Conspiração (The Tall Target – Anthony Mann, 1951)

Filme histórico estruturado sobre uma clássica fórmula de filme noir, Tall Target resgata a rejeição de grande parte da população dos Estados Unidos a Abraham Lincoln e sua ousada visão política que transformou decisivamente os rumos daquele país no século XIX, e mais impressionante do que as observações factuais de Mann é exatamente como o diretor é capaz de construir um filme político/histórico tão preciso e complexo (no sentido de abranger várias nuances em um material relativamente genérico – afinal, é um policial narrativo até o talo) sem esquecer que seu negócio é o cinema e que acima de tudo está ali para fazer um filme, não reproduzir um livro de história de ensino médio com linguagem para adolescentes disléxicos.

Tudo se passa dentro de um trem que transporta centenas de pessoas (algumas eufóricas, outras cuspindo o fogo do demônio de tanto ódio) para a cidade onde Lincoln faria o primeiro discurso como presidente dos Estados Unidos. Um policial que recebeu informações de que haveria uma conspiração para assassinar o novo presidente faz de tudo (até largar seu emprego e enfrentar grandes oficiais) para conseguir embarcar e tentar impedir que isto aconteça. Coisas suspeitas vão rolando desde o início, seu bilhete some, outro homem aparece utilizando a sua identidade e pessoas fazem de tudo para tirá-lo do trem.

São pouco mais de 70 minutos de filme, e nesse curto espaço Mann constrói uma enérgica e sempre instigante atmosfera de filme policial b e um painel político irrepreensível a partir de um conflito muito simples: existe mesmo a conspiração, quem está armando e etc. Ele transporta as regras do noir (aliás, dá um charme desgraçado o vapor do motor) para o século XIX e utiliza-se do cenário único (filmar uma história inteira dentro de um trem é coisa que só um Mann ou Tourneur saberiam fazer – Lumet que nem é mau cineasta, por exemplo, não conseguiu) e das relações de poder pra montar uma grande pista de obstáculos que, somadas à sensação de urgência da situação (afinal tudo precisa se resolver antes de o trem chegar ao discurso), rendem um filme hipnótico e que parece projetado na velocidade de um daqueles trens bala japoneses.

A habilidade de Mann ao refazer a história e apresentar o contexto daquele país durante um fato específico através de um filme que segue à risca as convenções de um gênero tão restrito é a principal qualidade desta obra-prima, mas o filme é tão sensacional que mesmo quem não liga pra essas porras tem grandes chances de sair impressionado. Isso por que há uma penca de cenas incríveis, brigas sobre trens em movimento, ângulos de câmera que como em todo bom filme de Mann conseguem sempre chegar ao cume da expressividade e um jogo de gato e rato frenético e instigante [/propaganda do Super Cine]. Mann faria seus grandes filmes (Pequeno Rincão de Deus, O Homem do Oeste) posteriormente, mas este Tall Target fecha o ciclo noir do diretor (que é tão bom quanto o do western e cumpre um papel interessante em sua filmografia  – afinal se o velho oeste era a estruturação social dos Estados Unidos modernos o submundo do noir só pode ser a ruptura) devendo muito pouco a esses filmes.

4/4

Daniel Dalpizzolo

4 Comments

Filed under Comentários

O Caminho do Diabo (Devil’s Doorway – Anthony Mann, 1950)

Em Eles Vivem, de John Carpenter, entre brigas épicas com negões e envolvimento até o pescoço num complexo esquema interplanetário onde as bundas de alguns extraterrestres terminam chutadas, nosso herói John Nada consegue pôr as mãos em um par de óculos feito com lentes únicas, lentes que mostram o mundo como o mundo realmente é. Por trás do tecido da sociedade, das convenções, dos rostos, de cada situação e cada conversa inofensiva numa esquina ou balcão de bar. Pra quem não sabe, quem achou que se tratava de mero artigo de sci-fi barato saído da mente torcida por uns tragos de uísque de um velho demente, as lentes nos óculos de John Nada são verdade, e devem estar até hoje perdidas, jogadas em algum porão, nas câmeras que Anthony Mann usou para filmar O Caminho do Diabo.

