Eles Vivem (They Live – John Carpenter, 1988)


Uma que é o filme mais charmoso do mundo. Dos diálogos (“Vim aqui mascar chicletes e chutar bundas, e meus chicletes acabaram”) a cada uma das cenas (Nada encontrando os óculos, Nada descobrindo como os óculos funcionam, Nada surtando com a 12 e caçando os alienígenas na rua, etc) Eles Vivem é talvez o representante mais classudo e indefectível do cinema B. Tem um bilhão de ideias e conceitos sendo trabalhados (desde a ironia com o consumismo e o capitalismo e o apocalipse sendo gerado através deles até a relação entre filme e a própria carreira de Carpenter, um brutamontes caçando alienígenas é provavelmente a verbalização de tudo o que o restante trabalha nas entrelinhas), um esquema narrativo absolutamente fantástico, uma noção de ritmo que não encontra parâmetros em nenhum outro filme (o único filme que possui uma cadência tão precisa quanto a de Eles Vivem é Rio Bravo), é um filme que desliza, flutua de cena em cena com uma facilidade assustadora – a trilha sonora nesse sentido é um achado também, a maneira com que Carpenter vai conduzindo o filme através dela, mais ou menos como o baixo faz no blues (o Kerr ex-multiploteiro e atual tocador de batuques  em noites paulistas já diria que Eles Vivem é um blues filmado, melhor definição impossível), enfim, é uma fonte inesgotável de coisas geniais sendo trabalhadas por debaixo dessa aurea de filme B, de filme tosco, de filme vagabundo, mas que na verdade tem mais a dizer, tem mais classe cinematográfica, tem mais observações brilhantes (“this is our god” refletido num maço de dinheiro!!!) do que qualquer filme pretensamente político do cinema contemporâneo. É um filme onde Carpenter constrói um mundo e rui inteiro na nossa frente, um filme em que ao herói só resta chutar a bunda de tudo e de todos, um legítimo filme do caralho.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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