Década Vigente (Especial James Dean)

A juventude e o cinema formam uma combinação que tradicionalmente deu certo. Um dos maiores responsáveis em iniciar essa tradição é o principal homenageado deste especial, James Dean. O sucesso de seus filmes coincidiu com o surgimento do rock, até então o principal e o primeiro gênero musical que realmente se identificou com a juventude. Tanto que é comum dizerem que Elvis e Chuck Berry são os inventores da adolescência. O carisma e a imagem icônica de Dean, somada à sua morte precoce, imortalizaram o conceito de juventude na cultura pop. Morreu em um acidente envolvendo uma de suas maiores paixões – carros e velocidade, o que ressaltou ainda mais esse caráter meio hedonista. E já dizia Pete Townshend, do Who, “quero morrer antes de ficar velho”. Dean morreu antes mesmo dos 25, e hoje ele está eternizado como jovem.

Isso passa pela visão do engajamento e a utopia da década de 60, pela ressaca e a podridão na década de 70, pela crise encarada na década de 80 com doses de bom humor e exagero, pela tentativa de juntar os cacos na década de 90… Funciona praticamente como um ciclo de ascensão e queda: James Dean inicia o processo e expõe na década de 50; é sucedido pelos sonhos, dos hippies, dos protestos contra a guerra do Vietnã, a ação em maio de 68 em Paris; praticamente um anti-clímax na década de 70, o escândalo de Watergate, e um sentimento meio de repulsa bem mostrado em “Taxi Driver”; encarar todas as crises econômicas, políticas, etc, no jeitão dos anos 80 que já virou clássico; e a década de 90, marcada por um certo quê iconoclasta (dois dos seus maiores símbolos são Nirvana e “Pulp Fiction”).

E chegamos nos últimos oito anos. Boa parte dos filmes mais recentes sobre juventude são geralmente categorizados como besteiróis, e geralmente retratam esse lado da festa sem fim da adolescência. Os exemplos são vários, “Cara, Cadê Meu Carro?”, “Eurotrip”, “American Pie’s” e “Scary Movies” (ou os inúmeros “Whatever Movie”) e suas continuações, slashers, etc. Geralmente o estilo mais comum é o filme de colégio ou faculdade, quase que um pretexto pra mostrar as festinhas, bebedeiras e outras putarias comuns nessa época. Alguma problemática, como um psicopata com um facão à solta, ou uma mega festa, conhecer alguém novo, acaba praticamente coadjuvando o epicentro da maioria dos filmes, que é a relação pessoal entre eles. Um bom exemplo é “Todo Mundo Quase Morto”, descrito como uma comédia romântica com zumbis. Os mortos vivos acabam servindo quase como terapeutas para os personagens (mesmo que o filme seja muito mais que isso). Ou “Primer”, em que as parafernálias tecnológico-matemáticas com as viagens no tempo acabam permeando uma relação de amizade bizarra.

Freqüentemente é perguntado o que marcará essa geração. Eu imagino que a resposta só vai ficar mais clara quando estivermos em outra década (e perguntando o que sobrará da nova geração, e por aí vai…). Hoje se desce a lenha no funk, nos blockbusters, etc, etc, mas bom é de se pensar: será que o que hoje é considerado um clássico dos anos 60, 70, 80, já não era visto como decadente? Afinal, desde duzentos anos atrás tem gente anunciando o fim da arte e da ciência, então parece uma mania crônica. Claro, é assustador pensar que os indies ou os emos podem representar o rock dessa época, mas enfim… um “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” ou “Hora de Voltar” tem um charme melancólico que até combina com o som de um Beck ou algo assim e pode ficar mais interessante, porque tem um quê de mostrar personagens meio perdidos com tudo que vai acontecendo a sua volta. E combina bastante com o sentimento de cansaço que se tem com o contexto em volta: a guerra da vez é o Iraque, a novidade é a popularização da internet, o pânico é em torno do aquecimento global.