Eu comentava com o Dan esses dias como não sentia necessidade alguma de ver os filmes do Mann com legendas. Não por minhas maravilhosas habilidades adquiridas no idioma dos gringos (meu vocabulário é game over, go!, 99 rings e flawless victory). Não. No cinema (seja a época, o país, o diabo que for), o idioma é um só, e só pode se chamar “cineasta” o cara que desvendou seus segredos e passeia livre por seus domínios. Como toda arte, cinema é comunicação, é expressão, é dizer com um quadro o que 1000 palavras não diriam.

Em O Caminho do Diabo (caralho, vou começar a falar do filme no 3º parágrafo, eu tô cada vez pior mesmo), Mann manipula as linhas, os ângulos, os objetos e as pessoas em cena como quem rearranja letras num alfabeto, escrevendo o que devemos sentir e o que precisamos saber detrás de cada conflito. O texto é mero capricho, os diálogos são utilitários, estão no filme pelo mesmo motivo que os homens usam chapéus e não bonés da Texaco. Tudo que há para ser dito em O Caminho do Diabo é dito pela câmera, que como indicado inicialmente, atravessa a superfície de cada situação e penetra a um nível de onisciência, compartilhando com o espectador a sensação pura e genuína de ler mentes.

É assim que Mann vai construindo ódio e preconceito através daquela velha habilidade sobre-humana pra compor planos. Trazendo o público para a óptica do índio em oposição ao homem branco (o que por si só já é um verdadeiro evento no gênero), Mann capta todos os sinais de atrito racial e falhas de caráter (talvez invisíveis aos olhos de um branco) como manifestações físicas em cena.

Como da primeira vez que Lance entra no bar e é observado pelo rancheiro em primeiríssimo plano e já quase saindo do quadro, formando uma figura que é mais silhueta do que forma distinta e que domina em absoluto a cena, oprimindo em tamanho e posição os outros três personagens no final do balcão.

Ou na cena da briga, a melhor do filme, das coisas mais secas e enérgicas do cinema. Primeiro a tensão e a atmosfera de iminência de tragédia que se instala com aquela genial virada de câmera / virada de face quando surgem o espelho do bar, a cara de espanto e raiva de Lance, o cartaz com “no liquor allowed for indians”, e os relâmpagos da tempestade que desaba do lado de fora, tudo num mesmo quadro. É quando a câmera volta a se alojar naquele mesmo cantinho da cena anterior, onde o rancheiro e um homem conversam debochadamente sobre as novas leis do Estado e o descaso com os nativos. O que se segue é uma coreografia de movimentos, de cortes exatos e ritmo sustentado na ponta dos dedos. Dois lutam no assoalho do bar enquanto os homens brancos observam impassíveis, filmados como se fossem estátuas ou entalhados em madeira, com um contraste valorizado, uma luz dura nas caras de fantasmas e cada pequena saliência física explorada como se fossem saliências de moral.

*contém spoilers (apesar de que seria pura inocência imaginar qualquer coisa diferente)

O mundo captado por Mann é seco não por um trabalho de criação e elaboração de determinado universo diegético, não há falsidade nas formas, e de certo modo, não há ficção. Por isso O Caminho do Diabo é um filme frio, necessariamente duro e amargo como não poderia deixar de ser (caso contrário resultaria em simples desonestidade), e Mann usa o ritmo como forma de desenhar essa despedida – morte / assassinato de um povo pelo outro – ao de repente quebrar uma sequência eufórica de explosões e invasão e cavalaria armada se dilacerando no campo de batalha para filmar um pequeno réquiem. A câmera pede licença à ação para registrar o triste adeus de Lance à sua amada (jamais ficariam juntos, como ele sempre soube) e acompanhá-lo num caminhar lento e evanescente pelas ruínas da sua raça, o acampamento despedaçado, a poeira da guerra do lado de fora e um sol maciço que atravessa com violência os buracos abertos na madeira. Mann emoldura Lance nesse cenário lúgubre por alguns instantes, como quem emoldura um capítulo da história.

Mas a esta altura os últimos passos já não são mais os passos de um índio ou de um branco. Não importa mais. A figura que marcha com dificuldade sobre a terra tem a pele escura, carrega um uniforme de militar no corpo e bate uma última continência ao chegar ao oficial. Os últimos passos são de um homem, simplesmente; um ser humano sem estirpe. Porque ao matar o índio, o homem branco mata também uma parte de si mesmo.

– Where are the others?
– We’re all gone.

