Solaris (Solyaris – Andrei Tarkovsky, 1972)

“Só me interessa a verdade. Não posso guiar-me por impulsos da alma. Não sou poeta.”

Mais uma tour de force de quase 3 horas. E quando se fala de Tarkovski é a duração sentida na pele mesmo, cada minuto é de fato um minuto. E aqui o Tarkovski-way me deixou um pouco de saco cheio… Toda a primeira parte do filme, apesar de decorada com imagens saídas de sonho, diálogos fantásticos e exposição de plot que atiça a curiosidade do verdadeiro cinéfilo, é complicada de acompanhar, já que o Tark não está nem aí para a paciência do expectador e dá-lhe sequências inteiras de 5 minutos em que nada acontece, exceto o sono pesado por parte de quem se aventura a assistir.

Mesmo assim, nesta primeira parte Tark acaba sendo bem sucedido ao aprontar o mote do que virá. Chris Klein, o psiquiatra pragmático e cético terá a oportunidade de fazer o que qualquer ateu fundamentalista sonha mas não consegue levar a cabo: pôr fim à crença naquilo que transcende a compreensão (limitada) humana. Mal sabe ele que seu juízo será colocado à prova quando ele chegar na estação na órbita do planeta título e se deparar com sua própria consciência, intensificando sua crise existencial já profunda quando o filme tem início.

Solaris, da mesma forma como Stalker, discursa em favor da crença, da fé. O incrédulo (aqui protagonista) sofrerá o diabo a menos que reconheça a sua pequenez e assuma que a sua incredulidade responde dúvidas até a primeira esquina. Dali em diante, ou ele crê ou ele pira.

Tecnicamente falando o filme é aquele desbunde que se espera do Tarkovski e que ele entrega com a eficiência de sempre. O filme cresce assustadoramente quando Kelvin finalmente chega na Estação Solaris e o que se segue é quase um filme de terror com vultos passando, silêncio inquietante, um clima realmente assustador. Mas não pára aí. Os personagens da Estação representam as concepções de mundo de uma humanidade em crise. Uma crise da verdade, onde o relativismo dita as regras; uma crise do pragmatismo, onde a busca pelo conhecimento em todos os seus níveis é sacrificado pela demanda de um resultado concreto, palpável, crível. E, por fim, uma crise onde o homem se mostra totalmente incapaz de lidar com todas as camadas do universo que o cerca e que o forma.

Li em algum lugar que Solaris era um “ensaio” para o que viria a se tornar Stalker. Depois de vê-lo, concordo plenamente, para o bem e para o mal. Solaris vai pegando pelas bordas, como um gourmet que começa a apreciar sua refeição pelas beiradas; Stalker vai no ponto nevrálgico da questão. E esse “ensaio” poderia muito bem explicar a falta de ritmo da primeira parte do filme… Ou talvez tenha sido o meu sono mesmo que interrompeu o processo de total imersão no filme… Quem sabe o filme não cresce na revisada?

3/4

Daniel Costa

5 Comments

Filed under Resenhas

5 Responses to Solaris (Solyaris – Andrei Tarkovsky, 1972)

  1. Acho Solaris um grande filme, mas não aqueeela obra-prima que muitos falam.

    Devo dizer que gostei igualmente do remake com o George Clooney. Será q sou louco ou ficou melhor q o original?

  2. Daniel

    Shaun, tb gostei MUITO do remake do Soderbergh… Não sei se foi pq foi o primeiro contato com esse universo “solarístico” (hehehe) ou se é pq o filme é bom mesmo. De qq forma, vi só uma vez, no cinema.

  3. Thiago M. Cezimbra

    Gosto do Solaris do Soderbergh, mas ele não chega aos pés do original russo, na minha humilde opinião. Foi o filme feito como “resposta” russa ao 2001…e assim como 2001 é um filme feito para amar ou odiar…dificilmente se fica em meio termo disso…e eu adoro o filme.

  4. Ficções lentas e cerebrais como essa são um desafio. Sorderbergh fez jus ao original, mas penso que não oi muito bem compreendido.

  5. Amanda

    Meu professor de filosofia nos mandou assistir o filme para complementar a matéria:Existêncialimo.
    Mas eu não entendi nada do filme.E não achei ele nem um pouquinho bom.