Extermínio (Danny Boyle, 2002)

Exterm�nio

Extermínio é um filme perturbador. Não tanto pelas pessoas infectadas que deixam uma Inglaterra completamente deserta, mas sim pelas conseqüências morais que uma cidade totalmente anárquica pode oferecer. E isso é explorado com muita propriedade nesse filme.

Em um futuro recente, na Inglaterra, um grupo de ambientalistas resolve invadir um laboratório que usa animais como cobaias. Mas eles chegam tarde demais, pois os macacos a serem libertados já estão infectados com um vírus letal e incontrolável: a Raiva. Ao abrir a jaula do primeiro símio, uma das ativistas é atacada e contrai o vírus. Em poucos segundos ela se torna um zumbi raivoso, cujo instinto é atacar sem hesitação, infectando suas vítimas, que por sua vez vão atacar mais pessoas. Quem sobrevive aos ataques é transformado neste ser movido a ódio. Já na cena inicial, Danny Boyle mostra a que veio: numa saudosa referência a Laranja Mecânica, vemos símios sendo obrigados a assistir várias cenas envolvendo violência. Essa cena tem um grande impacto do telespectador, imprimindo desde o primeiro frame o clima apocalíptico retratado no filme. Dá para sentir o desespero de se encontrar completamente sozinho em uma grande, barulhenta e populosa metropólis. Totalmente desolador.

Passadas as 4 semanas (ou 28 dias, como diz o título do filme), a doença se torna uma epidemia e toda a Inglaterra é devastada. É nesse cenário que o entregador Jim (Cillian Murphy) acorda depois de um mês de coma. Ao acordar, aos poucos ele percebe que o hospital onde ele estava internado (assim como, mais tarde, toda a cidade) está deserto. Esse fato resulta uma das cenas mais aterrorizantes do filme; por longos sete minutos, Jim vaga solitariamente por uma cidade – fantasma, onde não há nenhum indício de uma viva alma. Essa cena precede outra igualmente impactante; após essa solitária caminhada, Jim chega a uma igreja, e logo vê uma cena também aterrorizante: vários corpos no chão, aparentemente mortos. Mas, ao primeiro sinal de vida, alguns desses corpos se levantam rapidamente, mas alguma coisa neles não inspira confiança. Até que o padre – também infectado – chega para atacar Jim. Nesse momento inicia –se uma perseguição agitada e desenfreada (ajudada pela câmera agil, mas sem ser “videocliptica”, de Danny Boyle).

Nisso, ele acaba se deparando com Selena (Naomie Harris), Frank (Brendan Gleeson) e sua filha Hannah (Megan Burns) e descobrindo a terrível verdade sobre o que aconteceu enquanto dormia. Aprende também que o vírus se transmite através do contato de sangue com feridas ou mucosas (boca, olhos, etc) e uma vez infectado deve-se matar a vítima imediatamente, independente de quem ela seja, pois após 20 segundos ela já está completamente dominada. Juntos eles decidem ir até Manchester, onde o exercíto teria a solução para a epidemia…

A escolha por atores desconhecidos do grande público se mostrou bastante acertada, uma vez que todas as atenções se voltam para o desenvolvimento da história. E esses atores, especialmente Cillian Murphy, agarram essa chance com unhas e dentes, resultando em atuações bastante agradáveis.

Ao retratar a pelegrinação dos personagens até Manchester, Danny Boyle nos mostra cenas inegavelmente tensas ( como, por exemplo, a que se passa no interior de um túnel). Isso se deve, principalmente, a forma como ele optou de retratar os “infectados”: apesar de terem algumas semelhanças com zumbis (o que levou boa parte dos telespectadores pensarem que se tratava de um filme sobre zumbis), eles possuíram uma mobilidade bastante alta, o que acabou tornado os “infectados” ainda mais ameaçadores. Além disso, Danny Boyle preenche esse segundo ato com momentos de puro intimismo e felicidade, como o momento em que eles percorrem um supermercado abandonado ou ainda observam pacientemente alguns cavalos galopando ao longe. Isso promove algumas reflexões entre os personagens do filme sobre as impressões de um mundo onde se vislumbra o possível fim da evolução de uma espécie (especialmente no trecho onde um deles diz que “Você jamais lerá um livro que já não tenha sido escrito ou verá um filme que já não tenha sido rodado”.

