Marte Ataca (Tim Burton, 1996)

Os filmes envolvendo invasões extraterrestres tiveram o seu auge entre os produtores dos chamados “filmes B” entre o final da Segunda Guerra Mundial e meados da década de 50. Com o início da Guerra Fria e da corrida armamentista, o interesse pela ficção científica, e o relato, em 1947, de um homem de negócios que, enquanto voava em seu jato particular alegou ter visto à sua frente objetos com forma arredondada atravessando o céu, inaugurou-se a obsessão por discos voadores. A idéia de seres ou organismos alienígenas perambulando tão perto da Terra passou a fazer parte do temor e do imaginário popular e dos estúdios de Hollywood. Dentre os diretores que se aventuraram nesse gênero, destacam-se Don Siegel (Invasion of Body Snatchers), Roger Corman (Not of This Earth) e Ed Wood (Plan 9 for the Other Space), sendo esse ultimo, considerado “o pior diretor do mundo”, teve uma biografia filmada por Tim Burton em 1994.

O projeto de Tim Burton que sucedeu “Ed Wood”, coincidentemente ou não, envolvia todos os preâmbulos descritos no parágrafo anterior. Esse projeto se chama “Marte Ataca”, e se desenvolve a partir de uma invasão alienígena a Terra, onde, após tentativas fustradas de negociações, eles resolvem acabar com o planeta, diante da incredulidade e ineficiência das forças terráqueas em detê-las, até que a população descobre um meio de derrotá-los. Ao ler essa rápida sinopse, pode-se lembrar logo de cara de um outro filme com o mesmo tema feito um ano antes: “Indepedence Day”, dirigido por Ronald Emmerich. Mas é apenas nesse ponto que os dois filmes são semelhantes: enquanto que “ID4” é um filme de ação com uma forte carga de explosões de patriotismo, “Marte Ataca” aposta mesmo na homenagem aos seus homônimos da década de 50, com uma boa dose de sarcasmo e ironia, debruçando-se ainda sob a crítica social, construindo o seu crossover de histórias perante o panorama social norte-americano.

Sendo assim, analisemos rapidamente os personagens principais desse filme: temos o presidente totalmente inseguro, oportunista (aproveita a oportunidade de entrar em contato com seres extraterrestres para se promover) e covarde. A sua esposa é uma pessoa totalmente fútil e deslumbrada com o posto de “primeira-dama”, a ponto de querer trocar toda a decoração da Casa Branca. Como assessores militares, temos um General ausente, cuja motivação se resume em “esperar de boca fechada a oportunidade de uma promoção”, e um outro de temperamento turrão e totalmente belicista. O assessor científico (caracterizado com o seu jaleco branco e o seu indefectível cachimbo), no alto da sua sapiência, baseia a sua conclusão de que os seres extraterrestres são pacíficos pelo fato de serem uma “nação avançada tecnológica e culturamente”. Já na sociedade, o lucro comanda tudo, e o dinheiro está nas mãos de picaretíssimos donos de cassinos. Os heróis do filme são um boxeador aposentado, um adolescente nerd apaixonado pela sua avó caduca (cuja família é o perfeito esteriótipo da América redneck, representado pelos pais que vibram com a possibilidade do filho mais velho “servir a nação” como fuzileiro – personagem este que é o primeiro a morrer, segurando a bandeira Norte-Americana, uma imagem simbólica do teor do filme) e duas crianças negras fãs de jogos eletrônicos. Como pode-se perceber, os personagens desse filme são completamente antagônicos em comparação aos seus correspondentes em “ID4”, reforçando ainda mais o tom de paródia e crítica ao militarismo e, indiretamente, uma sátira aos filmes ultra-pratióticos.

Mas o filme, além dos fatores acima, se vale também de uma parte técnica primorosa. Usando como modelo para os extraterrestres, bem como as suas naves e armas, (e também como inspiração inicial para o roteiro do mesmo) uma série de figurinhas chamada Topps editada em meados dos anos 50, temos, como resultado, uma direção de arte fabulosa, com verdadeiras obras de animação em computador em forma de marcianos. Graças a isso, como resultado final, temos um ar quase retrô ao filme, mesmo com a ambientação (cenário, figurindo dos atores, etc) sugerindo que a história se passe nos dias atuais.

Aliás, falando nos extraterrestres, eles são mais uma constatação do tom irônico e subversivo da obra em questão. Ao contrário dos filmes mais usuais, onde eles são vistos como seres implacáveis e cruéis, ou mesmo, em alguns filmes, como seres bonzinhos, aqui eles estão mais parecidos com crianças crescidas no que tange as suas personalidades: seja fazendo experiências esdrúxulas com as espécimes humanas que são levadas ainda vivas á nave (incluindo uma inusitada troca de corpos entre a repórter vivida por Sarah Jéssica Parker e o seu cachorro), minituarizando militares fascistas para, logo em seguida, esmaga-los tal qual uma formiga, ou ainda fincar de maneira original a sua bandeira, os extraterrestres procuram não apenas destruir o planeta a todo custo, mas também atazanar e humilhar os seus habitantes.

Além disso, há um fato curiosíssimo envolvendo o filme: poucas vezes se vê um massacre tão exacerbado de astros. Jack Nicholson (que faz, além do Presidente, um excêntrico dono de cassino), Glenn Close (a primeira-dama), Michael J. Fox (Um dos repórteres da emissora de TV), Sarah Jéssica Parker, Pierce Brosnan (o consultor científico), Rod Steiger (o militar belicista), James Earl Jones (o militar sem opinião formada), Danny DeVito (o advogado), todos eles morrem com cerca de 1 hora de filme. Percebe-se também como, mesmo diante de morte certa de seus personagens, os atores estão bastante a vontade no filme, notando-se claramente que eles, de certa forma, estão também se divertindo com os seus personagens e suas excentricidades.

Com todos esses ingredientes, “Marte Ataca” se mostra como sendo um filme para não levar a sério. Encarado como ele realmente se propõe a ser (uma paródia á vários valores e características do american way of life, além de uma homenagem aos filmes B e, por que não dizer, como uma continuação natural do trabalho feito por Burton em “Ed Wood”), pode-se perceber um trabalho que, se não é maravilhoso, ao menos é interessante e extremamente divertido, assim como os seus predecessores de 50 anos atrás.

3/4

Adney Silva

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