


Creio existir um limite para tudo. É notório que filmes constróem suas próprias realidades baseados em recriações inspiradas na nossa. Talvez isso ocorra por facilidade de associação por parte do espectador ou para transmitir uma mensagem que seja provocativa ou reflexiva, seja simplesmente para você se desligar por duas horas aproximadamente de sua vida rotineira nos moldes exigidos pelo capitalismo ou com a intenção de refletir uma opinião na tela.
2012 tenta se encaixar na primeira categoria. Entretanto, calcado em efeitos especiais excepcionais tenta a todo custo ofuscar uma pobreza irritante de todos os outros elementos componentes da estória e os clichês atirados na cara do espectador da pior forma possível, sem o menor refinamento.
O filme é um arrasa quarteirões repleto de uma dramaticidade repetitiva e personagens nada carismáticos (abusando de momentos “ooooooh” com mortes apoteóticas, previsíveis e dispensáveis). O pior mesmo é o cinismo do tipo “quero ser democrático e mostrar que os USA não são tudo no mundo”, algo que soa terrivelmente forçado e que não consegue fugir do óbvio. Nem transferir a tecnologia de produção das arcas para a China adiantou ou atirar a “importância” da África no finalzinho funcionou. Ainda assim as constrangedoras cenas do Presidente americano negro que prefere morrer com seu povo (oooooooh, e olha que até tentaram colocar o italiano também…mas, curiosamente não teve a “cena” de ser “engolido” pelas águas em uma cena “histórica”), a cruzada intermitente (e absolutamente ridícula pelos seus excessos) do personagem de John Cusack e sua família estúpida – naturalmente com direito a salvar a arca no final “trilegal” (oooooooooh) ainda prevalecem.
Tudo, com exceção aos efeitos especiais, é péssimo, absolutamente tolo e parece tentar fazer o espectador de idiota, chega a ser ofensivo e constrangedor. Um dos piores do ano, sem dúvida.
1/4
Silvio Tavares
Vi nessa semana… O Emmerich em dois lados, o manipulador genial de Independence Day, e o desastrado de 2012. O grande truque dos filmes-catástrofe (na verdade é condição sine qua non pra funcionarem) é te venderem uma verdade pela qual você está louco pra acreditar. Ele PRECISA te abduzir, caso contrário é como assistir alguém jogar água num formigueiro. E as pessoas sabem fazer a leitura quando algo não vai bem. Fui no cinema com uma galera e a reclamação de todo mundo era sobre a falta de realismo, que nada daquilo era verídico e tal (até ouvi uma frase sensacional “mas é ficção cara”, “não importa, isso nem na ficção”, haha). Aí alguém vem e diz “ah tá, tu queria realismo em 2012, cinema não tem essa pretensão, vai ver documentário”, etc. Aí entra o discurso do melhor filme do Chris Nolan. Cinema é arte da ilusão e todo cineasta é um mágico, e no caso do Emmerich, o truque é te fazer acreditar no que se passa na tela, porque faz parte da natureza do blockbuster (um troço meio sci-fi-pós-moderno-essas-porras): você paga pra sentir emoções dependendo do que tá escrito na embalagem (comédia pra sorrir, romance pra se emocionar, etc), e o barato dos filmes-catástrofe é que eles têm a pretensão de oferecer todo um pacote (e os que melhor fizeram isso foram Independence e Titanic, disparados). Pra um filme como 2012 dar certo ele precisa oferecer ao espectador a possibilidade de se sentir em um mundo com o prazo de validade expirando (‘2012′, dã), onde não haverá pra onde correr; aí você vê determinado personagem se despedindo do pai e automaticamente associa como seria a situação, como seria ver uma onda gigante vindo em sua direção sem ter como escapar, etc, etc. sempre que um personagem estiver prestes a morrer, você vai estar lá ao lado dele (pra morrer também, afinal).
2012 falha o tempo inteiro em te ‘capturar’ pra dentro do filme porque não te conecta ao personagens (caralho, nem na cena do cachorro deu certo), porque é mera espetacularização, porque cada super-efeito-especial tem o mesmo resultado de ver uma fileira de dominós sendo derrubada e porque, essencialmente, quebra as próprias regras. Como na cena da fuga com a limo/avião. O espectador precisa ter um fiapo de conexão com a realidade, caso contrário, a mentira não vai funcionar nunca.
0/4
Luis Henrique Boaventura
10 Responses to 2012 (Roland Emmerich, 2009)