Sharon Tate (Especial James Dean)

UMA NOVA TRAGEDIA EM HOLLYWOOD

A atriz Sharon Tate, uma das estrelas de “O Vale das Bonecas”, foi encontrada morta ontem com um ferimento de bala e uma corda de nylon no pescoço, em uma cena que fazia lembrar um rito religioso sobrenatural. Quatro pessoas – três homens e uma mulher – estavam mortas no mesmo local, com ferimentos de bala ou faca. Todos os cadaveres foram encontrados na casa de Sharon, no elegante bairro de Beverly Glen.
Sharon, uma bela loira de 27 anos casada com o diretor Roman Polanski, de “O Bebê de Rosemary”, vestia apenas um biquini e foi encontrada com a corda de nylon no pescoço. A corda tinha sido lançada por sobre uma viga e a outra ponta estava amarrada ao pescoço de um rapaz, tambem morto.
Fora da casa, foram encontrados os corpos de outra mulher e de um homem, jogados sobre a grama do jardim. Um outro cadaver masculino foi encontrado dentro de um carro estacionado diante da residencia. A policia foi chamada às 9h15 da manhã por uma empregada que tinha ido fazer a limpeza da casa. Quando os detetives chegaram, depararam com os cadaveres ensanguentados.


(Reprodução: Folha de São Paulo – domingo, 10 de agosto de 1969)

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1943 - 1969

A morte da atriz e sex simbol Sharon Tate apresenta algumas características bastante particulares, quando não bizarras. Ao contrário de outras grandes figuras públicas assassinadas no século passado, como John Kennedy e John Lennon, Tate não morreu por ser Tate, por ser famosa. O responsável pela brutal chacina na residência de Roman Polanski, Charles Manson, talvez nem fizesse idéia de que a casa era habitada por uma celebridade, ou simplesmente não ligava. Tate morreu, de certa forma, desglorificada, sem o prestígio de ser presa de seu próprio sucesso.

Mas quais foram os motivos para tamanha perversidade, que vitimou não somente a atriz, como também aos parceiros com os quais desfrutava uma prazerosa noite entre amigos? Décadas depois, embora tudo esteja superficialmente resolvido, ainda existe a dúvida, ou uma força que nos impede de crer em uma história tão absurda.

Tate foi alvo de um louco, um satanista que acreditava, entre outras coisas, que músicas como Piggies e Helter Skelter, ambas do White Album dos britânicos The Beatles, eram mensagens destinadas exclusivamente a ele, indicando formas de agir e inimigos a bater. E foi pelo desejo de cumprir com suas obrigações que Manson e seu bando, que se auto-intitulava A Família, invadiram a mansão da Cielo Drive, em Hollywood, e promoveram este massacre em forma de ritual que terminou liquidando a vida e a carreira de uma das principais estrelas em ascensão na década de 1960.

A reprodução do fato, em si, foi e permanece sendo chocante até mesmo para os acostumados com Cinema-barbárie. Sharon, que na oportunidade tinha apenas 26 anos e estava grávida de oito meses – do próprio Polanski, até que se prove o contrário – foi baleada e esfaqueada, assim como os demais. Seu corpo foi perfurado 16 vezes e, em seguida, a atriz foi enforcada ao pé de uma escada. Os assassinos confessaram, inclusive, que estiveram prestes a arrancar o bebê da barriga da atriz, por diversão. Com seu sangue e o dos demais, Manson e sua turma escreveram mensagens nas paredes. Em uma delas, a inscrição “Piggies” (Porcos, em inglês) indicava a denominação utilizada por Manson ao se referir aos negros, principal alvo de sua seita. No dia seguinte ao assassinato de Tate, Manson cometeria outro crime, seguindo praticamente a mesma metodologia. O alvo foi um casal de negros, dono de um supermercado daquela mesma região de Los Angeles. Depois de solucionado o caso, ele esclareceu que sua intenção era a de promover o início de uma terceira guerra mundial, a qual chamava de Helter Skelter, nome da música dos Beatles que, segundo ele, conteria o maior número de mensagens subliminares. A guerra em questão não seria entre nações ou religiões, mas entre cores. Negros contra brancos. Ele acreditava que algum negro seria acusado pelos assassinatos, fato que deveria desencadear a tal guerra.

