


O Demônio da Noite abre com a narração que já insere aquele tom semi-documental, parte pra um ensejo puramente cinematográfico, filmado e coreografado com o tipo de classe que se espera de Anthony Mann, apenas para voltar a cair na vala do realismo engessado que – ao contrário de Cidade Nua – permite que sua virtude pra reportagem de TV infle e tome conta do filme não abrindo espaço para que o cinema possa aparecer, salvo em algumas raríssimas ocasiões.
Primeiro que a minha determinação do quê, em O Demônio da Noite, cabe a Werker ou a Mann (não-creditado) é puramente hipotética / fantasiosa / empírica / preconceituosa. Nunca vi nada do Werker mas o saldo do Mann comigo é tão positivo que acho natural atribuir-lhe essa bela sequência inicial e os últimos 10 minutos (a composição do cerco em torno da casa do assassino é pura poesia), enquanto que também considero normal pensar que, caso Mann tivesse tido alguma liberdade – nem que se mantivesse esse realismo amorfo -, o resultado seria muito diferente. Mas falar sobre o que poderia ser é fácil (e inútil).
O pouco de linguagem cinematográfica que resta é deixada pra quando acompanhamos os passos do assassino, por natureza – já que O Demônio da Noite é ‘baseado em fatos reais’ – uma jornada de hipótese construída com pura imaginação, por óbvio o oposto da reconstituição de cada detalhe da investigação na delegacia de polícia (infetada de personagens duros e desprovidos de personalidade, e aliás, se muito me engano, o único close do filme é dado de presente exatamente ao vilão de Richard Basehart, que se transforma no cúmplice do espectador, o único personagem capaz de recriar alguma empatia e captar o interesse e a preocupação do público, e que fique claro que isso – apesar de parecer ótimo – não passa de mero acidente, já que o suposto protagonista é todo envolto do velho plot do policial que transforma o caso em questão de honra por causa do amigo ferido, que teria alguma chance de funcionar se, a toda hora que aparecesse, não tivesse que dividir a tela numa disputa desleal com o detalhismo maçante de cada pequeno processo da investigação policial, pra qual sobra toda a atenção da câmera).
Mas enfim, como dito no início, alguns pares de sequências quase alienígenas diante do contexto onde estão inseridas resgatam He Walked By Night do meio da bosta. E percebe-se claramente que o tom muda, que a preocupação e o objetivo da câmera na cena já é outro, que é a IMAGEM quem finalmente vem à superfície pra dar uma respirada. A fuga pelos esgotos encontraria um eco em O Terceiro Homem, lançado no ano seguinte. Já pra sequência do assassinato (ou tentativa, que seja) eu fiz questão de tirar esses screens aí – além de outros de alguns bons momentos. Dilatação do tempo e atmosfera encontram casa nessas esquinas que não existem em época / lugar / gênero qualquer que não seja o film noir.
1/4
Screenshots!
Não é lá nada espetacular, mas antes que nada.









6 Responses to O Demônio da Noite (He Walked By Night – Alfred L. Werker / Anthony Mann, 1948)