E cai morto.

4/4

Luis Henrique Boaventura

3 Comments

Filed under Comentários

Almas em Fúria (The Furies – Anthony Mann, 1950)

Não é à toa que nem sequer um touro possa levar o nome de “rei” de um pedaço de terra chamado “The Furies”, em Almas em Fúria, de Anthony Mann. “The Furies”, na verdade o ideal título original, é um espaço que, logicamente, é o próprio filme, um pequeno reino familiar rodeado por certos perigos de espaço (alguns mexicanos que reivindicam propriedade de algumas áreas do imenso local) e de época (os bancos começavam a recebê-las como hipoteca). Trata-se então de um espaço a se requisitar e conquistar, porque “The Furies” é um local e, por consequência, um filme concorrido, totalmente disputado.

Toda a atenção que o personagem de Barbara Stanwyck solicita para os outros personagens é na verdade para assumir de vez o olhar do filme. Seria então o extremo e estranho caso de um bovino comandar, ter as rédeas numa inversão indevida do cinema de Mann, de toda uma narrativa modesta sobre um local (um filme) espetacular, porque é sobre este lugar que os personagens não só colocarão uma narrativa movimentada, doentia e obsessiva para frente, como viverão, de fato, a partir dele, a partir do golpe de conquista do local e, sobretudo, da lente. Principalmente os de Barbara Stanwyck e Walter Huston – pai e filha – que não receberão os close ups adequados e por isso mesmo sobreviverão como personagens a uma história que os une e separa constantemente. Isso porque Mann está distante demais para criar planos discretos para eles (os atores), mas próximo o suficiente para dar-lhes certos olhares e certos movimentos tão bruscos (para os personagens) que não cabem na tradicional e simples decalagem entre roteiro (sonoro, bruto, direto) e direção (um Mann que nem sequer apara as arestas, deixa o inchaço aumentar): tudo se supera, tudo é mostrado.

A anacronia, aqui, é justamente esta: Mann, discreto até no movimento simples e brilhante de câmera atrás da escada depois da famosa cena em que Barbara Stanwyck joga uma tesoura no rosto de uma mulher, permanece numa calmaria que de forma alguma impede de instaurar sua direção e seu simples senso cênico dentro da história impossível de penetrar, visto que, em Almas em Fúria, o quadro é o local para a lotação total, para um problema sobrepujando o outro a cada instante, afinal, o filme, naquele momento, está ali, logo, todos devem aparecer para capturá-lo. Está tudo abarrotado. Não é por acaso que, na primeira meia hora de filme, Stanwyck beije três homens diferentes na boca (um deles, seu próprio pai, uma figura da qual ela é cópia) e acumule um reinado de personagem que controla o filme pelo encurtamento dos espaços que ela domina, como aquele da família mexicana oprimida.

Não há, entretanto, um espaço para o suspiro ou para o fôlego, porque a narrativa do filme é aquela que não pode ser contida, é a narrativa de um voltar ao mesmo lugar, mas com sua posse – é um mundo desgovernado que Anthony Mann, claro, nunca poderia parar, e por isso ele o ilustra. Isso, porque, sabemos, Mann sempre foi o cineasta para o qual a ação está ao alcance de um corte, logo, a fala dos personagens, por si, já se configura como mais um mundo montado por dentro, diegético, de ação extremada, movimentada e algo desequilibrada.

É curioso como Anthony Mann fez filmes em que o motivo central era um objeto ou lugares a se chegar, conquistar e, em seguida, lutar por eles para reavê-los. Winchester 73, Bend of the River, Far Country: locais a se conquistar, a tomar direito e a viver. É bem por isso que “The Furies”, a imensa fazenda, mais do que os outros títulos-lugares, seja mais uma disputa descontrolada e de uma verborragia de acontecimentos costurados pelo roteiro que, se não chega ao limite do inchaço é porque os melhores filmes de Mann convivem com esse acúmulo de situação desde muito tempo, para liberá-la de uma vez só, talvez porque o espaço (e o filme, claro) sejam pequenos demais para a contenção de tantos personagens, locais e situações. Em algum momento eles explodirão para o branco da calmaria ou a grafia de um “the end” conciliador.

