


*spoiler no 3º parágrafo
É preciso cuidado. Desde os 5 minutos de filme, quando o primeiro clímax é um rapto ao invés de um assassinato, qualquer fã de cinema fantástico vai notar que Giallo NÃO É um giallo, e principalmente que precisará reorganizar suas expectativas ao longo da sessão. Isso por que, antes de mais nada, não se trata de um trabalho explícito, daqueles onde se sente a mão de Argento como fogos de artifício na tela. Câmera subjetiva, travellings, cores, uma atmosfera qualquer meticulosamente preparada, etc… Nada disso. Os assassinatos pontuando a trama – sempre pretextos para que os italianos exercessem cada qual o seu estilo – são coisa de um ‘gênero’ que ficou para trás, cristalizado entre anos 70 e 80, e cuja última menção honrosa é o já distante Sleepless.
Giallo é um thriller policial cuja estrutura se molda a dos filmes de serial killer contemporâneos (e que de todo modo não deixaram de beber da fonte inaugurada por Mario Bava). A ação principal é a do detetive em busca da solução do caso, enquanto que os momentos de corte do ritmo são exatamente os do assassino no esconderijo torturando sua vítima (ao invés de sair à noite por vielas soturnas em busca de outras). A tensão então se daria simplesmente através do resgate da vítima, de o detetive chegar a tempo, etc… Mas é quando ameaça decepcionar, quando você pensa que mataram Argento, esconderam o corpo e puseram a câmera na mão do sobrinho do produtor, que Giallo se mostra narrativamente brilhante.
Desde o primeiro momento, Argento estabelece uma conexão entre o detetive e o assassino, fazendo-nos crer que se tratam da mesma pessoa assim que Adrien Broody surge com lentes de contato no retrovisor do táxi. Em seguida são as memórias do detetive que colocam em jogo todos aqueles elementos-base do universo argenteano pra construção de uma mente psicótica. Logo depois, Argento tira o “Yellow” das sombras, e o que temos é um Broody coberto de maquiagem. Não existem outros personagens dividindo a atenção, não existem suspeitos possíveis, não existem dúvidas. Mesmo com as ações transcorrendo em aparente simultaneidade, o espectador não desconfia, ele SABE a solução para o whodonit. E toma no cu bonito.
O “giallo” do título está subvertido. Subvertem-se as expectativas, subverte-se o estilo do seu autor, subvertem-se os elementos que o compõem. O whodonit está do avesso, a câmera está presa, aquela velha lâmina reluzindo no ar é agora substituída por seringas, martelos e alicates. Mas o giallo está subvertido pelo próprio cinema, não por Argento, e Giallo nada mais é que uma representação do contemporâneo em relação ao passado, não em tom nostálgico ou de réquiem, mas de passagem. De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.
Argento então faz dos flashbacks a sua fuga. É através das lembranças do detetive que ele acessa esse mundo perdido pelos amantes do velho giallo ao pintar a tela de laranja e trazer de volta a câmera ao status de personagem, movimentando-a como se boiasse à deriva na água. Se dispostos um ao lado do outro e linearmente, os flashbacks montam um giallo fechado, independente do resto do filme; com início, meio e fim próprios. Com apresentação de personagens, testemunho do crime e vingança, tudo concebido a facadas. Em Giallo, é apenas na memória que as coisas continuam belas. O tempo presente é apenas seco (compare os finais de Giallo e Profondo Rosso).
E o filme permite esse respiro. Te convida a fugir dessa opressão do convencional para viajar trinta anos no tempo e voltar pra um mundo que parece desconhecer o fato de simplesmente não existir mais. Desde Terror na Ópera.
Giallo é o filme mais lúcido de todo o cinema fantástico italiano.
3/4
Luis Henrique Boaventura
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