Por Fábio Feldman

Quanto mais leio sobre Sniper Americano, mais tenho a impressão de que o filme que vi não é aquele sobre o qual andam falando. Obviamente, toda obra que abarca temas polêmicos de modo não condescendente, negando-se a oferecer respostas fáceis ou endossar perspectivas pré-estabelecidas, incorre no risco de atrair “leituras automáticas”, politicamente orientadas e pouco sofisticadas. O que, no caso da última obra de Clint Eastwood, é uma pena, haja vista o nível de complexidades concebível sob sua superfície.

Antes de falar propriamente sobre Sniper, algumas palavras sobre Clint. A essa altura do campeonato, todos que acompanham sua filmografia já conhecem bem seu estilo. Adepto da concisão e da economia de recursos, Eastwood se tornou um dos principais minimalistas do cinema americano. Acredito que sua sede por dizer o máximo valendo-se do mínimo já o levou a tomar más decisões – sobretudo quando roteiros problemáticos forçam seus filmes a cair num esquematismo algo grosseiro. Entretanto, é praticamente inegável que seus esforços mais bem sucedidos figuram, hoje, entre o melhor que Hollywood nos ofereceu nas últimas décadas – e Sniper Americano, a meu ver, se encontra entre tais esforços.

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Formalmente, considero Sniper uma das produções mais enxutas e fluidas desenvolvidas pelo autor de Os imperdoáveis em um bom tempo. E, embora o núcleo iraquiano tenha se me apresentado como um pouco mais bem estruturado, em termos de timing e desenvolvimento, do que aquele passado nos EUA – sobretudo quando penso em aspectos do último ato –, a narrativa sustenta sua coesão ao longo das horas, sem nunca descambar para o didatismo. Além disso, creio que o fato de flertar com a estrutura de filmes de gênero, mas nunca se firmar inteiramente como um, expande o potencial de sua abordagem. Temos, como em Sobre meninos e lobos,Gran Torino e outras peças-híbridas no interior do cânone eastwoodiano, um filme que se vale do melhor de dois mundos.

Em relação às acusações referentes aos sentidos a ele imputados, muito há o que ser dito. Contrariando os críticos, Clint insistiu que Sniper Americano não é um filme político. Disse também se tratar de um libelo anti-guerra, opinião que subscrevo integralmente. Entretanto, encaro-o como uma obra que não se presta a defender pontos de forma clara. Em realidade, ainda que as convicções políticas do autor influenciem suas escolhas temáticas (e não é absolutamente certo que este seja o caso), seus filmes jamais figuram enquanto simples panfletos de natureza ideológica. O cinema de Eastwood, assim como o de Howard Hawks, tem como objeto, invariavelmente, o homem – suas contradições, falhas, as pulsões que o animam e que se colocam na base de qualquer painel sociológico mais amplo.

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Assim sendo, avalio Sniper Americano, inicialmente, como um estudo de personagem. Assistindo-o, somos, desde o início, inseridos no interior do universo de Chris Kyle, compreendemos suas referências culturais, o modo como foi criado e, para além da caricatura de um mero “redneck”, enxergamos um homem, dotado de todo tipo de limitações – que acredita no mito do excepcionalismo americano, que compra a noção de heroísmo, que apóia acriticamente a versão oficial para a entrada dos EUA na guerra e, do auge de seu simplismo, vê o mundo de modo mais unidimensional possível. E, apesar (ou em função?) da austeridade e concisão empregadas na confecção do filme, gradualmente nos deparamos com uma figura não apenas crível, como estranhamente simpática. Ora, creio que uma das grandes virtudes de Eastwood enquanto storyteller é, justamente, sua capacidade de expressar empatia por seus personagens – empatia esta que nos aproxima deles e, às vezes de forma bastante incômoda, nos força a nos colocar em seus lugares. Motivo pelo qual as leituras ideologizantes de seus filmes me parecem fracassar. Eles, simplesmente, não aceitam ser reduzidos a meras interpretações da realidade.

Em relação às crenças de Kyle, não me parece que Sniper Americano as endosse por completo, ainda que se cole a ele o tempo todo. A prova disso é que as contradições que ameaçam as certezas do personagem integram a obra, mesmo que indiretamente. Talvez, a maior prova disso seja a presença do vilão, Mustafa. Aparente metonímia dos “selvagens”, o sniper iraquiano é, de fato, um outro de Kyle: enquanto o americano era um cowboy condecorado, seu opositor foi um medalhista olímpico; o primeiro é casado com uma mulher que o ama, o segundo tem a esposa como colaboradora; ao primeiro são legadas ordens que cumpre com orgulho e certeza quase inabaláveis – o segundo, ao que tudo indica, também. Esse espelhamento de potenciais opostos desafia a concepção de uma guerra estabelecida entre bons contra maus. Os “selvagens” nada mais são do que inimigos, dispostos em um contexto estranho e impelidos, por suas próprias e óbvias razões, a resistir.

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A existência de Mustafa também me parece aproximar mais o filme das convenções do gênero, quase o transformando em um western contemporâneo. Porém, o modo como tal vilão é construído, as complexidades que envolvem a recepção dos locais aos “libertadores” e os efeitos do combate sobre eles – sobretudo Kyle –, levam-me a pensar que, ao invés de reforçar noções antiquadas de heroísmo e patriotismo, pintando uma versão em preto-e-branco da realidade, tal procedimento é responsável por,de forma sutil, problematizar tudo o que esperaríamos de um filme desse tipo. Seguindo o que já constitui uma constante autoral em sua filmografia, Eastwood dialoga com os topoi da tradição narrativa americana e, em certos momentos, os desconstrói por completo.

O Sniper Americano que vi – e que, definitivamente, não coincide com aquele visto por Michael Moore ou os integrantes da Fox News – é, sim, um libelo anti-guerra. E, justamente por se negar a nos entregar uma caricatura, Clint pinta um retrato muito mais completo (e terrível) do conflito. Suas pretensões, parece-me, ultrapassam a mera representação de aspectos da guerra do Iraque – em realidade, a guerra enfrentada por Kyle poderia ser qualquer guerra. Nem herói, nem vilão, o atirador de elite mais letal da história americana, sob a tutela de Clint Eastwood, não passa de uma vítima entre vítimas. Um menino entre lobos. Humano, falhado e real.