4/4

Ranieri Brandão

2 Comments

Filed under Comentários, Resenhas

Winchester ’73 (Anthony Mann, 1950)

Enquanto assistia ficou impossível não lembrar de um outro filme mais recente, Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Coens, e até acho mesmo que os irmãos chuparam uma boa parte das idéias desse aqui pra usar no seu western moderno, e adaptaram perfeitamente pro estilo autoral deles, claro. Eles partem de um lugar muito semelhante: se nos filmes dos manos o objeto de desejo é uma maleta cheia de verdinhas, representando toda a ganância do universo criado por eles (ou apenas refletido), aqui o objeto consegue ser até mais explicito, é o próprio que dá título ao filme, um objeto de morte, que reflete perfeitamente o way of life do local, e cobiçado por todos que vivem nesse meio, independente de caráter ou coisas do tipo. A diferença é que se no filme dos manos a maleta de dinheiro serve mais como um elo de ligação, um ponto de partida, ou até uma maldição, um imã de tragédias… Aqui o Winchester é praticamente um espectador, um sobrevivente, mais orgânico, não atrái a tragédia, é a personificação dela, como se o rifle quase comandasse o homem, ele não mudaria o caráter desse, mas era quem dava o poder. E dessa forma o filme se encaminha quase como uma corrida de bastão, onde o bastão é o winchester, e não é entregue, mas sim conquistado, atráves da única forma que se pode conseguir um exemplar raro desses: à bala.

Durante todo o filme as mais diferentes mãos carregam o rifle, desde um líder apache até um mercador de armas. E a forma que o Mann usa pra conduzir isso tudo é na banalização mesmo, ele te coloca dentro de uma situação, encontra alguém para carregar o rifle, inicia o desenvolvimento dessa situação, e, despirocandamente, logo cria um surto de balas, fazendo com que o rifle caia em uma mão completamente diferente, que leve pra uma situação totalmente diferente, fazendo com que em uma hora tu presencie um bang bang tradicional envolvendo a cavalaria contra os índios, e no minuto seguinte já esteja no meio de um tiroteio dentro de uma casa em chamas envolvendo saqueadores, policia local e reféns, sempre com o Winchester como protagonista. E sempre em um ritmo frenético, coisa doida, esse negócio é ágil demais. E ainda isso tudo se encaixando lindamente com a história principal no fim (sim, tem uma história principal).

É um road movie embalado em um ambiente de western sempre com um grau absurdo de surto. Não conheço muito desse Anthony Mann, primeiro filme do cara que assisto, mas de qualquer forma já deu pra perceber que é coisa de mestre.

4/4

Thiago Duarte

7 Comments

Filed under Comentários

Top! Film Noir (Especial Anthony Mann)

O Especial vai passando do seu primeiro terço e, entrando na década de 50, Anthony Mann encerra sua contribuição para um dos principais capítulos do cinema clássico americano. A quem não conhece tanto do diretor, vale dizer que sua obra no film noir não é de modo algum menos importante que sua fase no western. Portanto, pra oficializar essa virada de página, nada melhor que um bom e velho top de gênero.

Luis Henrique Boaventura

01. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
02. A Sombra da Guilhotina (Anthony Mann)
03. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. A Marca da Maldade (Orson Welles)
06. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
07. O Segredo das Jóias (John Huston)
08. O Quimono Escarlate (Samuel Fuller)
09. Na Teia do Destino (Max Ophüls)
10. Os Assassinos (Robert Siodmak)

Daniel Dalpizzolo

01. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
02. A Marca da Maldade (Orson Welles)
03. A Morte Num Beijo (Robert Aldrich)
04. A Lei dos Marginais (Samuel Fuller)
05. No Silêncio de uma Cidade (Fritz Lang)
06. O Império do Crime (Joseph H. Lewis)
07. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
08. A Força do Mal (Abraham Polonsky)
09. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
10. Pecado Sem Mácula (Anthony Mann)

Ranieri Brandão

01. Fuga do Passado (Jacques Tourneur)
02. A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
03. A Marca da Maldade (Orson Welles)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. O Grande Golpe (Stanley Kubrick)
06. À Beira do Abismo (Howard Hawks)
07. Cinzas que Queimam (Nicholas Ray)
08. Baixeza (Robert Siodmak)
09. Entre Dois Fogos (Anthony Mann)
10. Anjo do Mal (Samuel Fuller) / Sombras do Mal (Jules Dassin)