Cabe ressaltar também um aspecto bastante relevante na construção dos personagens: o quanto a sensação de isolamento e de total falta de esperança pode fazer com que os sentimentos sejam retraídos. Em outras palavras: “até que ponto devemos podar nossos sentimentos para que consigamos sobreviver num mundo totalmente inóspito?”. Isso é ressaltado pelo comportamento de Selena: ao encontrar Jim, ela em nenhum momento hesita em mostrar que está disposta a fazer qualquer coisa para sobreviver, inclusive matar sem qualquer hesitação o seu companheiro ao detectar a mínima possibilidade dele ter sido infectado (afinal de contas, são poucos segundos entre a infecção e o “estado descontrolado” das vítimas). Nas próprias palavras de Selena: “Não faz sentido ter planos. Ficar vivo é o melhor que se pode aspirar.”. Esse “instinto exarcebado de sobrevivência” é totalmente colocado em contraponto com a personalidade de Frank e Hannah: eles, por terem um ao outro, são muito mais serenos, e, por isso, possuem uma visão diferente e mais otimista para o desfecho dessa infecção. Essas visões antagônicas são muito bem trabalhadas no roteiro.

Um outro aspecto positivo da película é a opção de Danny Boyle por filmar com câmeras digitais: além do fácil transporte e manuseio (o que permitiu que as cenas de Londres e Manchester desertas fossem filmadas com a rapidez necessária), isso permitiu que se criasse uma atmosfera totalmente urbana e realística ao filme, resultando em imagens cruas e com aparência documental.

Mas o melhor estava sendo guardado para a metade final do filme: ao chegarem em Manchester, logo depois de Frank ser infectado e alvejado pelos soldados: o que parecia ser um porto seguro para os sobreviventes ou ainda uma resposta para a infecção se mostra na verdade um local ainda mais perigoso para os protagonistas. Ao mostrar um comandante e seus soldados desesperados, Danny Boyle nos faz pensar em como as conseqüências de uma infecção podem ser ainda mais assustadoras. Mais assustador do que uma epidemia que devasta uma grande metrópole em menos de um mês, é a sensação de uma sociedade anárquica que impera logo após a devastação da sociedade. Sensação essa que pode levar, inclusive, a uma degradação moral latente (claramente percebido nos comandados de Henry West), gerando cidadões que não hesitam em utilizar a força para conseguirem o que querem. Observando a situação do mundo atual, vemos que isso não está muito longe da realidade.

Assim, “Extermínio” não é apenas um filme de suspense/terror (com, aliás, um belo trabalho de maquiagem). É, além disso, um bom estudo de como uma sociedade pode se comportar diante de uma situação de total devastação de uma civilização organizada. Isso, somado ao fato de que, em tempos de AIDS, SARS e outros vírus epidêmicos (inclusive com vários criados em laboratório para fins militares), mostra que a situação mostrada no filme é muito mais real do que se imagina, configurando – se numa triste alegoria da atual sociedade.

3/4

Adney Silva

3 Comments

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3 Responses to Extermínio (Danny Boyle, 2002)

  1. bleu

    Como eu gostaria de amar Danny Boyle, o talentoso diretor de “Cova Rasa” e desse excelente filme de terror, “Extermínio”, conseguiu vencer o Oscar e ao mesmo tempo despedaçar meu exigente coração. O que poderia virar amor se transformou em ódio, asco, nojo, tudo por causa daquela coisa indiana. Nem uma penca de futuras obras-primas limpariam o nome do escocês.

  2. Esse filme me faz lembrar de Eu sou a lenda, o que aliás não assiste nenhum dos dois, mas acho que Eu sou a lenda é refilmagem desse, estou certo?

  3. Lesma Lerda

    pelegrinação????????? ai ai ai