![[image]](http://www.ump.edu.br/metro/files/image/cultura/blindness_01.jpg)
Se você é brasileiro, adulto, razoavelmente inteligente, com acesso mínimo a meios de comunicação e, ainda assim, não ouviu falar nem leu nada a respeito de Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), de Fernando Meirelles, saiba: trata-se de adaptação cinematográfica do livro homônimo do mundialmente aclamado escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Coube ao diretor brasileiro, realizador dos badalados Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, o dúbio privilégio de tentar adaptar para a tela grande algo que havia recebido a curiosa alcunha de “infilmável”. Ele conseguiu.
Ensaio Sobre a Cegueira parte de uma suposição enganosamente simples: e se as pessoas, repentinamente, deixassem de enxergar? Mais grave ainda: e se tal cegueira não tivesse explicação racional, fosse incurável e altamente contagiosa? Pior: conseguiria o ser humano, enquanto criatura social (e, portanto, definida pelos que o cercam), sobreviver e manter, ao mesmo tempo, o núcleo dos atributos que o separam das demais espécies que habitam a Terra? A resposta a esta última pergunta vai de acordo com a crença de cada um, mas Meirelles e Saramago se divertem colocando nossas próprias convicções à prova ao retratar o início da epidemia e o desenrolar dos acontecimentos na vida de alguns poucos pobres diabos, os pioneiros na perda da visão, dentre os quais se destacam um oftalmologista (Mark Ruffalo) e sua mulher (Julianne Moore), todos enviados a um centro de contenção epidemiológica – ou seja, um campo de concentração – e entregues à própria sorte. Lá, o médico será eleito o líder da Ala 1 de internos e se chocará frontalmente com o auto-proclamado líder da Ala 3 (Gael Garcia Bernal), um sujeito completamente amoral, perverso, cínico e livre de qualquer censura.
Censura, aliás, é o cerne do filme – ou melhor, a falta dela. Visão é censura; visão é a percepção de coisas que nós poderíamos fazer caso não existissem barreiras sociais. Sem a visão, as pessoas começam a se desnudar, resultando em democratas bons de retórica e ruins de prática (nosso bom doutor) e em déspotas psicóticos como o rei da Ala 3. Saindo da frigideira para o fogo, só resta à massa de populares desnorteados a figura da boa esposa/mãe/mulher traída e prostituída/assassina eventual Julianne Moore, a única que ainda consegue ver. Sabe-se lá o porquê.
O fato de Saramago ter optado por não identificar nominalmente seus personagens é um forte indicativo de que Ensaio Sobre a Cegueira não tem seu foco sobre o indivíduo, e sim sobre o grupo. Meirelles constrói uma desconfortável antecipação de um possível fim dos tempos, com as pessoas atoladas em lixo e sendo transformadas em lobos raivosos cuja única opção é lutar pelos poucos restos de comida que ainda existem e torcer para que a morte seja o mais indolor possível. Da caixa de pecados que é a humanidade sem visão, há de tudo: cobiça, volúpia, ira, sadismo, indiferença, egoísmo. Ainda assim, diretor e escritor constroem, juntos, um pequeno núcleo de decência que insiste em existir no meio de tanta maldade. E com essas pessoas teimosas, relutantes em ceder à selvageria, vão todas as nossas esperanças.
Dando ao desespero que permeia o filme uma expressão mais abstrata, Meirelles usa e abusa de enquadramentos estranhos e fotografia estourada, de um branco ofuscante. O talento de sua equipe técnica se iguala ao de seu elenco, encabeçado por uma Julianne Moore que consegue tornar mais crível um personagem que, de outro modo, poderia muito bem parecer uma dessas beatas próximas da canonização. Mas o maior trunfo do filme é realmente seu diretor, aqui menos espetaculoso que em seus trabalhos anteriores e mais interessado em perturbar seu público ao invés de o deslumbrar. São de Meirelles, e de seu mentor intelectual Saramago, todo o vigor, a melancolia e a beleza distorcida do filme, que nunca perde sua força ainda que eventualmente apele para soluções estéticas mais óbvias. Um filme que, aliás, fica com quem o vê por um bom tempo.
3/4
Amílcar Figueiredo
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