Fernando Mendonça

01. Almas Perversas (Fritz Lang)
02. A Dama de Shangai (Orson Welles)
03. Chinatown (Roman Polanski)
04. O Terceiro Homem (Carol Reed)
05. O Homem Errado (Alfred Hitchcock)
06. Pacto de Sangue (Billy Wilder)
07. Moeda Falsa (Anthony Mann)
08. Amarga Esperança (Nicholas Ray)
09. Baixeza (Robert Siodmak)
10. O Destino Bate à Sua Porta (Bob Rafelson)

Vlademir Lazo Corrêa

01. A Marca da Maldade (Orson Welles)
02. A Morte num Beijo (Robert Aldrich)
03. No Silêncio da Noite (Nicholas Ray)
04. Almas Perversas (Fritz Lang)
05. Laura (Otto Preminger)
06. O Império do Crime (Joseph H. Lewis)
07. Raw Deal (Anthony Mann)
08. Curva do Destino (Edgar G. Ulmer)
09. Pick up on South Street (Samuel Fuller)
10. O Mundo Odeia-me (Ida Lupino)

114 Comments

Filed under Tops e listas

Pecado Sem Mácula (Side Street – Anthony Mann, 1950)

Se todo cineasta de essência narrativa tivesse a precisão, a clareza e a expressividade de Mann eu faria questão de defender o cinema como uma arte que se justifica meramente pelo ato de contar histórias – uma simples evolução dos romances literários, como alguns insistem em encarar. Esse Side Street é um exemplo raro de como aliar ao ato de narrar uma trama as ferramentas disponíveis na estrutura dessa tal sétima arte de maneira orgânica e perfeitamente funcional: de voice overs com cobertura de imagens aleatórias à estrutura quase científica da troca de planos existe uma obsessão impressionante por encontrar o plano ideal para cada momento encenado – e não apenas juntar um maço de papéis manchados de café com o pobre do roteiro, pôr a câmera em um plano médio frontal, ligar, berrar AÇÃO, deixar os atores interpretarem aquilo que tá escrito e ir à lanchonete da esquina comer um pastel de queijo pingando gordura.

Os oito minutos iniciais são impressionantes nesse sentido. Mann adota os princípios básicos do cinema neo-realista pós-Cidade Nua e coloca o espectador em meio à suja realidade de um jeito tão direto e brutal quanto fariam os melhores filmes de Samuel Fuller nos anos seguintes. A voz em off abre o filme apresentando uma problemática geral sobre a violência existente no mundo após a Segunda Guerra e em poucos minutos Mann trata não apenas de ilustrar, mas especialmente de justificar esse sentimento de revolta compartilhado pela narração. A cidade é pintada como uma selva de concreto e os planos aéreos de grandes construções e largas ruas onde mal conseguimos enxergar o componente humano desenha um cenário de extrema frieza (e até chegarmos ao protagonista e à trama em si o que vemos é esta frieza se justificando das formais mais brutais – até cadáver de criança boiando num rio o filho da mãe me mostra sem concessões).

Então que depois deste intenso diagnóstico do mundo Side Street se prende a um homem comum cometendo o que imaginava ser um pequeno delito sem parecer muito incomodado com qualquer sentimento de culpa, afinal que gravidade pode existir no furto de alguns maços de dinheiro em um mundo onde nem as crianças são poupadas da violência e das armas de fogo? Era o que pensava o coitado do protagonista no calor do ato, e no restante do filme o que acompanhamos são justamente as conseqüências que este pequeno desvio moral traz para a vida desse homem, que mesmo arrependido e buscando a redenção vai se degradando cada vez mais até estar completamente atolado na bosta.

Não é exatamente um segredo que esse período do cinema b hollywoodiano (anos 40, 50) e alguns cineastas específicos (Nicholas Ray, Otto Preminger, Anthony Mann, Samuel Fuller) foram base para a revolução cinematográfica promovida pela turma de Godard/Truffaut/etc a partir de 1959 (a tal da Nouvelle Vague, acredito que quem esteja lendo um texto desses até aqui já tenha perdido todos os fios de cabelo se informando sobre isso) especialmente no que diz respeito a trabalhar o campo sentimental de seus personagens como um elemento de cena praticamente físico, intrínseco à imagem. Neste sentido Side Street me parece um filme-chave, ao lado de outros como Whirpool de Otto Preminger e In a Lonely Place de Nicholas Ray. Curioso porém é como este filme, que conta com alguns pares/dezenas/quinzenas/pqpzenas de planos de impressionante detalhismo na (des)construção sentimental/psicológica de seu monstruoso protagonista (no sentido de absolutamente sensacional e aquela porra toda) praticamente nunca é mencionado em lugar nenhum. Alguns vão chegar na voadora berrando que estou querendo dizer que descobri o Brasil, mas yada yada e etc e tal.

