


Mesmo depois de deixarmos aquela idade pentelha do “por quê”, não conseguimos deixar de questionar atitudes que pareçam absurdas ou, meramente, fora do comum. Penso que o esporte que mais recebe “porquês” é justamente o montanhismo. Porra, pra que subir a montanha se depois tu vai ter que descer? Pra que subir a montanha se não tem nada lá em cima além de rocha, gelo e neve? Ouvi dizer que em um outro documentário sobre montanhismo, Herzog procura essa resposta entre alguns montanhistas experientes. Mas neste Dark Glow of the Mountains, Herzog faz a pergunta diretamente àquele que é considerado o maior montanhista da história do esporte: Reinhold Messner é um italianão gigante e barbudo, detentor dos maiores feitos já registrados em alta montanha. Não vou ficar apontando aqui tudo o que ele fez, porque ele fez coisa pra caramba e etc. Apenas peço que aceitem minha afirmação de que o homem é um deus no mundo do montanhismo.
Na ocasião deste documentário, Herzog acompanhou Messner e seu companheiro Hans Kammerlander até o acampamento-base das montanhas Gasherbrum 1 e 2 (respectivamente a 11ª e a 13ª maiores montanhas do mundo). A idéia dos dois montanhistas era subir ambas as montanhas em sequência, sem regressar ao acampamento entre uma escalada e outra. Herzog, como documentarista discreto que só ele é, acompanha tudo de perto, mete o bedelho onde não é chamado e cutuca feridas dos aventureiros. Entre planos belíssimos dos grandes paredões e glaciares e cumes e avalanches que essas montanhas possuem, Herzog captura momentos impressionantes que evidenciam o comportamento de Messner em alta montanha. Eu já havia assistido a algumas entrevistas com Reinhold Messner (normalmente sobre sua aversão à utilização de oxigênio suplementar na montanha e sobre suas escaladas solo ao Everest) e assimilei facilmente a imagem do montanhista “forte e sem medo de nada”. Imagem que Messner nem precisa se esforçar para passar, uma vez que sua própria postura e fisionomia já denotam tal imagem. Mas aqui, Herzog, com pouco mais de quatro perguntas consegue derrubar o gigante, levando-o às lágrimas com a lembrança da morte do irmão, na montanha Nanga Parbat, no Paquistão. Numa cena imediatamente após esta, Messner está recomposto, sério, falando sobre o planejamento da escalada: “devemos voltar em sete dias. Se não voltarmos em dez, juntem as coisas e vão embora, porque ninguém mais conseguirá nos encontrar”.
Além disso, o que Herzog faz de mais fascinante é abrir espaço para que o espectador questione a ele. Na cabeça de Herzog, tão absurda quanto a idéia de subir uma montanha é a idéia de acompanhar os dois malucos que vão subir apenas para filmá-los. A resposta do “porquê” que Herzog busca, no final das contas, servirá para ele também. E o que ele consegue arrancar de Messner é a idéia de que sua fascinação pelas montanhas é derivada, sim, de uma espécie de loucura. Uma loucura análoga àquela dos artistas, por exemplo. Suas ações justificam-se em seu próprio ser e, justamente por isso, é improvável que pessoas que não pertençam a seu grupo de convívio e atividade consigam compreendê-las, uma vez que estas ações não são passíveis de racionalização.
Aí está a grande resposta de Herzog, no final das contas. Se Messner escala a montanha porque é um louco, Herzog o filma escalando a montanha porque é louco também.
4/4
One Response to The Dark Glow of the Mountains (Werner Herzog, 1985)