Herói (Zhang Yimou, 2002)

Um balé pros sentidos, cirurgicamente coreografado e apaixonadamente filmado. Olímpico, solene e deslumbrante. A própria estrutura e o modo como Herói flui sugerem a execução de um ritual, uma celebração dos sentimentos mais primitivos e tão saturados com os quais o homem vem tendo contato desde sempre. Uma encenação pura das emoções. A paixão, o amor, a compreensão, a vaidade e a paz. E é acima de tudo um canto de socorro.

Porque Herói pede um abraço, pede que esqueçamos de onde viemos ou quem somos para mergulharmos de olhos, ouvidos e coração abertos neste sonho filmado de Zhang Yimou, um universo ancestral onde os valores mais simples do mundo podem enfim voltar a ter sentido, onde uma declaração de amor é livre para ser dita sem este filtro aborrecido que nos faz enxergar pieguice em tudo.

Por isso mesmo, é mais que natural que Yimou entoe seu hino de paz de uma conexão direta com a imaginação e a fantasia, onde preocupar-se com detalhes tão elementares como leis da física diante da eloqüência visual e sonora dos sentimentos sendo materializados na tela é simplesmente burrice. Onde abdicar de si por algo maior soa tão ridículo e faz tão parte de um sonho quanto chineses voando por aí.

Herói exige entrega suicida, exige que você abra os braços e se lance em queda livre por um mundo impossível que, se chegou realmente a existir, foi por um momento, nos lábios de alguém que disse “eu morreria por você” de um jeito assim cheio de verdade.

4/4

Luis Henrique Boaventura

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