4/4

Daniel Dalpizzolo

5 Comments

Filed under Comentários

A Sombra da Guilhotina (Reign of Terror / The Black Book – Anthony Mann, 1949)

De tempos em tempos – e em intervalos cada vez mais largos – surgem esses objetos sobrenaturais como A Sombra da Guilhotina, que te fazem revisar a aplicabilidade de adjetivos como “obra-prima” e toda aquela gama de superlativos carnavalescos que a gente adora usar por aí. Apesar de que é complicado, há três meses que eu venho me apaixonando pelo cinema do Mann numa regularidade que já me fez colocá-lo ao lado de Tourneur, Hawks, Bava e todos os meus outros 492 diretores favoritos. Hoje mesmo revi O Homem dos Olhos Frios (que aguarda texto do Vlad aqui no mp), e comentava com o Dan como não sabia escolher um só na filmografia do cara. Como é que eu vou pôr Winchester acima de O Homem do Oeste, ou Tall Target acima de Devil’s Doorway… Se eu fizesse uma lista de Manns, o top 1 se estenderia até o 7º ou 8º filme. Mas isso foi antes.

A Sombra da Guilhotina (ou “No Reino do Terror”, como também aparece em alguns lugares, ou “The Black Book”, fazendo referência ao mcguffin) é obra absoluta. Tem no espírito o film noir que dominou a criação do diretor durante a década de 40, mas não é um noir, é um drama histórico que remonta os últimos dias do “Reino do Terror” e da queda de Robespierre na Revolução Francesa, mas também não é um drama, é um suspense de fritar os nervos a cada diálogo e cada traição, conspiração e reviravolta da trama que Mann manipula como se estivesse fazendo pizza; mas se for um suspense, é também um horror recheado de subterfúgios com fotografia expressionista, atmosfera medieval e cantos escuros de onde saem braços, revólveres e todo tipo de objeto cortante; mas se fosse mesmo um horror genuíno, não teria espaço pra um romance clássico conduzido por uma mulher que traga o protagonista pro seu próprio campo de gravidade como uma legítima femme fatale faria; e se estamos falando de femme fatale, estamos falando é de film noir, ou não, enfim, não sei de mais nada. Se pedir pra traçar uma linha de “A Sombra da Guilhotina” até o seu “respectivo gênero”, ou sub-gênero, ou pseudo-gênero que o fosse, qualquer pedaço de cartilha ou lista de características que oferecesse uma posição plausível de como definir o que não pode ser definido, eu acabo é me enforcando com a linha. Como disse no início, absoluto.

A condução da coisa também é algo que eu vou ficar anos tentando entender. A Sombra da Guilhotina é um bolo de elementos, é como se alguém pegasse mostarda com morango com calda de chocolate com uma jaca bem grande + o peixe que sobrou da sexta-feira santa, jogasse tudo no liquidificador e conseguisse servir o drink mais refinado de todos os tempos. E a porra do filme tem 86 minutos.

Daí que mesmo que o Mann conseguisse entregar o melhor de cada fragmento de gênero e pedaço da trama com êxito completo (pro romance temos duas ou três cenas-chave, pro desenvolvimento da parte histórica temos o prólogo, pra estabelecer antagonismo 5 segundos bastam. É fazer demais com quase nada), ainda assim é preciso algum tipo de bruxaria ou macumba do Zé Caolho pra reger cada menor detalhe como quem rege uma orquestra [/clichês de críticas de cinema = off], caso contrário uma coisa atravessa à frente da outra, a outra se coloca sobre a uma, a uma atropela a primeira, e o que era pra ser o maior samba do crioulo doido segue como se nem houvessem centenas de elementos pra coordenar. A Sombra da Guilhotina desfila ao longo da curta metragem como se fosse o filme mais normal do mundo, é uma loucura. Como Romário fazendo gol de cabeça com 1,68, como Garrincha jogando aleijado, como um imbecil enfiando analogias futebolísticas num texto sobre cinema e achando que tá tudo certo.

