
Em Psicose, Alfred Hitchcock mata a protagonista com pouco mais de 40 minutos de filme. Robert Aldrich, com seu A Morte Num Beijo, faz a ousadia futura do mestre do suspense parecer brincadeira de criança: durante uma seqüência inicial absurda, surpreendente, na qual a personagem principal desta obra-prima absolutamente singular (vocês entenderão que isso não é brincadeira) do film noir corre pela madrugada em uma rodovia, só de roupão, aos berros, e se mete em frente a um carro, ela conhece um detetive particular que aceita lhe dar uma carona à parada de ônibus mais próxima. Qual não é a surpresa quando a trajetória de ambos é interrompida por um carro que surge do nada e tranca a passagem, do qual posteriormente saltam homens que, além de estrangulá-la, jogam a moça, o carro e o homem morro abaixo em um barranco.
Tudo isso acontece com apenas dez minutos de filme, pouco depois de outro elemento inusitado surgir na tela: os créditos de abertura, erráticos, surtados, vindo debaixo para cima e com o sentido ao contrário (o espectador precisa mesmo ler debaixo pra cima). O que sucede este início fora do comum não deixa a desejar em sequer um momento, tanto qualitativamente quanto na competência de surpreender das formas mais exclusivas possíveis – algo que remete, inclusive, a outro filme noir deste mesmo ano, o excepcional O Mensageiro do Diabo, responsável pela atuação mais assustadora de Robert Mitchium, um dos caras mais assustadores do cinema.
Apesar de ser um exemplo maravilhoso, impecável, de cartilha do cinema noir, seus principais elementos e toda a construção atmosférica e narrativa em detrimento ao enredo (porque noir é clima, acima de tudo), necessárias para o bom funcionamento de um filme de estilo, A Morte Num Beijo pode ser considerado uma das principais influencias do cinema de suspense neo-surrealista, mais precisamente da obra de David Lynch e seus filhos mais surtados, A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e, em menor escala, em virtude de sua explosão onírica irremediável, Império dos Sonhos – embora tecnicamente remeta ao passado, ao expressionismo, abusando dos contrastes entre luzes e sombras, ambientes fechados e apertados, ângulos assimétricos, esquizofrênicos e com constantes inclinações.
Depois da decorrência de uma hora de filme, na qual toda a trama é fermentada, mas sem qualquer resquício de respostas para o questionamento que move as intenções de todo o quadro de personagens, em especial do protagonista, A Morte Num Beijo passa a apresentar uma renovação inexplicável de sua esfera focal, introduzindo elementos inéditos que dão fôlego não apenas renovado, como inimaginável à trama. Tudo isso seria mais do que o normal para um filme de suspense se manter em maiores níveis de tensão, mas os últimos 15 minutos, que representam um surto absoluto utilizado por Aldrich para chutar a linha e a agulha para o espaço, desamarram qualquer explicação plausível para os fatos e deixam esta jornada com uma sensação gostosamente inexplicável.
A Morte Num Beijo é uma obra-prima absoluta de proporções desmedidas.
4/4
Daniel Dalpizzolo
4 Responses to A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)