Sabotagem, ou O Marido era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)

Atenção, este texto contém spoilers!

Em primeiro lugar, vale esclarecer o seguinte: quando foi lançado originalmente no Brasil, essa obra recebeu o título de O Marido era o Culpado. Mais recentemente, quando do lançamento em DVD, o filme foi batizado de Sabotagem, tradução literal do título original, Sabotage. O que temos em Sabotagem é uma estória de gato e rato, em que um policial disfarçado tenta desmascarar um terrorista, envolvido este em um plano para detonar uma bomba em Londres. O terrorista é casado, mas sua esposa não sabe sobre suas atividades ilegais.

Pertencente à primeira fase inglesa da carreira de Hitch, Sabotagem poderia muito bem acabar sendo relegado ao grupo dos filmes menos notáveis do mestre. Temos aqui alguns vislumbres do talento do diretor para a composição de ambientes e para a exposição, quase ao nível da dissecação, dos sentimentos de seus personagens. Entretanto, a estória em si não apresenta nada de particularmente inspirado, e o elenco é possivelmente dos mais fracos com que Hitchcock já trabalhou.

O que coloca Sabotagem no mapa, por assim dizer, se resume a uma seqüência. O cunhado do terrorista, um garoto de não mais que dez anos, recebe a incumbência de entregar um pacote. O espectador sabe se tratar da bomba, e que ela será ativada por um timer. Enquanto caminha pelas ruas de Londres, o garoto vai sofrendo contratempos, enquanto os minutos se passam e vida e morte lentamente se aproximam com o passar dos ponteiros de um relógio. Hitchcock consegue criar um crescendo de tensão que atinge um nível praticamente insuportável, antes de alcançar seu clímax. E esse clímax deixa a platéia com a sensação de que algo realmente saiu errado, de que não era aquilo que deveria ter sido filmado. Trata-se, sem exagero, de uma das melhores cenas da carreira brilhante do diretor.

Mas isso diz respeito à forma. Algo mais a destacar essa cena é o conteúdo. Em praticamente toda a obra de Hitchcock, a vida humana é tratada com indiferença. Pessoas morrem, e isso serve apenas para motivar ações. Apenas em Sabotagem e, em menor grau, em Agente Secreto, Hitch reflete sobre o valor da vida e sobre o impacto da morte. Especialmente em Sabotagem, a perda de uma vida é medida pelo impacto que ela causa sobre os vivos, trazendo a tona desespero, raiva, vergonha, frustração. A morte não é apenas um evento que prenuncia uma nova jornada para os personagens, é um marco que coloca em xeque suas crenças, e altera sua postura com relação à vida e com relação aos demais personagens. Tanto que essa morte acaba sendo determinante para o desfecho de uma trama política muito mais extensa do que a vida do personagem morto poderia influenciar.

O próprio Hitch comentou essa cena, classificando-a como “um erro”, em função da recepção negativa do público. Exímio na arte de conduzir platéias, o diretor, nesse caso, as presenteou com algo que elas não queriam ver, e se arrependeu. Em seus trabalhos seguintes, ele não mais eliminou personagens destinados a ser estimados pelo público. A questão é que, se esse foi um erro, foi talvez o erro mais bem sucedido da história do cinema, pois, por mais que o público possa ter desgostado, não é função da arte oferecer sempre beleza e finais felizes. E o resultado final, em Sabotagem, dessa subversão da regra básica do filme popular é de um valor artístico destacado.

No fim das contas, Sabotagem acaba tornando-se praticamente uma lição de cinema, uma vez que mostra como uma cena, uma opção narrativa, pode transformar algo essencialmente simples em algo diferenciado, merecedor de atenção e de análise. Era Hitch fazendo história, antes mesmo de se tornar o maior.

3/4

Marcelo Dillenburg

2 Comments

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2 Responses to Sabotagem, ou O Marido era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)

  1. QUESTÃO

    Excelente a sua critica. Eu tambem gostei muito desse filme, e o considero um dos melhores da fase inglesa. Nele já se percebe caracteristicas do mestre, como as brincadeiras com a comida, e um certo fascinio por passaros.

  2. É verdade, Questão, em Sabotagem ele já usa alguns de seus “brinquedos” preferidos no futuro. E, além disso, é uma boa variação para o estilo “homem acusado injustamente que luta para provar sua inocência”, que domina a filmografia do Hitch na década de 1930.

    Confesso que, quando desembestei a escrever essa resenha, não tinha idéia de que seria possível extrair tanto do filme. E isso que nem entramos mesmo na questão do Hitch considerar um erro “aquela” cena pq o público ficou frustrado, o que englobaria toda uma discussão mais ampla sobre a relação entre o artista e aquele que “consome” a arte.