Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (Arthur Penn, 1967)

Um road-movie policial com climão western protagonizado por um casal de delinqüentes dotados de uma visão completamente surrealista de justiça. Isto é, provavelmente, o mais próximo que alguém pode chegar de uma definição que sintetize, ao mesmo passo, a simplicidade e a grandiosidade da salada de referências genéricas que constituem um dos principais clássicos do cinema hollywoodiano da década de 1960. Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, faz uso de elementos verdadeiramente distintos em prol de uma unidade final inquietante, que exala a cada frame a ideologia de toda uma geração e se mantém até hoje como um brilhante exponencial no que tange ao conjunto de filmes mais influentes de seu período.

Ambientada na época da depressão estadunidense da década de 1930, anos após o estouro da bolsa de Nova York, que representou a falência do sistema econômico capitalista que vinha se condensando e expandindo na América, a obra trata do incomum senso de justiça de um recém formado casal de marginais, quando decidem partir para uma infindável jornada de assaltos a bancos (que, por conseguinte à crise, passaram a protagonizar uma verdadeira chacina residencial, despejando de seus lares milhares de famílias de agricultores para se apossar das terras) e, subseqüentemente, de fuga da justiça – auxiliados por outras três pessoas, um pequeno delinqüente que visa ao sucesso marginal e um casal formado pelo irmão de Clyde e sua mulher.

Inicialmente um projeto muito querido pelo francês François Truffaut, a inquietante saga de amor e violência foi parar nas mãos de um cineasta relativamente jovem e assumidamente estudioso da escola cinematográfica fundada por Truffaut, a nouvelle vague francesa. Esta aproximação entre Hollywood e o cinema europeu, por sinal, mesmo sem ter sido dirigido por um genuíno representante do cinema do velho mundo, resta forte como uma das mais importantes características de Bonnie & Clyde. A decupagem exagera nas referências ao charmoso cinema francês e transborda um espiritualismo típico de seus realizadores – evocando, muitas vezes, uma semelhança bem peculiar com as produções de Godard, amante dos contos de crime estadunidenses.

O ápice deste referencialismo se encontra no principal momento de Bonnie & Clyde, tanto narrativamente quanto qualificativamente: a amarga e ensurdecedora “rajada de balas” proferida por membros da justiça na seqüência derradeira da obra. Não tanto pelo trato visual da decupagem, composto por simples planos em closes e outro ângulo aberto na ação, mas sim pela montagem em “plano/contra plano” seqüencial que encerra com gosto de poesia rítmica toda a jornada física e emocional pela qual transitam ambos os protagonistas. A troca de olhares entre Bonnie e Clyde, momentos antes de serem alvejados por dezenas de projéteis metralhados pelos oficiais, revela a verdadeira mutualidade romântica que compõe o cerne de toda a aventura – artifício bastante surpreendente e perspicaz, por sinal.

Não obstante, a jornada em sua plenitude, embora perca fôlego em algumas (poucas, é verdade) seqüências, que atrapalham o desenvolvimento ágil e ilícito da narrativa, é composta por momentos apaixonantes, empolgantes sob o ponto de vista da ação e auxiliados com deliciosas pitadas de comédia e, como já dito, romance. Em alguns aspectos, Bonnie & Clyde chega a dialogar com a grande obra-prima da arte cinematográfica, o godardiano O Demônio das Onze Horas, não apenas pela supracitada referência na decupagem, mas sim pela forma com a qual é construída a relação entre o casal principal e todo o universo ficcional. Ainda assim, é uma referência boba, talvez pescada apenas pelo lado romântico com o qual vejo filmes depois de O Demônio das Onze Horas, mas a presença do espírito inquietante do cinema de Godard é bastante notável.

Embora particularmente interessante, o meticuloso processo de criação organizado por Penn ainda é respaldado por atuações da mais alta classe, provindas de alguns dos principais nomes do cinema da época. Warren Beatty provavelmente consegue aqui sua caracterização mais inesquecível, vencendo até mesmo seu trabalho de estréia na obra-prima máxima do mestre Elia Kazan, o amargo e impressionante Clamor do Sexo. Clyde é uma caricatura muito bem desenhada do famoso estereótipo durão de “justiceiro homônimo” dos westerns, enquanto Bonnie, vivida pela inebriante Faye Dunaway, extrapola qualquer visão preconceituada das personagens femininas e se estrutura como uma femme fatalle às avessas – por mais estranho que isso soe.

Ainda assim, toda a riqueza de sua composição não necessariamente representa exagero quanto à hermeticidade ou a uma suposta revolução fílmica. O desenvolvimento é linear, sem qualquer pretensão de inovação narrativa, e o objetivo é apenas um: divertir com classe e muito estilo, procurando beber de fontes variadas e transcender os estigmas mais conservadores da estética cinematográfica. Por final, é o que Arthur Penn e sua equipe realmente conseguem transmitir com Bonnie & Clyde, uma obra de arte classuda e recheada de violência, decupada nos moldes do cinema europeu de Godard e Truffaut e, com isso, levemente destituída do estilo clássico de Hollywood – com uma série de características atadas com muito charme, romantismo e empolgação.

4/4

Daniel Dalpizzolo

2 Comments

Filed under Resenhas

2 Responses to Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas (Arthur Penn, 1967)

  1. Ótimo texto. A lembrar a proeza de Penn ter tocado em um costume tão caro ao americano – o de transformar em heróis aqueles que desafiam a ordem vigente, celebrar os feitos de foras-da-lei e subverter a ordem natural na posição de bem e mal, lembrando Butch Cassidy, Jesse James e Billy the Kid, entre outros – sem, necessariamente, fazer do filme uma ode ao american way of life ou se despregar das próprias influências. Muito boa a lembrança do sentimento do povo para com os bancos, alvo mor da dupla, durante a recessão. É um dado a mais para entender a obsessão com essa dupla de assaltantes – que, felizmente, Penn não tenta explicar em seu filme, apenas retratar. É brilhante nisso…

  2. Daniel Dalpizzolo

    Muito do clima extremamente agradável, de uma sensação ao mesmo tempo leve e libertária, vem justamente do fato de o Penn jamais tentar julgar nada. É, acima de tudo, uma estória de amor muito sincera.

    É um filme fundamental pra se compreender a reviravolta do cinema americano nos anos 70.