


E se amar significasse tudo? E se as irracionalidades inerentes à beleza desse sentimento pudesse nos sustentar diante de todas as adversidades que a vida nos traz?
Two Lovers se inicia com uma tentativa de suicídio de um rapaz que sofre de transtorno bipolar. Não fora a primeira vez, mas fica evidente que ele deseja mais que tudo VIVER e isso nem sua instabilidade psicológica conseguiu destruir. É como se a vida fosse uma chama incandescente residente em seu peito e perdesse a força vez ou outra, mas é intensa demais para se apagar completamente.
Com o futuro delineado por uma relação familiar complexa (e aqui cabe destacar a magnífica atuação de Isabella Rosselini como mãe, que, apesar de pouco conhecermos de seu histórico – como todos os personagens do filme – transmite sensações, desejos e emoções com suas expressões delicadas e que remetem a um profundo conhecimento das atitudes do filho). Leonard desenvolve métodos de escape da realidade, sem fugir de sua natureza humana – dotado de sexualidade, em busca da felicidade, buscando superar os problemas que fatalmente surgem simplesmente por existirmos. E nessa busca, James Gray nos faz conhecer um homem diferente, que não se comporta de forma coerente com um ser tomado pela doença. Leonard consegue ser divertido, conquistador, malandro e, principalmente é capaz de amar. E amar intensamente. Quando sua trajetória cruza com a de duas mulheres também de natureza inexplicavelmente dúbia (e esse inexplicavelmente tem a função de mostrar o quanto nossos comportamentos são misteriosos e não podemos ser enquadrados em padrões racionais) a estória se complica. A mistura do certo com o errado, do normal versus o anormal, do típico rivalizando com o atípico gera no final um furor absurdo, inexplicável, poderoso e cinematograficamente falando, beirando a perfeição.
Para lembrar de dois primores – e há muitos :
Spoilers
Há uma cena de criação de suspense no final do filme com um caminhar da personagem de Gwyneth Paltrow em sombra empalidecida, até revelar seu rosto, enquanto Joaquin Phoenix espera ansioso até receber a triste notícia de que ela o deixaria, que é uma coisa do outro mundo. Denuncia o contraste do mundo de delírio apaixonado de um homem que ama, mas ama tanto que esqueceu de perceber que a outra parte poderia não sofrer da mesma “doença” do morrer de amor, ou pelo menos não por ele. Assim também se fazem as cenas dos encontros lá em cima, especialmente a da explosão psicológica de Leonard que se esgota em um “não quero mais te ver novamente”, enquanto durante todo o diálogo observamos as tomadas fragmentadas por causa das pilastras, mostrando ora um personagem ora outro, em um surto de nervosismo pálido, estranho e triste.
Fim do Spoiler
Belíssimo filme, dos melhores do ano. Atuação magnífica do excepcional Joaquim Phoenix e de Paltrow (que sempre adorei), sem contar Mama Rossellini, que dispensa comentários.
4/4
Silvio Tavares
ou: Amantes (James Gray, 2008) – Thiago Macêdo Correia – 4/4
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