
Ao que parece, M. Night Shyamalan veio ao mundo com o cinema já correndo em suas veias. Nascido em Madras, na Índia, e criado na Filadélfia, EUA, chegou a realizar dezenas de filmes caseiros antes de se matricular na Tisch School of the Arts de Nova York. Uma vez formado em Cinema, Shyamalan escreveu e dirigiu dois longas: Praying With Anger (1992), que nunca chegou a ser distribuído comercialmente, e Olhos Abertos (Wide Awake, 1998), cujo mote consiste na dificuldade de um garoto em aceitar a finitude da vida após testemunhar a morte de seu próprio avô. Esse embate entre o mundo interior e o mundo exterior, entre o que se gostaria que fosse e o que, de fato, é, marcará toda a filmografia do diretor e alcançará seu ápice em O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), um sucesso estrondoso de público e o primeiro filme de Shyamalan a ser recebido favoravelmente pela mídia especializada.
Todas as atenções estão voltadas, como no longa anterior, na infância. Cole (Haley Joel Osment) é um garoto criado por uma mãe solteira, Lynn (Toni Colette), que tem diversos problemas de comportamento e de aprendizagem na escola. Ele é o mais novo paciente do psicólogo infantil Malcolm Crowe (Bruce Willis), a quem revela, numa cena que vem a ser o ápice do filme em todos os aspectos, que ele vê pessoas mortas. “I see dead people”, a frase proferida por Cole que se tornou a sensação da temporada cinematográfica norte-americana do final da Década de 90, é a síntese de todos os dramas que afligem o protagonista e, por tabela, o espectador; é o dom que ele não gostaria de ter e que corrói sua alma de tal maneira que o garoto sempre se sente sozinho, por mais rodeado de gente que ele esteja.
Os personagens de O Sexto Sentido são ilhas de dor e desesperança, cada um à sua maneira, e isso aterroriza mais o espectador do que qualquer das aparições fantasmagóricas que periodicamente assolam a tela acompanhadas de oportunistas, porém eficazes, edições de som. Lynn sofre pelo filho e pelo fato de não conseguir protegê-lo quando ele mais precisa; Cole sofre por não saber conviver com sua habilidade e pela maneira intrusiva, ameaçadora mesmo, pela qual os mortos interagem com ele por perceber que o garoto pode vê-los; Malcolm sofre por não mais conseguir se relacionar satisfatoriamente com sua esposa e por não conseguir ajudar de fato seu paciente. Três pessoas cujos laços afetivos não são suficientes para gerar a comunicação que se faz necessária e que precisam de um choque, uma mudança drástica de conceitos e de preconceitos. Cada um deles passará pela dor aguda e maior que, talvez, cure a dor crônica e menor, com conseqüências distintas.
Muito se falou (e também não se falou, a pedido dos produtores) do “twist ending” de O Sexto Sentido, mas a realidade é que esse é o menor dos componentes estruturais de um roteiro absolutamente brilhante. Shyamalan não minimiza os problemas de Cole, muito pelo contrário: afirma que elas, as crianças, podem sofrer tanto quanto os adultos, malgrado seu tamanho diminuto e sua inserção em círculos sociais mais reduzidos, porém não menos complexos, que aqueles nos quais vivem os adultos. Essa transposição da realidade e da irrealidade infantil não teria sido tão bem-sucedida não fosse a atuação extraordinária de Haley Joel Osment, criador de expressões tão poderosas que parecem conter todo o sofrimento do mundo. Mais importante ainda é o fato de que a angústia dos fantasmas e as marcas físicas que eles trazem, resultado das agressões que ocasionaram sua morte, urgem para que Cole, Lynn e Malcom resolvam suas pendências e suas frustrações ainda em vida. Uma vez passando para o outro lado o acerto de contas e a obtenção da paz de espírito se tornam bem mais difíceis, e isso é algo aterrorizante de se especular.
4/4
Amílcar Figueredo
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