SEXTO DIA
CONVITE PARA JANTAR COM O CAMARADA STALIN (Ricardo Alves Jr.)
![[image]](http://www.revistamoviola.com/wp-content/uploads/2007/11/jantar_stalin.jpg)
4/4
O formalismo que pontua toda a narrativa não-usual de Convite Para Jantar Com o Camarada Stalin é o grande mérito do filme de Ricardo Alves Jr., que inspirado na clássica peça de Samuel Beckett, Esperando Godot, observa com uma câmera impassível os (não) movimentos de dois corpos que estão, coexistem, mas inúmeras vezes não se relacionam. Duas senhoras de meia idade vivem uma rotina que nos leva a crer que elas aguardam alguma coisa, mas a espera é eterna e talvez nunca atinja um ponto de conclusão. Ricardo Alves Jr. monta quadros estáticos (exceto por um plano), onde percebemos as mulheres mas não compreendemos seus motivos. Numa jogada brilhante o diretor constrói uma cena de aparente catarse, onde as personagens falam, diante de um fogão, coisas que não conseguimos ouvir, pelo som da sopa que está borbulhando no fogo, pelo tango que o diretor nos faz ouvir, e no fim, as duas se abraçam, como se aquilo fosse caminhar para uma resolução direta. Mas eis que o plano final mostra novamente os corpos presentes e distantes, sem contato e sem perspectivas.
COCAIS, A CIDADE REINVENTADA (Inês Cardoso)
2/4
Pelo princípio mais lógico do cinema documental, a não dramatização das coisas é a idéia que mais se relaciona com a objetividade do documentado. No filme de Inês Cardoso, a cidade dos loucos é observada de perto, com a convivência que a diretora estabeleceu pelo tempo em que esteve por lá, com uma necessidade de relato daquela realidade. Mas Ines também decide dramatizar a coisa, colocar elementos extra-realidade que não propriamente se conectam com o que merece ser refletido. As camas expostas ao ar livre durante a noite/dia, desbravadas por um rebanho de ovelhas assustado, é uma imagem Lynchiana demais para compreender os dramas daqueles seres humanos marginalizados e abandonados pela sociedade.
SALIVA (Esmir Filho)
![[image]](http://www.overmundo.com.br/_agenda/img/1199682035_divulgacao_curta_saliva_esmir_filho.jpg)
3/4
O cinema do paulistano Esmir Filho é, por excelência, o cinema do cult/indie. Tudo é bacaninha, antenado, completamente conectado com o pensamento de uma parcela da atual juventude de uma grande metrópole. Seus medos e questionamentos já haviam sido objeto de observação no premiado Alguma Coisa Assim, e agora, Esmir monta sua câmera cool para o terrível momento na vida de uma garota ao ser desvirginada por uma língua melada de um garoto já mais “experiente”. Pelo fatídico momento todo mundo já passou, a transição parece realmente mais importante no presente que o que nossa memória nos trás a tona, mas Esmir dedica uma dose boa de carinho à essa transformação. Tudo bem que ele pode se exceder na “bacanisse” das composições estéticas, mas o saldo acaba sendo positivo quando se leva em consideração o respeito com que ele trata o assunto.
SATORI USO (Rodrigo Grota)
![[image]](http://oglobo.globo.com/fotos/2007/08/29/29_MHG_cult_satori4.jpg)
4/4
Na década de 80, no Paraná, um jornalista inventou um poeta japonês que teria vivido nas redondezas de Londrina décadas antes. Assinando como Satori Uso, ele escreveu pensamentos, poesias e publicou certas coisas. Em 2007, também no Paraná, o cineasta Rodrigo Grota decide fazer um filme sobre o personagem que não existiu e para isso constrói uma espécie de documentário com imagens de um filme sobre o tal poeta, de um diretor chamado Jim Kleist. O ponto é que Kleist também é invenção do diretor, assim como as imagens do “filme” Isolation não passam de imagens feitas pela própria equipe de Grota, comandada pelo fotógrafo Carlos Ebert (o mesmo de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla) e sua impressionante composição em preto e branco, que foi toda captada em digital (!!!) para depois ser convertida de modo perfeito para um 35mm belíssimo. A experiência é notável!
DOSSIÊ RÊ BORDOSA (César Cabral)
![[image]](http://www.interney.net/blogs/media/blogs/melhoresdomundo/angeli.jpg)
4/4
A famosa personagem criada por Angeli foi assassinada por ele mesmo, na década de 80. O crime é o plot da investigação de César Cabral em Dossiê Rê Bordosa, um documentário em animação (sim, isso mesmo!) que conta com depoimentos de várias “testemunhas” do que pode ter acontecido à época, inclusive o próprio Angeli. Narrado em clima de suspense de rádio policial dos anos 60 e com doses cavalares de humor refinado, Dossiê Rê Bordosa é um primor estético, inclusive reavaliando mídias do cinema, como na cena em que temos um Super 8 da Rê Bordosa quando criança. Absolutamente genial, do início ao fim, é um ótimo pretexto para quem não conhece buscar mais informações sobre a criação de Angeli. E vale dizer que Angeli é um dos melhores personagens animados do cinema recente e que durante os créditos finais do filme podemos perceber o quanto César Cabral é digno de ter assinado a produção.
Thiago Macêdo Correia