


Muitos dizem por aí que “Funny Games”, do Haneke, faz com que o espectador se torne, de certa forma, um cúmplice de todas as atrocidades que estão passando na tela. Bom, acho que essas pessoas, ao verem “Sob o Domínio do Medo”, vão achar “Funny Games” um filminho de freiras.
Tudo que você possa imaginar e esperar do “Bloddy Sam” está aqui, mas intensificado a enésima potência, com uma fúria gigantesca. Todos os acontecimentos, desde o começo do filme, se encontram dentro de uma espiral de violência (física, psicológica, sexual), que resulta em explosões e mais explosões, cada vez maiores. É como uma saraivada de bombas-relógio sendo filmadas, onde cada minuto na tela corresponde a milésimos de segundos dentro do filme. Nunca a “teoria da bomba”, dita por Hitchcock, foi tão ampliada.
Sem falar que a câmera de Peckinpah nunca esteve melhor, em comparação a todos os seus filmes. E a montagem do filme é uma contestação irrefutável de outra teoria famosa do cinema: o “Efeito Kulechov”, onde a justaposição de certas imagens permite-nos estabelecer ligações entre dois planos que, por si só, nada dizem. E o modo como isso é aplicado é um dos principais motivos das milhares de bombas-relógio explicadas acima.
E, dessa catarse violenta e explosiva, todos os personagens colhem as conseqûencias dos seus atos impensados, seja através da irresponsabilidade (como a personagem de Susan George), ou até mesmo por negligência e inabilidade inicial de contornar certos problemas (como o personagem de Dustin Hoffman). Mais do que isso: mesmo todo o avanço de tempo entre o Velho Oeste e o Mundo Moderno não impediu o ser humano de controlar o seu instinto animalesco. Pelo contrário: muitas das vezes, é preciso recorrer a ele para sobreviver.
Em resumo: são 110 minutos que podem fazer cabeças, e tudo o mais ao seu redor, explodirem. Coisa que só o “poeta da violência” poderia fazer.
4/4
Adney Silva
ou: Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971) – Daniel Dalpizzolo – 4/4
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