Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968)

“Se esse homem sobreviver, ele virá aqui, pegará suas coisas e vai dizer ‘eu tenho que ir’. Esses têm algo a ver com a morte”

Era Uma Vez no Oeste é uma poesia de 165 minutos em homenagem a todos esses que têm algo a ver com a morte. À violenta época dos xerifes e foras-da-lei, que já entraram imortalizados no imaginário popular pelo cinema. Esses mocinhos e bandidos que fizeram a festa nas salas de cinema durante mais de vinte anos, e que hoje, estão ausentes. O gênero está desgastado e é visto com maus olhos por parte da nova geração. O filme se situa em uma época onde a civilização estava chegando ao violento Velho Oeste. E o arco dramático do filme é centrado em três personagens que estão cada vez mais desolados e deslocados devido à esta mudança.

Esse é um dos temas mais recorrentes na cinematografia mundial, sempre memorável por gerar obras-primas: o efeito destruidor que o tempo faz no ambiente que as pessoas vivem, e a dificuldade em se adaptar a isso. No caso, isto chega até a ser metalingüístico: enquanto no filme Charles Bronson, Jason Robards e Henry Fonda estavam sendo atropelados pelo trem do desenvolvimento e do avanço tecnológico, John Ford, John Wayne e outros mitos do western americano também estavam sendo atropelados pelo trem da indústria cinematográfica, do gênero que estava se desgastando. O ciclo dos grandes filmes americanos de western se encerrou na passada da década de 50 para a década de 60. Não que os filmes tenham se esgotado (até a década de 70 ainda eram produzidos westerns, mas depois disso os títulos são possíveis de se contar nos dedos), mas a produção do gênero estava em declínio. Foi quando Sergio Leone surgiu fazendo filmes estranhíssimos, a visão italiana dos filmes de western. A famosa trilogia dos dólares, composta por Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), produzida na Itália e na Espanha, fez um sucesso imenso nos Estados Unidos no ano de 67 e animou os executivos da Paramount para fazer com que esse diretor arquivasse o projeto no qual estava desenvolvendo (que era Era Uma Vez na América, filme lançado em 1984) para gravar mais um western, com um orçamento altíssimo. Não sei o que deve ter sido a cara dos executivos quando eles viram o filme pronto. O italiano apareceu com um épico de quase três horas de duração, muito lento até para os padrões da época, que esperavam mais ação e um filme rápido como Três Homens em Conflito (que, ironicamente, é considerado lento hoje em dia).

Era Uma Vez no Oeste é um dos filmes mais tristes de todos os tempos. Leone filmou uma ópera, uma poesia sobre o fim da época do western, no tempo em que os filmes de cowboys estavam escasseando. O filme é centrado em cinco personagens: Harmonica (Charles Bronson), Cheyenne (Jason Robards), Jill (Claudia Cardinale), Frank (Henry Fonda) e Morton (Gabriele Ferzetti). Morton, um aleijado, é o responsável pela ferrovia e os trens, um homem de negócios. Frank é o pistoleiro que trabalha para Morton indo acertar contas (leia-se “matar”) pelos eventuais tropeços aos tratos impostos pelo homem de negócios. Bronson é um homem misterioso de raízes indígenas, que anda sempre tocando uma gaita. Quando Frank questiona seu nome, ele responde nomes “de pessoas que estavam vivas até te encontrar, Frank”. Jill é uma mulher de New Orleans que se casou com um irlandês e ia morar no campo. O irlandês é Brett McBain, e estava desenvolvendo terras no meio do nada, que pela localização geográfica, futuramente seriam uma estação de trem. A estação não estava pronta no tempo prometido para Morton, então Frank tornou Jill uma viúva (o massacre da família, do marido e das crianças e a revelação dos olhos azuis de Fonda no assassino é uma das cenas mais terríveis já vistas em um filme). E Cheyenne é um notório bandido que acaba envolvido nessa história por conta de evidências falsas criadas por Frank. Toda essa história poderia se tornar um ótimo western, porém “banal”, por assim dizer. Sem nenhum demérito, Três Homens em Conflito é um western “banal”. Mas Leone fez diferente aqui. O longa é lento, lírico. Filmado na Espanha e nos Estados Unidos, o diretor capta paisagens como ninguém. O tom lento da narrativa dá uma característica de despedida, de adeus, muito grande quando unido à belíssima trilha de Ennio Morricone, obrigatória em qualquer lista de “10 melhores trilhas de todos os tempos”. As interpretações dos atores estão irretocáveis, todos exibem expressões dos personagens com as nuances do estranhamento que todos percebem que está ocorrendo algo diferente com o mundo nesse período de transição. Só vendo o filme para perceber todo esse clima de despedida. Leone capta os sentimentos como ninguém e fazia isso de maneira inusitada: solicitava a seu escudeiro, o compositor Ennio Morricone, que de preferência, terminasse a trilha antes do filme ser filmado. Para falar a verdade, Era Uma Vez no Oeste circula entre 3 e 5 melodias diferentes, cada uma relacionada a um personagem. E o diretor captava as expressões dos atores com a música pronta. Tanto isso que uma das marcas de Leone são os mega closes no rosto dos atores, facilmente reconhecíveis e de apelo imenso. O resultado é maravilhoso.

