


Em O Preço de um Homem, Mann mantém o tempo inteiro um espaço físico de tensão entre os personagens, como um tabuleiro onde os sonhos de cada um fossem apostados sem volta – jogo em que cada rodada é uma linha de diálogo, cada diálogo a janela pra um sentimento e cada sentimento mais uma peça derrubada numa desconstrução de personalidades conduzida com a habilidade sobrenatural de um legítimo cineasta clássico do período de ouro americano ao qual a pirralhada francesa deve até os últimos fios de cabelo.
Daí que O Preço de um Homem é o mais noir de todos os westerns de Anthony Mann, onde a dinâmica entre as figuras em cena ocorre pelo que está debaixo de cada frase e principalmente debaixo do passado de cada um. E o interessante é que, mesmo apesar de a femme fatale aqui ser o único personagem inocente do filme (o que contraria um pouco a natureza do arquétipo), a sua função é exatamente a mesma de sempre: transtornar. E é diabólico que ela ofereça ao Howie (Stewart), mesmo sem perceber, a visão precisa de como o mundo seria se a maldade não existisse. A cena do delírio é chave nesse sentido, momento a partir de quando a esperança em reconquistar o que perdeu é uma espécie de ‘all in’ de Howie num jogo onde ele leva franca desvantagem em relação a Ben (Robert Ryan chutando todas as bundas).
Aliás Mann permite que Ben brinque de manipular também o espectador ao protelar a revelação de seu verdadeiro caráter até o último segundo possível, e é muito bom entrar no jogo também. Ryan constrói um vilão apaixonante – na maior parte do tempo apenas um anti-herói mal-compreendido cujas ações, por mais dissimuladas, pretendem simplesmente salvar o próprio pescoço. É lindo observar enquanto ele controla todos a seu redor mesmo sendo o refém do grupo.
E se a ganância é recorrente no cinema do Mann (já fica difícil imaginar qualquer bom western – sendo dele ou não – sem seu objeto de cobiça e seu protagonista de passado sombrio), e se em Winchester ’73 já se materializava na forma do tal rifle perfeito, em O Preço de um Homem ela é encarnada pelo personagem de Ryan. Como antagonista, Ben acaba sendo o único personagem cujas razões na sua jornada são moralmente legítimas. Howie, Roy e Jesse só querem mesmo é o ‘saco de dinheiro’ (como Roy se refere a Ben em certo momento), por mais que o passado de Howie lhe absolva. O único com interesse alheio a grana (por ser ele mesmo um quase mcguffin, afinal) é o cara que termina matando a quase todos no filme, como acontece aliás com o rifle em Winchester, com a maleta em No Country e com o ouro em Sierra Madre – pra ficar nos exemplos mais notórios.
Além de um western mutante complementado com uma injeção de elementos do film noir, de um jogo maligno de influências impossível de se vencer e de apresentar um vilão que é a mais pura e literal personificação do poder e do desejo que a cobiça por algo exercem sobre o homem; The Naked Spur é – como não poderia deixar de ser – fábula de que é preciso esquecer a piranha vagabunda e marchar sobre o que passou como quem marcha sobre uma planície devastada do Kansas ao lado de Janet Leigh e em direção à brilhante Califórnia.
4/4
17 Responses to O Preço de um Homem (The Naked Spur – Anthony Mann, 1953)