


As primeiras imagens de RoboCop, de Paul Verhoeven, sugerem que nossa visão foi vencida. Tudo é visto pelo filtro da imagem televisiva – gasta, logo irônica, porque estamos num futuro em que um certo tipo de imagem (a publicitária), pelo contrário, ganhou – que nos dá conta de tudo o que precisamos saber sobre o mundo a ser construído (ou melhor a ser vivido visceral e grosseiramente) pelo filme.
O segmento desta imagem é o que realmente choca. Se somos deixamos aos cuidados das notícias para explicar um mundo e ao olhar clássico destruído pelas imagens destas notícias, o incômodo maior é saber que nosso herói, Robocop, possui um mesmo mecanismo de olhar este mundo-ao-redor – seus olhos funcionam como uma TV de notícias sobre tudo aquilo que se move à sua frente.
Na verdade, a falha é que este projeto, do robô que combate o crime, é um crime em si: não consegue destruir totalmente a resistência das velhas lembranças tormentosas (que são sentidas pelo protagonista, apenas) através de tudo o que é grosseiro no cinema de Verhoeven e na sua crença em mostrar todo tipo de saliências e sangue para confirmá-lo com precisão. Trata-se aí de um grande filme sobre um futuro perdido em nossa própria inteligência sacana.
3,5/4
6 Responses to RoboCop (Paul Verhoeven, 1987)