A semente da discórdia: quem vai mexer com a vida de todos esses personagens? O trem. Que por sinal, não deixa de ser simbólico. Grande avanço tecnológico da Revolução Industrial, foi um dos responsáveis por trazer a civilização para o Velho Oeste. Civilização da qual o Leste dos Estados Unidos já tinha em parte. Disse Leone: todos os personagens, exceto Claudia, têm consciência de que não chegarão vivos no fim. Sintomaticamente, ela viajou ao Oeste, mas não era de lá, veio da civilização do Leste. Civilização esta que invadiu o cinema e acabou por enterrar a era de homens como Frank, Cheyenne e Harmonica. O ritmo do filme é terrível, doloroso, uma dança da morte, como diz o diretor. Como já foi levantado, os atores captam o espírito da época de mudanças em que o filme se passa. A trilha e o ritmo lento selam todo o espírito de despedida, de adeus do filme.

É um filme muito nostálgico. O grande confronto não parece ser apenas entre a nova civilização e os (anti)heróis do Velho Oeste, mas entre os últimos, se auto-destruindo. Morton, o representante da chegada da civilização, raramente põe a mão em um revólver. Ele contrata Frank, de natureza diametralmente oposta a dele, responsável por milhares de duelos, roubos e mortes entre foras-da-lei e cowboys. Frank se questiona em alguns momentos se poderia ser um homem de negócios como Morton. Às próprias custas, descobre que, apesar de matar crianças sem piscar um olho, não tem o sangue frio necessário. O roteiro de Leone e Sergio Donati (baseado em idéias dos diretores Bernardo Bertolucci e Dario Argento) levanta essas questões, costurando uma sub-trama de vingança pessoal com talento, reforçando ainda mais a idéia de que pessoas como Frank se auto-destroem. É uma visão nostálgica e paradoxalmente pessimista: o filme tem cheiro de morte e você sai correndo caçando os últimos suspiros desse cheiro. Digo mais uma vez: nada disso seria possível se a narrativa de Era Uma Vez no Oeste não fosse a narrativa de Era Uma Vez no Oeste; um ritmo lento que você deve aproveitar cada segundo por completo, o novo mundo se aproximando, o trem atropelando, o espectador correndo atrás do cheiro de morte e a sensação de estar aproveitando os últimos momentos da vida daqueles homens violentos. Os últimos momentos de uma terra sem lei. Os últimos momentos de uma era de filmes antológicos. A sensação de despedida daquele mundo perigoso e de índole questionável, mas que marcou a todos, seja no cinema ou na realidade. É quase o fim de uma vida.