E já que narrar A Sombra da Guilhotina é 3º segredo de Fátima – eu não tenho idéia de como ele consegue, vou catar os momentos. Trata-se de um filme pleno e limpo como obra completa, ok, mas também se trata de uma sequência ininterrupta de momentos brilhantes do início ao fim. Sendo estupidamente seletivo, consegui reduzir bastante coisa a 50 screenshots de 7 cenas diferentes. Como é coisa demais (e dá trabalho, acreditem, eu não faria se não valesse a pena), coloquei em outra página que pode ser acessada pelo link abaixo. Até porque é lá que esse texto termina:

Screenshots!

7 Comments

Filed under Comentários, screenshots

Mercado Humano (Border Incident – Anthony Mann, 1949)

É realmente incômodo, após assistir boa parte do que Anthony Mann filmou nos anos 40, perceber como seu cinema é pouco discutido ou sequer lembrado. Para mim, este contato mais profundo com Mann está sendo não somente um dos marcos de meu 2010, mas uma oportunidade de reflexão singular desse ato delicioso que é simplesmente escrever sobre um filme, convidar ao debate, fazê-lo sobreviver para além do tempo de projeção. E se em todos os filmes que eu comentei de Mann por aqui tive motivos para incentivá-los (vocês mesmo) a conhecerem seu cinema de perto (vão logo assistir esses filmes!), agora, mais do que nas outras vezes, impera em mim o desejo de que outras pessoas passem pelo que eu passei ao assistirMercado Humano, filme ao qual posso, sem medo nenhum, chamar de obra-prima.

Pela primeira vez posso estar realmente dispensado de falar mal de atores, roteiros ou qualquer outro problema de produção, porque Mercado Humanodá conta de tudo isso e vai muito além; tanto que também já não adianta falar de noir ou de como Mann se aproximava descaradamente do western, porque este é um filme tão moderno que ultrapassa a condição de gênero. Muito mais do que pensar uma renovação em Mann, ainda que ela ocorra em todos os sentidos, encontramos aqui um filme que convida a uma reavaliação do próprio cinema nos idos dos anos 40, ou por que não, do que ainda hoje abordamos, retratamos e questionamos com o cinema.

Em primeiro lugar, sobre a renovação de Mann, podemos centrá-la em dois eixos que partem diretamente do lugar narrativo, lugar por excelência do diretor: o objeto narrado, pois uma história, até então, nunca tinha sido tão importante em seu cinema (como vimos, seu maior trabalho era driblar a mediocridade dos enredos, conseguindo, por milagre, transformá-los em estudos da alma), e o objeto que narra, pois enfim o tratamento estético particular de Mann não precisa entupir apenas minutos iniciais ou finais, podendo agora ocupar toda e qualquer cena da totalidade do filme (sinceramente, chega dá medo o que ele faz com a câmera aqui, principalmente nos closes… É como se tocássemos Dreyer, como se todos os planos de uma imagem, até os mais distantes, transmitissem a impressão do estar em close).

Em segundo lugar (e para mim mais importante), Mercado Humano pode ser encarado como uma obra de transição do próprio cinema americano, um ápice do clássico que dá continuidade a um projeto de cinema o qual podemos enxergar o início lá em 1940, no eterno Ford de Vinhas da Ira. É preciso contextualizar que o filme de Mann narra os problemas com a imigração ilegal dos mexicanos para o território americano, e como alguns deles se submetiam a uma espécie de tráfico humano para conseguir adentrar na desejada nação, uma espécie de retorno à escravidão (sinceramente, poucos temas são mais atuais do que esse ainda em 2010). Como em Ford, deparamo-nos com homens que foram destituídos da terra, expulsos de uma geografia insana, pairando incertos por um mundo que já não encontra lugar digno para que eles sobrevivam. E se em 1940 Ford agregou toda a crueldade da América naquela cena monstruosa onde víamos um trator demolir a casa de uma família e prosseguir até passar por cima da sombra daquelas pessoas atropelando qualquer esperança que poderia lhes restar, em 1949 Mann encerra a década com uma das mais violentas cenas que o cinema já concebeu, permitindo que um dos homens infiltrados entre os mexicanos para desmascarar o tráfico seja atropelado por outro trator aos olhos de seus amigos e, muito pior, aos nossos olhos. Com esta cena – e muitas outras, e muitos outros filmes – Mann confirma ser um cineasta da desesperança.

