


Se era com certo espanto que víamos como Anthony Mann podia desfazer toda a direção de cinema desastrosa, simpática e insossamente em Música e Lágrimas deixando o filme sem viço algum, talvez por causa da uma prescrição cruel da biografia que tinha muito a ver com o cinema muitas vezes discreto feito por ele, em El Cid a situação é mais agônica, o ar é bem mais difícil de respirar (sobretudo porque o filme é de uma obediência à regra sufocante). Tem-se, antes de tudo, uma duração enorme, e, pior ainda em se tratando do diretor, cenários enormes para ele usar como esquardinhação e reenquadramento de algumas cenas de passagem a partir do que cabe dentro das formas geográficas das paisagens das locações ou daquelas construídas em estúdio. Essas, especificamente, são parte da especialidade de Mann: ignorar suas noções e proporções usando a câmera para fins de uma neutralidade que, nos seus westerns e noirs, haverá de explodir e se romper numa cena ou noutra. Mas aí então fica a pergunta se a preocupação maior dos filmes feitos por Mann não seria o enquadramento ou o reenquadramento e, nesse sentido, El Cid significaria muito.
Mais uma vez, falta qualquer espécie de rigor narrativo, já que cênico o filme possui em doses difíceis de reter, tamanha a totalidade dos planos que colocam os personagens e suas emoções no quadro espaçoso e por isso mesmo distante de qualquer percepção e proximidade com as figuras que realmente importam (no caso, os personagens de Charlton Heston e Sophia Loren, no romance clássico e mal-nutrido por Mann). É a ditadura do filme épico, que é descrita, frontalmente, pelo poder da produção, pela quantidade de extras, de roupas, de pores do sol, etc. Trata-se aqui de descobrir a anacronia exata e facilmente encontrada que calculou o encontro de Mann – um diretor “inadequado” tanto para El Cid tanto para A Queda do Império Romano e até mesmo para Música e Lágrimas – com um mundo de produção que ele não sabe lidar.
A fratura que destrói El Cid é aquela de uma de organização exata. Mann fará do cinema um local a se cumprir programas e obrigações narrativas muito frágeis. Neste caso, então, o que sobra é que toda a pauta de El Cid é para uma mostragem histórica, frontal, muito encenada e ironicamente sem força já que tudo é deixado de lado para transformar o enquadramento constante das coisas e objetos dos cenários no quadro em naturezas mortas que têm, sem dificuldade, uma dose da apatia de Mann sobre elas. Ou seja, estar em quadro não quer dizer que se participe ativamente da ação – e, como se pode ver, a cada distância tomada da câmera até os personagens, perde-se o que seriam os melhores momentos do filme. Isso porque para Mann e a produção do filme existe uma linha clara que separa dois pilares de criação dessa obra. O primeiro é a pauta histórica (os pequenos clímax que as cenas tentam ser sempre, elucidando com clareza as passagens da História, como que para transmiti-la à crianças), que tem o intuito de passar uma pequena aula sobre os homens, comportamentos, ideias do século XI e do próprio El Cid. O segundo, claro, resta ser o da construção de dramaturgia em cinema, deixada de lado pela força histórica que toma conta de tudo aquilo que narra em El Cid. A crueza com que isso é exposto aparece quando Jimena diz para Cid que ele nunca terá seu amor. Vemos que Mann, no contexto da cena, separa a dramaturgia da História na sua direção ausente (a não ser, claro, que essa dramaturgia sirva a esta História, como nas cenas de luta e de superlativos à honra) por que amor não é o mesmo que sexo. Dramaturgia não caberia na recriação da história.
Mas outra coisa acontece em El Cid. A condição do filme é trabalhar os conceitos dos planos clássicos que compõem a narrativa para que eles pareçam outra coisa, ou, melhor, outros planos. É essa a parcela mais incômoda, porque Mann seguirá as obrigações do filme épico ao transformar – ou querer transformar – plano geral e médio em close up – não é esta a lei principal dos filmes épicos enganados? Logo, teremos que ver sempre os personagens com os cenários eternamento por trás a aprisioná-los (estes, claro, chapados, porque a câmera nunca está de acordo com eles de fato, com suas formas e linhas), as cenas mais interessantes destruídas pela incorporação desimportante dos espaços (isso é uma derrota até mesmo para Mann, já que ele não sabe como esbanjar e filmar estes espaços e o interesse dessas cenas escapole), a instauração da aula tradicional onde vemos os fatos históricos sem vigor algum, a título de um conhecimento direcionado bem claro: o de deixar a escola o quanto antes através do estudo – ou da repetição. Se El Cid é mesmo arquitetado nos moldes da aula tradicionalista, então não há como deixar de louvar que as transfigurações dos planos tenham dado certo. Interessa mais decorar (pelos planos médios e gerais dos cenários e agrupamentos, que, claro, dão imagem àquilo tudo dos livros e da História) do que aprender (pelo close up, a análise próxima ao rosto, ou, no caso, próxima demais à História para desmenti-la). O equívoco de toda escola me parece ser este.
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