenas de massacre (geralmente é um massacre), são de encher os olhos, com um Eli doente, decepando, desmembrando, desfigurando, metendo bala de 12 na cabeça de qualquer nego que tente tocar os dedos imundos no livro. Ele ta com Deus do seu lado, Deus, uma shotgun, e um facão selvagem que corta carne como se fosse pudim, e tudo isso com a benção do paizão [/ginga].

E tem o visual do filme, que é impressionante também. A fotografia dele já tinha chamado minha atenção no trailer, e realmente é parte fundamental pra dar a real impressão de que aquele mundo ta morto, ou quase que irremediavelmente ferido. Ele tem um visual marcante demais, bonito demais, aposto agora que vai ser o grande vencedor nessas categorias técnicas de quase qualquer premiação que concorrer. O som é coisa de louco, a cena em que uma metralhadora giratória estridente explode uma casa no meio do nada é uma das experiências mais definitivas que eu senti em se tratando de som, é como se aquelas balas te incomodassem mesmo, como se estivesse do teu lado. Técnicamente ele é perfeito demais.

Os que curtem metáforas até no catarro vão se esbaladar aqui, e os que colocam a forma acima de tudo, também vão ter muito o que aproveitar. Muito bom filme, baita surpresa.

3/4

Thiago Duarte

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The Dark Glow of the Mountains (Werner Herzog, 1985)

Mesmo depois de deixarmos aquela idade pentelha do “por quê”, não conseguimos deixar de questionar atitudes que pareçam absurdas ou, meramente, fora do comum. Penso que o esporte que mais recebe “porquês” é justamente o montanhismo. Porra, pra que subir a montanha se depois tu vai ter que descer? Pra que subir a montanha se não tem nada lá em cima além de rocha, gelo e neve? Ouvi dizer que em um outro documentário sobre montanhismo, Herzog procura essa resposta entre alguns montanhistas experientes. Mas neste Dark Glow of the Mountains, Herzog faz a pergunta diretamente àquele que é considerado o maior montanhista da história do esporte: Reinhold Messner é um italianão gigante e barbudo, detentor dos maiores feitos já registrados em alta montanha. Não vou ficar apontando aqui tudo o que ele fez, porque ele fez coisa pra caramba e etc. Apenas peço que aceitem minha afirmação de que o homem é um deus no mundo do montanhismo.

Na ocasião deste documentário, Herzog acompanhou Messner e seu companheiro Hans Kammerlander até o acampamento-base das montanhas Gasherbrum 1 e 2 (respectivamente a 11ª e a 13ª maiores montanhas do mundo). A idéia dos dois montanhistas era subir ambas as montanhas em sequência, sem regressar ao acampamento entre uma escalada e outra. Herzog, como documentarista discreto que só ele é, acompanha tudo de perto, mete o bedelho onde não é chamado e cutuca feridas dos aventureiros. Entre planos belíssimos dos grandes paredões e glaciares e cumes e avalanches que essas montanhas possuem, Herzog captura momentos impressionantes que evidenciam o comportamento de Messner em alta montanha. Eu já havia assistido a algumas entrevistas com Reinhold Messner (normalmente sobre sua aversão à utilização de oxigênio suplementar na montanha e sobre suas escaladas solo ao Everest) e assimilei facilmente a imagem do montanhista “forte e sem medo de nada”. Imagem que Messner nem precisa se esforçar para passar, uma vez que sua própria postura e fisionomia já denotam tal imagem. Mas aqui, Herzog, com pouco mais de quatro perguntas consegue derrubar o gigante, levando-o às lágrimas com a lembrança da morte do irmão, na montanha Nanga Parbat, no Paquistão. Numa cena imediatamente após esta, Messner está recomposto, sério, falando sobre o planejamento da escalada: “devemos voltar em sete dias. Se não voltarmos em dez, juntem as coisas e vão embora, porque ninguém mais conseguirá nos encontrar”.

Além disso, o que Herzog faz de mais fascinante é abrir espaço para que o espectador questione a ele. Na cabeça de Herzog, tão absurda quanto a idéia de subir uma montanha é a idéia de acompanhar os dois malucos que vão subir apenas para filmá-los. A resposta do “porquê” que Herzog busca, no final das contas, servirá para ele também. E o que ele consegue arrancar de Messner é a idéia de que sua fascinação pelas montanhas é derivada, sim, de uma espécie de loucura. Uma loucura análoga àquela dos artistas, por exemplo. Suas ações justificam-se em seu próprio ser e, justamente por isso, é improvável que pessoas que não pertençam a seu grupo de convívio e atividade consigam compreendê-las, uma vez que estas ações não são passíveis de racionalização.

Aí está a grande resposta de Herzog, no final das contas. Se Messner escala a montanha porque é um louco, Herzog o filma escalando a montanha porque é louco também.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

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