Enfim, vou controlando aqui minha vontade de escrever mais pra sobrar um tempinho de ir rever o filme – se bem que esse deve ser um daqueles ao qual revisitarei sempre, por toda vida. E apesar de este ser meu último texto previsto para esta primeira parte do Especial (spoiler de planejamento, tem mais coisa vindo pela frente), não estou querendo criar nenhum ar de despedida. O problema é que eu não consigo me desapegar daquela sensação tremenda que é ver um filme e sentir que preciso por um tempo me despedir do mundo corriqueiro para viver mais. Tchau.

4/4 (com vontade profunda de marcar 5/4)

Fernando Mendonça

Screenshots!

9 Comments

Filed under Resenhas, screenshots

O Demônio da Noite (He Walked By Night – Alfred L. Werker / Anthony Mann, 1948)

O Demônio da Noite abre com a narração que já insere aquele tom semi-documental, parte pra um ensejo puramente cinematográfico, filmado e coreografado com o tipo de classe que se espera de Anthony Mann, apenas para voltar a cair na vala do realismo engessado que – ao contrário de Cidade Nua – permite que sua virtude pra reportagem de TV infle e tome conta do filme não abrindo espaço para que o cinema possa aparecer, salvo em algumas raríssimas ocasiões.

Primeiro que a minha determinação do quê, em O Demônio da Noite, cabe a Werker ou a Mann (não-creditado) é puramente hipotética / fantasiosa / empírica / preconceituosa. Nunca vi nada do Werker mas o saldo do Mann comigo é tão positivo que acho natural atribuir-lhe essa bela sequência inicial e os últimos 10 minutos (a composição do cerco em torno da casa do assassino é pura poesia), enquanto que também considero normal pensar que, caso Mann tivesse tido alguma liberdade – nem que se mantivesse esse realismo amorfo -, o resultado seria muito diferente. Mas falar sobre o que poderia ser é fácil (e inútil).

O pouco de linguagem cinematográfica que resta é deixada pra quando acompanhamos os passos do assassino, por natureza – já que O Demônio da Noite é ‘baseado em fatos reais’ – uma jornada de hipótese construída com pura imaginação, por óbvio o oposto da reconstituição de cada detalhe da investigação na delegacia de polícia (infetada de personagens duros e desprovidos de personalidade, e aliás, se muito me engano, o único close do filme é dado de presente exatamente ao vilão de Richard Basehart, que se transforma no cúmplice do espectador, o único personagem capaz de recriar alguma empatia e captar o interesse e a preocupação do público, e que fique claro que isso – apesar de parecer ótimo – não passa de mero acidente, já que o suposto protagonista é todo envolto do velho plot do policial que transforma o caso em questão de honra por causa do amigo ferido, que teria alguma chance de funcionar se, a toda hora que aparecesse, não tivesse que dividir a tela numa disputa desleal com o detalhismo maçante de cada pequeno processo da investigação policial, pra qual sobra toda a atenção da câmera).

Mas enfim, como dito no início, alguns pares de sequências quase alienígenas diante do contexto onde estão inseridas resgatam He Walked By Night do meio da bosta. E percebe-se claramente que o tom muda, que a preocupação e o objetivo da câmera na cena já é outro, que é a IMAGEM quem finalmente vem à superfície pra dar uma respirada. A fuga pelos esgotos encontraria um eco em O Terceiro Homem, lançado no ano seguinte. Já pra sequência do assassinato (ou tentativa, que seja) eu fiz questão de tirar esses screens aí – além de outros de alguns bons momentos. Dilatação do tempo e atmosfera encontram casa nessas esquinas que não existem em época / lugar / gênero qualquer que não seja o film noir.

1/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!

Não é lá nada espetacular, mas antes que nada.

6 Comments

Filed under Comentários, screenshots

Fórum

Pra quem não viu, quem tá chegando agora ou quem passou o feriadão na casa da avó enchendo a cara de vinho doce, o fórum do mp tá em novo endereço.

Comments Off on Fórum

Filed under Comentários