


Se temos um diretor brasileiro que pode ser chamado de maldito, esse é Zé do Caixão. A maioria das pessoas conhece apenas a sua persona e, por isso, muitos a acham no mínimo inusitada, para não dizer ridícula. Mas poucos o conhecem como diretor, como ator e, sobretudo, como realizador de obras no mínimo interessantes, ainda mais se lembrarmos que ele é o único “bandeirante brasileiro” do terror, e que, na imensa maioria dos seus filmes, contava com recursos ínfimos, tendo que abusar e muito da sua criatividade e talento em contar histórias macabras. Das suas obras, “Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta” é a mais maldita e a mais genial.
Para quem desconhece, o filme, sob o nome de “Ritual dos Sádicos”, teve sua exibição proibida pela censura do governo militar, que não satisfeita, tentou ainda destruir todas as cópias e negativos. Mojica ainda tentou relançá-lo três anos depois, com alguas pequenas mudanças, sob o nome “O Despertar da Besta”, novamente sem sucesso. E assim, o filme ficou anos e anos nas duras e grotescas mãos da ditadura militar, até que, já na década de 80, com o fim do Regime, ele foi liberado e assim participou de vários festivais ao redor do Brasil. Entretanto, Ritual dos Sádicos acabou não entrando em circuito nacional, permanecendo até hoje inédito nos cinemas.
Assistindo ao filme, compreendemos o porquê dele ter sido proibido com tanta veemência pelos sisudos homens de farda. Merecedor do título de ousado e polêmico, o Ritual abordava diretamente, pela primeira vez no cinema brasileiro e em pleno auge da repressão militar, o uso de drogas como maconha, cocaína e LSD. Não apenas abordava, mas mostrava os personagens consumindo “tóxicos” (assim eram referidos os entorpecentes no filme) antes de sessões coletivas de coprofilia, sadismo, zoofilia, misoginia e outras “perversões”. Tanto material não passaria em brancas nuvens por eles.
Entretanto, toda essa amostra de práticas nefastas e condenáveis pela maioria das pessoas não foi colocada apenas para chocar. Mojica consegue mostrar uma obra memorável, recheada de citações metalinguísticas das mais variadas fontes, desde da sua própria persona (que muitas vezes é confundida com o diretor, fato esse abordado no filme), com a sua fama de maldito (ao inserir uma apresentação de um programa televisivo de grande audiência na época, chamado “Quem tem medo da verdade?”, onde ele era julgado por vários artistas), e com o próprio cinema (no espetacular plano final). Aqui também Mojica se utiliza do artífício de pincelar a cena-chave do seu filme com cores, constratando com a sua forma documental preto-e-branco habitual. O resultado, além de estéticamente ser fenomenal, ainda carrega em suas entranhas e nas cores escolhidas uma importância fundamental para a trama.
Como resultado de todas essas referências, temos uma obra inovadora, que não só é muito a frente do seu tempo, mas também confronta o telespectador, convidando-o a caminhar durante os 90 minutos no mundo bizarro e espetacular de Zé do Caixão, que é nada mais do que a representação de muitas das nossas bizarrices, que carregamos no nosso íntimo, mas que fazemos o possível para que as pessoas não a conheçam. Nas palavras do próprio: “O meu mundo é estranho, mas digno de todos que o queiram aceitar. E nunca corrupto como querem fazê-lo. Pois é composto, meu amigo, de pessoas estranhas, mas não mais estranhas que VOCÊ!!!!” E, com isso, temos, por fim, uma obra genial, não só do cinema brasileiro, mas do cinema em geral, feito por uma pessoa que, apesar de sempre se autodeclarar um ignorante, um semi-analfabeto, tem uma grande sensibilidade e uma visão do ser humano (e de suas aberrações) fora do comum.
E nós cinéfilos devemos dar graças a Deus que ele resolveu mostrar essa visão em forma de filmes.
4/4
Adney Silva
6 Responses to Ritual dos Sádicos (José Mojica Marins, 1970)