A Hora do Lobo (Ingmar Bergman, 1968)

A perspectiva em qualquer situação é essencial para nos advertir em relação a possíveis contrariedades ao mundo racional. Ao adentrar o mundo de uma personagem, também nos comprometemos a vislumbrar suas características intrínsecas (que, obviamente nunca encontram reflexo na unidade lógica somente) e, portanto, a partilhar de sua composição cinérea, jamais composta da alvura de uma alma límpida ou da escuridão de um ser possesso.

E quanto mais desnudamos a alma de um indivíduo qualquer, mais somos influenciados a compor uma realidade intermediária, um misto inconsciente (mesmo que de forma transitória) de idéias que envolvem elementos das personalidades de ambos (nossa e do ser analisado), bem como as experiências conjuntas e formações individuais. As conclusões as quais chegamos, o processo dedutivo de conhecimento do objeto alvo, não podem ser analisados somente sob a ótica de um sujeito. A partir do momento em que nos comprometemos a realizar tal análise, alteramos todos os detalhes automaticamente. Grosseiramente, é como observar um delicado vaso de flores diante de um olhar de uma dama encantada com a formosura das pétalas expostas ou de um inseto em sua eterna luta pela sobrevivência em busca de alimento no mesmo microambiente. As duas coisas são observáveis, mas os pontos de vista são muito distintos. Naturalmente, entretanto, quanto mais ela estuda os insetos que ali vivem, mais sua perspectiva se torna abrangente.

A Hora do Lobo é um daqueles filmes que, ao nos depararmos com a melodia que anuncia o término da projeção e o iniciar dos créditos finais, leva a percepção de que não conhecemos… e não importa o quê, simplesmente não conhecemos. E como é lindo perceber isso através de uma obra prima como a que Bergman nos presenteia.

Contém spoilers:

A princípio, os enigmáticos personagens desfilam mediante palcos distintos. Um é exposto para conferir voz ao outro e compor uma sinistra melodia conjunta, orquestrada sob a égide da fronteira entre o racional e o irracional.
O semblante enfastiado de Alma introduz o prelúdio da perturbadora série de eventos que resultariam no desaparecimento misterioso do marido. As duas realidades se desencontraram no decorrer do tempo. A cronologia posterior será fundamental na aniquilação dessa perspectiva. E algumas simples letras mudam simplesmente tudo: falamos em fusão (subitamente nos vemos inclusive embebidos em seus lençóis obscuros) e não em fissão de pontos de vista.

Desse modo ocorre a delineação da estória. Na encruzilhada dos diversos cenários interpretativos, contemplamos um mundo analisado de um referencial externo a qual permite detectar um universo repleto de seres “desumanizados” e cruéis, representativos de épocas passadas de grande valor para os personagens, ações e eventos simbólicos e febris perante um processo de insanidade latente…bem como outro, paralelo e paradoxal, sob a forma de uma concepção segmentada, imersa na racionalidade questionável do mundo interno ao filme, contemplada pelos olhares e palavras de Alma.

No entanto, considero que A Hora do Lobo atingira seu objetivo de forma espetacular, seja através da reflexão produzida pela protagonista no trecho final (que nada mais é que o clímax da tensão quase insuportável desenvolvida por Bergman em toda projeção), seja pelo desvendar inquieto de uma realidade tórrida relativa às diversas faces da complexa cadeia de eventos abordados em mais uma obra prima deste magnífico diretor. Não há respostas simples para a realidade.

4/4

Sílvio Tavares

ou: Hora do Lobo, A (Ingmar Bergman, 1968) – Luis Henrique Boaventura – 4/4

2 Comments

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2 Responses to A Hora do Lobo (Ingmar Bergman, 1968)

  1. Luis Henrique Boaventura

    Texto fantástico de um dos maiores filmes do mundo. Meus parabéns, Scofa! Tá escrevendo muito.

  2. Obrigado, Foras. Mas ressalto a dificuldade em escrever sobre Bergman. Acho que nada sintetiza suas obras geniais.