O Horrível Segredo do Dr. Hichcock (Riccardo Freda, 1962)

Tá ficando cada vez mais difícil assistir essas coisas. Esse foi num vhs rip muito podrão (com direito aos comandos do videocassete aparecendo na tela), sem diversos pedacinhos porque o download travou faltando 80 mb e com áudio italiano sem legendas porque eu digitava Hitchcock ao invés de Hichcock na porra do opensubtitles porque eu sou muito burro mesmo. Mas enfim, deve fazer tipo parte da aventura ou sei lá.

Primeiríssimo Riccardo Freda. Começo dizendo que essa coisa de beber da fonte dos velhos contos com atmosferas medievais e tramas cheias de peculiaridades doentis que os caras buscaram no princípio do gênero não me deixa tão entusiasmado quanto as outras vértices do horror italiano, mas o Freda sabe bem chamar a atenção pra si em algumas composições belíssimas em conluio com a direção de arte e uma iluminação sobrenatural de velas e lâmpadas douradas.

Em quase todas as cenas internas nota-se um contraste cuidadosamente preparado entre o preto e o amarelo (isso porque acredito que o cara que ripou não derramou café na fita) e a presença fremente dos candelabros como instrumentos que dão vida própria às sombras do cenário. Isso tudo pra dizer que quando uma atmosfera que vem pronta (casarão isolado do século 19, à noite, com um temporal desabando do lado de fora e uma presença maligna espreitando pelas frestas) é bem trabalhada, a experiência de se assistir a um filme torna-se mística pela rara habilidade de alguns desses caras pra te tragar cena adentro.

Principalmente porque é estranho, num primeiro momento, acompanhar 90 minutos de um filme sustentados sem as habituais mortes gráficas entrecortando a trama como ganchos pra crescentes de tensão e belíssimos assassinatos, e é quando o talento pra sugestionar perigo e criar aquela iminência de coisas que nunca chegam realmente a acontecer precisa ser provado. L’Orribile Segreto del dott. Hichcock é inteiro um filme do horror mais pela sutileza elegante de um bom suspense que pelos picos sensoriais do próprio horror. Isso apesar da sua natureza inconfundível que não o define, mas o mantém num limite sempre estável entre os dois gêneros.

Aliado a esta ambigüidade um clima sempre onírico e alucinado, uma obsessão necrófila maravilhosa, um visual com cores incendiadas, umas inserções broxantes de cenas num hospital e um final incrivelmente babaca, dá pra dizer que Dr. Hichcock é um ótimo filme e que a expectativa pelos próximos Fredas é grande. O que falta aqui é o amadurecimento natural do próprio gênero, nada que o tempo, uma lâmina e muito sangue falso não resolvam.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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