
Defender A Dama na Água sempre foi difícil, principalmente por exigir de nós uma crença no lúdico quase anormal – e que nem todos estão dispostos a pagar, ainda mais quando o pedido é deslocado para a esfera onde devemos aclamar a elocubração em torno da fantasia em detrimento de qualquer elaboração cinematográfica um pouco mais sofisticada, deixando de lado as formalidades secas e desprovidas de sentimento. Porque se faltou a M. Night Shyamalan a habilidade necessária para que as arestas fossem aparadas em prol de um melhor acabamento, sobrou paixão para burilar uma declaração de amor ao fantástico, mesmo que alicerçada em bases ligeiramente frágeis e inconsistentes.
O ingresso para mergulhar na jornada tem um preço modesto: desprender-se do seu lado adulto, segurar firme na fantasia e relembrar de quando você não dava tanta importância a simbolismos, mensagens, evolução da trama e aprofundamento psicológico de personagens; só interessava a diversão e, acima de tudo, a aceitação incondicional da magia – o tolo personagem referente ao crítico é a alegoria ultrajantemente ingênua (fator que parece intrínseco ao caráter do autor, e que vem maculando severamente seus últimos trabalhos) criada por Shyamalan para retratar o descrente, o parvo que arranha o encantamento do fantasioso ao aplicar um racionalismo exacerbadamente estúpido a fim de desconstruir as engrenagens e mecanismos fabulares.
Quando mais nada parece funcionar, imergir no fantástico parece um sedutor refúgio – pertinente ilustração da condição na qual todos estamos encarcerados, singelamente sintetizada na comodidade sentida pelos moradores quando encontrados sob a égide da estória, tão gratificante que os eleva ao ponto de esmagar a melancolia e semear um espírito em equipe norteado pela bonomia e a esperança de salvação, pulverizando seus temores com a simples ferramenta advinda da fé. É nessa alienação de fulcro mágico por excelência que é fundada nossa religião.
Para alguns, o crime de Shyamalan foi apresentar o descuido com os pequenos detalhes e a falta de grandes insights que talvez evidenciem o caráter indigno presente na essência de cada elemento constituinte da fábula, mas notavelmente denominado de bobagem, até mesmo palhaçada. Trocando em miúdos: seu erro foi alimentar paixão demais. Se tudo não passa de armação, não tem problema, caí direitinho na armadilha, só que de forma tão confortável, que se pudesse decidir, não sairia nunca mais. Evocar toda uma magia nostálgica remissiva à infância não deveria ser chamado de ato criminoso, muito pelo contrário.
4/4
Vinícius Laurindo
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