A Troca (Clint Eastwood, 2008)

Contrariando uma própria expectativa ruim, eu me vi absolutamente estarrecido ao final – e ao longo também – de Changeling, pela surpresa grandiosa que foi ver que o filme de Clint Eastwood nada tinha de convencional, acadêmico ou burocrático, como cheguei a ouvir (e, talvez, acreditar). Changeling é um exercício de linguagens, utilização de métodos que buscam um funcionamento maior de estudo de personagens e nisso a narrativa varia entre a evidência e o improvável.

Li agora um texto do Eduardo Valente em que ele cita a chave clara de compreensão do que está sendo filmado por Eastwood. Nele, Valente cita que em determinada cena no hospício “fica claro então que ele não está falando aqui da luta do indivíduo contra a instituição/o sistema, mas sim do Homem (encarnado aqui numa mulher, mas não só ela) frente ao inexplicável”. E o inexplicável é o próprio medo, a própria obstinação, a insegurança; a injustiça no final das contas mais parece um pequeno ponto em tanto horror explicitado na tela (e a palavra “horror” foi outra perfeita citação do Eduardo Valente). Diante de um ser desconhecido, Christine (a personagem de Angelina Jolie, em uma atuação precisa e nada exagerada, como muitos disseram), parece ela mesma o mal (a fotografia já como marca do diretor, em meio a sombras, o posicionamento de câmera), uma improvável classificação de vítima que não ordena a definição do que se passa com aquele personagem.

Changeling é um filme aberto, é um filme para ser sentido por quem ver, não como pura manipulação massificada (como a ordem da classificação melodramática poderia parecer), mas como trabalho de um autor ainda interessado em entender os seres que caminham pelo mundo à margem da estrada iluminada. Clint Eastwood fez outro grande filme, desses que parece um milagre de cinema que somente um artista superior poderia conduzir de tal modo. Incrível!

3,5/4

Thiago Macêdo Correia

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