Com o ocorrido, Sharon Tate pouco tempo teve para apresentar ao mundo o charme e a desenvoltura que demonstrara ter em filmes como O Vale das Bonecas e A Dança dos Vampiros. Foram apenas seis trabalhos creditados para o Cinema, além de aparições como figurante em alguns filmes e outros trabalhos para a televisão. Seu primeiro papel de destaque ocorreu em Eye of the Devil, de J. Lee Thompson, no qual contracenou com David Niven e Debora Kerr, mas o sucesso chegou depois de A Dança dos Vampiros. Nas filmagens deste, inclusive, foi que conheceu Roman Polanski, de quem se tornaria noiva.

No mesmo ano de A Dança dos Vampiros, Tate fez outros dois filmes. O mais popular deles foi O Vale das Bonecas, de Mark Robson. O filme, adaptação do best-seller homônimo de Jacqueline Susann’s, rendeu à atriz o estrelato, já que, ao contrário de trabalhos anteriores, era uma das protagonistas. Ela, porém, teria pouco tempo para aproveitá-lo. Faria apenas outros dois filmes, lançados em 1969, ano de sua morte. A perda rendeu a Polanski um grau ainda maior de pessimismo, claramente perceptível nos filmes que faria a seguir, como a sangrenta adaptação de Macbeth, peça de William Shakespeare.

A Dança dos Vampiros (Roman Polanski, 1967)

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Sharon Tate não é a protagonista de A Dança dos Vampiros, mas esta comédia pseudo-expressionista de Roman Polanski permanece até hoje como sendo o principal registro cinematográfico da beleza descomunal da atriz. É um claro exemplo de como, às vezes, independente da qualidade final do material, filmes valem muito mais pelo simples prazer de se ver alguém filmar outro alguém com tamanha devoção.

O filme é um excêntrico ensaio desconstrutivo de gênero, no caso o horror, mas a presença de Tate, fotografada de forma estonteante pelas lentes do fotógrafo Douglas Slocombe, primeiro grande figurão a trabalhar com o recém desperto cineasta, por vezes vence à própria comicidade afiada ou impressionante estética construída por Polanski para desbravar as clássicas aventuras de vampiros para se lançar como grande motivação à apreciação do material.

Independente de Tate, porém, A Dança dos Vampiros é um grande filme. Polanski saia do anonimato, depois de uma série de suspenses psicológicos feitos na Polônia, para se tornar um dos grandes nomes do Cinema norte-americano da segunda metade do século passado. Acabava de fazer de Repulsion, até hoje seu melhor filme, para trabalhar pela primeira vez com um orçamento de maior significância.

O investimento todo foi feito na reconstrução estética da época em que transcorre a história. Se em Repulsion Polanski chegava ao máximo de seu radicalismo, neste aqui o radicalismo justifica-se exatamente pela abrupta mudança estética, partindo mais para um romantismo expressionista e fugindo da pós-modernidade caótica de seus trabalhos anteriores. Conta também, além do orçamento, com as belíssimas paisagens dos Alpes Suíços, primeira grande locação do diretor, garantindo ao filme um tom medieval sempre instigante. E, mesmo que fuja um pouco de suas habituais características, temos o cinismo e o humor negro polanskianos sempre presentes, aqui de forma mais rasgada e propositalmente aloprada do que em filmes como O Inquilino, a grande obra-prima do humor polanskiano, mas garantindo momentos luxuosos como a seqüência que dá vida à tradução tupiniquim.

Daniel Dalpizzolo

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