Mas venha o que venha, eles estarão lá – com o perdão do chavão – diferentes mas iguais. Podem estar mortos no marasmo, cansados e não querendo saber de nada, só de curtir a baladinha no fim de semana. Podem não saber picas de filosofia ou política, ou o escambau, mas assim como os estudantes franceses dos anos 60, fazem dessa idade uma época pra se arriscar e jogar tudo pelos ares. Época em que se perde o medo de arriscar, em que você se acha maior que o mundo, e vai testando do que se é capaz. Por esse lado é que é possível que se conquiste tanto (a começar pelo exemplo clássico, de que o fogo não teria sido descoberto por um adulto, por prudência, ou por uma criança, por medo, e sim por quem está na idade em que é capaz de beber dinamite). É a coisa do espírito sem limites, por mais despropositado ou alienado que seja, é essencialmente o que o caráter rompedor representa. Depende do lado que é encaminhado, para onde esse fogo é direcionado.

Cara, Cadê Meu Carro? (Danny Leiner, 2000)

Pois é, deve ser estranho inaugurar esse especial, com “Cara, Cadê Meu Carro?” representando a década atual, ao invés de algum Gus Van Sant ou “Amelie Poulain”, ou qualquer coisa do gênero. É, prato cheio pros saudosistas de plantão. Embora talvez desse pra fazer de alguma coisa mais legal, um “Primer” ou “Shaun of the Dead”… Nah, vão eles mesmo.

Dizer que as piadas não precisam ser elaboradas pra ser boas pode até ter um pingo de verdade, mas esse lance do desligar o cérebro e curtir é uma apologia à mediocridade. Não é propriamente isso, mas ver que a linha que separa esse filme de sei lá, uma obra-prima feito “O Grande Lebowski”, é bem pequena. A semelhança não para no “Dude, where’s your car”, que os personagens dos dois filmes dizem. São dois filmes que não medem esforços nem limites para chegar no conceito que querem. O filme de Lebowski leva a conhecer um outro mundo, daqueles caras desajustados que jogam boliche, e que uma confusão meio sem sentido com o nome de um bambambam acaba trazendo eles para outra aventura sem muito nexo.

Às vezes você trombar coisas toscas e absurdas, como um culto de pessoas vestidas com plástico bolha, ou ver as desventuras dos dois protagonistas no meio das namoradas ou de super hot giant sexy aliens pode ser engraçado. No melhor estilo Jackass de ser, quanto mais sem noção, melhor. O cúmulo da falta de noção para o mundo de Chester e Jesse, dois jovens que não tão nem aí pra o que dizem deles ou se o valentão quer bater neles. Cada um tem a sua garota (uma gêmea da outra), conseguem se virar e se divertem até assistindo Animal Planet na ressaca.

Não desejam muito mais. Não são lá dois perdidões, mas não têm muita ambição de nada. São até normais, mesmo no jeito imbecil de ser. São simpáticos o suficiente pra você não sentir pena deles, e estúpidos o suficiente para se rir da cara deles.

Os protagonistas Jesse e Chester são o lado supostamente mais de baixo, dois maconheiros sem muito o que aspirar além de querer curtir, e que realmente não passam por nenhuma dificuldade. A viagem deles vai longe, e o próprio filme acaba emulando isso, uma trama absurda que mistura suas mazelas de jovens, com uma ficção científica wtf, e um toque mais de mudernice tecnológica que vem junta; o que aí acabe se confundindo com a própria trip dos dois. Talvez não mude muito para a velocidade sem limites de Dean ou as festinhas sem limites que passam por “Carrie”, “Halloween”, “Porky’s”, etc.

Eis que o carro de Jesse some, e a epopéica busca por ele, a história em si, acaba não importando muito. Assim como as antigas screwballs, o que importa é o máximo que os atores, a equipe, o público, e o mundo consegue agüentar entre tantas situações absurdas, risíveis. O filme simplesmente não te dá trégua. Vão de uma manhã agitada assistindo os chimpanzés na TV, para a casa de um maluco, com um cachorro e seu pipe inseparável, para o travecão a quem eles devem uma grana, e a máquina esquizofrênica do drive through do restaurante chinês… são surpreendentes oitenta e três minutos que vão do céu ao inferno. O máximo de provações malucas em que Jesse e Chester estão dispostos a se meter para livrarem-se desse fogo cruzado da guerra interplanetária e voltarem pra casa com o carro pra finalmente poderem curtir em paz o aniversário de suas gêmeas.

Pedro Kerr

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