Não obstante, a escolha dos atores não foi por acaso. Favorecido por estar na época do fim do western, os atores já demonstram experiência e vivem personagens visivelmente calejados (Henry Fonda tinha 63 anos, por exemplo). E o mais importante: na categorização mais clássica, Charles Bronson é o mocinho e Henry Fonda é o bandido. Isso é relevante por dois motivos: o primeiro de brincar com a percepção do público com Henry Fonda; ao que consta, esse é o primeiro e último vilão interpretado pelo ator no cinema. E, ele está chutando bundas no papel! Nem parece o mesmo ator do mocinho 12 Homens e Uma Sentença, tamanho o poder da(s) interpretação(ões). Deve ter sido engraçado na época testemunhar tamanho contraste. O segundo motivo de escalar esses dois atores é mais relevante: os olhos. Os olhos e as feições de Charles Bronson são fatores decisivos para mostrar o quanto ele parece com um índio. E os olhos de Henry Fonda, azuis-brilhantes, são característicos do por assim dizer, “homem branco” (já que o caucasiano de olhos castanhos pode se confundir com os outros devido à pele queimada pelo sol). Geralmente os mocinhos de olhos azuis corriam atrás de bandoleiros chicanos, ou de tribos indígenas. Leone inverteu o jogo sem fazer nenhum maniqueísmo, o que soma mais pontos para Era Uma Vez no Oeste, um filme fora de série.

O roteiro tem tiradas ótimas que dão aos personagens uma característica irônica e até rancorosa. A montagem cria obras-primas pequenas, a seqüência inicial que circunda entre os ladrõezinhos com barulhos pitorescos, como de goteiras ou de moscas, com o som aumentado; outra cena mitológica é o emocionante duelo giratório ao final, exaustivamente imitada, com a trilha de Morricone (GODDAMN HIM!), de arrepiar qualquer um. Outras sutilezas são notáveis, como quando Jill está chegando em casa para encontrar a futura família morta usando um vestido preto. Ou quando um dono do lugar onde Claudia Cardinale pára durante a ida à casa dos McBain, dizendo “eu ia para New Orleans, mas estou contente aqui, com a vida no campo”.

Leone deita e rola para fazer sua obra-prima lírica sobre a época e a região que marcaram profundamente o cinema. Na época do lançamento, Era Uma Vez no Oeste foi um fiasco de público e crítica em todos os lugares do mundo, exceto na França. Parece ser irônico que uma obra até saudosista faça sucesso na França da época dos protestos de Maio de 68, da libertação dos costumes, libertação sexual; mas o olhar que o filme oferece é muito mais crítico para ser chamado de saudosista. O que o resto do mundo não pareceu perceber foi que este filme ficaria marcado. Anos à frente do seu tempo, é um termo atribuído a muitas obras. Um dos filmes em que essa expressão se aplica perfeitamente é Era Uma Vez no Oeste.

“O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que a pessoa exala antes de morrer. Era Uma Vez no Oeste é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens, exceto Claudia (Cardinale), têm consciência de que não chegarão vivos no fim.” – Sergio Leone

4/4

Pedro Kerr

8 Comments

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8 Responses to Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968)

  1. volmir Cardoso

    Parabéns pela resenha, ficou ótima.
    Não sou um cultuador dos westerns, mas concordo com tudo o que você disse sobre Era uma vez no Oeste. Eu comecei a assistir esse filme por acaso, num canal de TV, e fiquei impressionado. Como você bem disse, essa “dança da morte” beira à poesia, uma poesia cruel, vil e bruta ao extremo. As interpretações são magistrais, as cenas são muito bem compostas, e o filme realmente tem um roteiro muito superior à grande maioria dos westerns. Realmente, Leone fez um filme que foge dos esquematismos clichês dos westerns convencionais e criou um filme cult que pode ser analisado sob várias perspectivas. Um marco do cinema.

  2. olá, esse filme é bom, o problema é que só assisti uma vez na tv, nao encontro nas locadora, como posso obter uma copia autentica deste filme, afinal recomendo muito…….

  3. Paulo Benedetti

    Parabéns pela resenha,

    realmente o filme estava a frente de seu tempo, eu recomendo a todos!!

  4. JORGEMAR GOMES

    FANTASSTICOOOOO!!!!!!!!E A UMA REFILMAGEM SAI QUANDO?

  5. Matte

    Refilmagem????????

  6. Edson Rosa

    Assisti esse maravilhoso filme em um canal de TV na década de 80,
    agora encontrei a venda em Blu-Ray e já reservei o meu.
    Parabens pelas resenhas

  7. Gilliaird

    Muita vontade de ver esse filme agora.
    Vindo do Leone e ao que parece, carregado de muito sentimento… espero muito desse filme.