Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused – Richard Linklater, 1993)

É incrível como existem filmes que estão bem ali, do teu lado, já passaram por ti milhares de vezes, e tu nunca tinha os enxergado com os olhos certos, mas na verdade isso é pq tu nunca sentiu eles do jeito que poderia. Quase como uma guria que tu trabalha ou estuda junto, sempre te dando a maior bola, e tu esnobando, até que um dia ela arranja outro cara, tu começa a notar as coxas dela, a bunda, os peitos, o quanto essa guria era legal e pensa “porra, onde eu tava com a cabeça que não reparei antes?” e vira o amor da tua vida. Sorte que filmes não te trocam por outros caras, mas todo o resto aconteceu exatamente comigo. Eu sempre adorei Dazed and Confused, nunca dei menos que nota 10 pra ele, não encontrei nada de muito novo nessa revisão, os méritos continuam praticamente os mesmos, os motivos que fazem eu gostar também, etc, mas… PORRA! Agora foi devastador, uma nostalgia impressionante. Fiquei pensando aqui, os motivos que podem ter feito ele subir de forma tão radícal no meu conceito dessa vez, e acho que dois foram essências: um é o emocional, óbvio que eu tava muito mais receptivo, muito mais no clima, com uma sensibilidade pra esse tipo de mensagem bem mais aguçada e etc, e outro, principalmente, é o perseptivo mesmo, antes eu via ele basicamente como um espelho da melhor época, um retrato em movimento daqueles momentos fodões que hoje só existem na lembrança, e quanto mais tempo passa, quanto tu puxa na memória, vem sempre acompanhado com um sorriso bobão. E ele continua sendo isso, só que hoje eu vi esse conceito ser aplicado de uma forma bem mais ampla, bem mais generalizadora, não se limitando a ser uma super memória não sua mas muito parecida, mas sim um resgate completo dela com um ligamento do que você é hoje e do que será amanhã. É lindo isso aqui.

O filme não é pra quem vive essa época, o filme é pra quem viveu essa época (e quando falo época, não me refiro aos anos 70, mas sim esse período colegial independente da década que tenha sido). O filme é pra ser acompanhado sempre com o pensamento invejoso de que você já fez isso tudo, sabe como é bom, mas que nunca mais vai voltar. Não tem como dar muitas voltas nisso aqui, ele é o que mostra ser, essêncialmente, ele é a garotada fugindo de uma surra, e tratando isso como um envento mais aterrorizador que a segunda guerra mundial, que te consome por completo.. ele é a gurizada saindo por aí, sem objetivo algum, apenas pq o tempo naquele momento não faz falta, ele nem passa, na verdade… ele é a insegurança de chegar numa guria pela primeira vez, ele é a satisfação de quando se anda com uma turma que tu sempre idolatrou “putz, esses caras são legais, eu sempre quis ser como eles”, ele é a sensação de ficar podre de bebado com 3 latinhas de cerva pela primeira vez, e se sentir o rei do universo por isso, ele é a sensação de imponencia, se superioridade, o prazer de intimidar os mais novos e mais fracos apenas pq são mais novos e mais fracos, e você pode fazer isso,ele é fazer qualquer merda na rua em qualquer lugar que tenha, só por fazer mesmo, ele é FESTA o tempo todo, e sempre á caça de gurias e álcool nela!… mas acima de tudo ele é tudo isso sendo visto por quem já passou, por quem sabe que acabou, por quem vê aquela gurizada aproveitando sem ter ainda a noção do que estão vivendo, sem saber o quanto essa fase é mágica – e talvez a única fase mágica da vida – e, inevitavelmente, se questionando se você passou direito por ela. Será que não poderia ter aproveitado mais, se divertido bem mais? Mas aí não vale, se alguém passar por ela com a real dimenssão do que ela representa, seria sem graça. Ela tem que ser vivida por idiotas como nós erámos e como todos ali são, não tem que ser pensada, só sentida, e o filme fode totalmente no bom sentido com isso. E é incrível como o final representa muito bem o final disso, eles no campo do ginásio, deitados no gramado, fumando uma baseado, e ali, quando se dão conta que acabou, tudo vai ficando… sei lá, precioso, e a única coisa que vale na vida é aquele momento e os momentos em que eles se divertiram pra caralho juntos. E porra, aqueles são momentos teus também, pq assim como acabou pra eles acabou pra você também. Até que o dia amanhace, e o tempo realmente passou. Foda. Eu diria até que se tornou meu filme preferido hoje, mas sei lá, vou esperar um pouco.

4/4

Thiago Duarte

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