A Morta-Viva (I Walked with a Zombie – Jacques Tourneur, 1943)

Há poucas maneiras de passar sessenta e oito minutos mais agradáveis e estimulantes do que assistindo esse pequeno grande filme de terror dirigido pelo mestre Tourneur, que leva a um passo adiante o estilo do anterior e já excelente Cat People (1942), investindo ainda mais na criação de um clima excepcional e numa aura sutil de horror implícito em vez de efeitos repugnantes ou de sangue e tripas. O filme é calcado em um dos monstros femininos mais belos do cinema, a figura singelamente aterrorizante da morta-viva loira, vitima de febres tropicais que deterioram partes de sua medula, tornando-se incapaz de falar ou ter vontade própria em seu sonambulismo eterno, aprisionada em si própria dentro de um mundo vazio de alegria ou significado. Bela à luz do dia, misteriosamente assustadora em sua primeira aparição após o anoitecer, em meio a um estranho povo nativo nas Índias Ocidentais, descendentes da dor da miséria e da escravidão, e que por gerações a vida lhes foi um fardo, e que por isso ainda choram quando nasce uma criança e se alegram nos funerais (justificando a sentença dita pela boca de uma das personagens de que ali tudo que é bom morre de forma violenta). O que algum outro diretor menos competente transformaria em macumba para turista, pelas mãos de Tourneur resulta na capacidade de converter ambientes paradisíacos (como a praia de uma ilha caribenha) em infernos enlouquecedores, no qual as cenas diurnas servem como pausa para o horror que se desenrola quando surge a escuridão, com os tambores da selva, misteriosos, assustadores, os cantos e as luzes, e as caminhadas noturnas através das plantações de cana. Extremamente eficaz no uso da luz e sombra e na disposição dos elementos em cena (objetos, detalhes, figuras humana) para criar quadros que evocam magistralmente uma atmosfera sobrenatural, I Walked with a Zombie em sua curta duração se desenrola ao sabor dos velhos contos de fantasmas e feiticeiros, em torno de uma mulher tão bela transformada em um zumbi.

4/4

Vlademir Lazo Corrêa

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