Winchester ’73 (Anthony Mann, 1950)

Enquanto assistia ficou impossível não lembrar de um outro filme mais recente, Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Coens, e até acho mesmo que os irmãos chuparam uma boa parte das idéias desse aqui pra usar no seu western moderno, e adaptaram perfeitamente pro estilo autoral deles, claro. Eles partem de um lugar muito semelhante: se nos filmes dos manos o objeto de desejo é uma maleta cheia de verdinhas, representando toda a ganância do universo criado por eles (ou apenas refletido), aqui o objeto consegue ser até mais explicito, é o próprio que dá título ao filme, um objeto de morte, que reflete perfeitamente o way of life do local, e cobiçado por todos que vivem nesse meio, independente de caráter ou coisas do tipo. A diferença é que se no filme dos manos a maleta de dinheiro serve mais como um elo de ligação, um ponto de partida, ou até uma maldição, um imã de tragédias… Aqui o Winchester é praticamente um espectador, um sobrevivente, mais orgânico, não atrái a tragédia, é a personificação dela, como se o rifle quase comandasse o homem, ele não mudaria o caráter desse, mas era quem dava o poder. E dessa forma o filme se encaminha quase como uma corrida de bastão, onde o bastão é o winchester, e não é entregue, mas sim conquistado, atráves da única forma que se pode conseguir um exemplar raro desses: à bala.

Durante todo o filme as mais diferentes mãos carregam o rifle, desde um líder apache até um mercador de armas. E a forma que o Mann usa pra conduzir isso tudo é na banalização mesmo, ele te coloca dentro de uma situação, encontra alguém para carregar o rifle, inicia o desenvolvimento dessa situação, e, despirocandamente, logo cria um surto de balas, fazendo com que o rifle caia em uma mão completamente diferente, que leve pra uma situação totalmente diferente, fazendo com que em uma hora tu presencie um bang bang tradicional envolvendo a cavalaria contra os índios, e no minuto seguinte já esteja no meio de um tiroteio dentro de uma casa em chamas envolvendo saqueadores, policia local e reféns, sempre com o Winchester como protagonista. E sempre em um ritmo frenético, coisa doida, esse negócio é ágil demais. E ainda isso tudo se encaixando lindamente com a história principal no fim (sim, tem uma história principal).

É um road movie embalado em um ambiente de western sempre com um grau absurdo de surto. Não conheço muito desse Anthony Mann, primeiro filme do cara que assisto, mas de qualquer forma já deu pra perceber que é coisa de mestre.

4/4

Thiago Duarte

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