Frenesi (Alfred Hitchcock, 1972)

Não sei exatamente porque considero Frenesi como o melhor filme do mestre Hitchcock. Mesmo tendo assistido poucos filmes deles, mas já tenho na minha lista de filmes vistos, “mais-que-clássicos” como Psicose, Um Corpo que Cai, Pacto Sinistro e Janela Indiscreta. O motivo principal talvez seja que Frenesi traz tudo o que o mestre fez antes, só que, digamos, de forma “compacta”, num único filme, e de maneira igualmente magistral como antes. Nesse penúltimo filme dele (o último seria Trama Macabra de 1976), temos o genuíno humor hitchcockiano, personagens curiosos (alguns até bizarros), ângulos de câmeras bem elaborados, técnica arrojada, diálogos ricos, e como não poderia faltar: Muito suspense, com cenas de deixar qualquer um colado na tela.

Nesse momento totalmente inspirado, o mestre nos leva a uma Londres onde mais um serial killer anda atacando mulheres pela cidade. Somos apresentados a essa situação logo no início do filme, onde num discurso de um político para um pequeno público (reparem que o próprio Hitchcock é uma das pessoas na multidão), à beira de um rio, aparece uma das vítimas. Uma mulher nua, morta, boiando no rio e com uma gravata amarrada no pescoço. A mesma gravata que foi usada pelo assassino para estrangulá-la. Ficamos logo de cara sabendo que ela não foi a primeira, e outros casos semelhantes ocorreram com outras mulheres na cidade, por isso, o maníaco acaba sendo chamado por todos como “O Assassino da Gravata”. Paralelos com o famoso caso de Jack, o Estripador, são feitos. O filme não deixa de citar o famoso caso, e montar esses paralelos, mostrando a reação das pessoas ao clima de insegurança que surge na cidade depois dos assassinatos, como talvez tenha acontecido de maneira semelhante na época dos assassinatos de Jack.

O importante num filme do Hitch são os personagens e aqui temos dois ótimos personagens principais: Richard Ian Blayne e Robert Rusk. Os dois são amigos de longa data e de certa forma inversos em suas personalidades. Na vida social, Richard é um cara abandonado pela própria sorte. Divorciado, alcoólatra, mal educado. Insociável de forma geral. Já Robert é o contrário. Um bom filho, boa praça, amigável e atencioso com todos que passam no seu caminho. Mas não só nisso, o ponto chave é que os dois também são inversos na vida amorosa. Richard mesmo sendo violento, e agressivo, sabe como tratar as mulheres. Ele tem uma ex-mulher, Brenda, que comenta que mesmo agressivo, ele nunca chegou a bater nela, e fica nítido que ela ainda gosta dele, apesar de todos os problemas que tiveram. E ele ainda namora uma garçonete, chamada Barbara Mullingan, que o ajuda e confia nele totalmente. Já Robert sendo o inverso de Richard, o vemos como um homem sem uma namorada, esposa, ou uma ex-mulher, por perto. É aparentemente um solitário, cuja única companhia feminina seria da própria mãe (uma referência a Psicose aqui?). Então, o filme lida com esses dois homens inversos no seu comportamento, mas amigos. O desenrolar do caso do “Assassino da Gravata” é que vai pôr em cheque a amizade deles.

Como Frenesi é um filme de Hitchcock, então temos que ter grandes cenas ou grandes momentos. As duas cenas de assassinato que vimos aqui são magistrais. Não tão lembradas como a do chuveiro em Psicose, mas igualmente memoráveis. Uma se passa no escritório de Brenda Blayne, a ex-mulher de Richard Blayne. O incomodo que a vítima tem ao ver o assassino, mesmo sem saber que ele é o homem procurado pela polícia, é nítido e isso acaba passando para o público, onde cada vez mais a repulsa dela por ele vai aumentando. A cada momento que o assassino vai se revelando, cada vez se torna mais repulsivo, chegando ao ponto onde ela descobre que ele é o assassino da gravata. Esse é um dos pontos cruciais do filme. A outra cena de assassinato, é mais um desses momentos únicos que só podemos ter no cinema, principalmente no cinema de Hitchcock. A vítima aqui, inocentemente, acaba por aceitar um convite para passar a noite num apartamento, e nada mais é mostrado depois que ela entra lá e fecha-se a porta. A câmera justamente vai se afastando da porta do apartamento, desce as escadas do prédio até chegar à rua. Tudo simples, tudo silencioso. Só um mestre pra fazer assim.

Nem posso deixar de citar outros grandes momentos, só que mais leves, com bom humor, e que não servem somente pra relaxar da tensão do filme, mas para passar algumas informações importantes. Como a cena no caminhão de batatas, onde o assassino se atrapalha ao esconder um cadáver (e inevitavelmente acabamos por torcer para que ele não seja pego!). Ao mesmo tempo tensa e leve, essa cena serve para mudarmos o ângulo de visão em relação ao assassino, que antes se mostrava implacável e sagaz, mas aqui, o vemos humanizado e passível de erros. Outro momento que é sempre um prazer ver e rever são os diálogos do Oficial Oxford, responsável pela investigação dos crimes, com sua mulher. Aqui Hitch aproveita para explicar melhor a psique do assassino, mas também nos brinda com a situação do policial que não agüenta mais a comida da mulher depois que ela resolveu aprender pratos exóticos, como pés de porco e codornas com uvas. Impagável e imperdível.

O final, ao contrário de vários filmes de suspense atuais onde se tenta ter uma revelação final ou uma grande reviravolta, que muitas vezes só servem para esconder roteiros frouxos ou sem nexo, aqui tudo é simples e bem tenso, como só Hitch fazia. Ele nunca precisou de finais surpresas para que seus filmes sejam o que são, e a frase de Oxford que conclui tudo no final: “You’re not wearing your tie.” traduz muito bem isso. Direto no ponto. E fim.

Frenesi, infelizmente, no meio de tanto filmes consagrados do mestre acaba sumindo no meio deles, e não é tão lembrado como outros. Uma injustiça. Mas a julgar uma filmografia tão rica e ampla de Hitch, é fácil compreender porque um filme excelente desse fique escondido. O melhor é cada um mesmo descobrir essa jóia rara. Assim como Indiana Jones achou um grande artefato arqueológico numa floresta tropical em Os Caçadores da Arca Perdida, eu descobri Frenesi na filmografia de Alfred Hitchcock. E obrigado por isso!

4/4

Jailton Rocha

2 Comments

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2 Responses to Frenesi (Alfred Hitchcock, 1972)

  1. Caio Lucas

    Eu acho esse apenas bom, pra mim Hitchcock perdeu a oportunidade de realizar o seu melhor filme. Mas na década de 70 o mestre não era o mesmo.

  2. Muita gente acha que este, e não “Trama macabra” (de 1976), é que deveria ter sido o epitáfio do Mestre. Mas é injusto, pois “Trama macabra” tem seus próprios encantos.
    “Frenesi” é um filme bem mais soturno do que os habituais de Hitch, talvez por não contar com estrelas, mas com atores de rostos comuns que encarnam homens comuns, o que dá mais verossimilhança ao sombrio da trama. E também a violência é um pouco deselegante, contrariando a fórmula de Hitch – a cena da estrangulada com língua de fora é francamente horrível, obscena.
    Mas o filme é um prodígio de humor (negro) e consegue ser divertido e clássico, feito com uma desenvoltura que só os Mestres, no auge da depuração, atingem.