Por Murilo Lopes

Um jovem parisiense caminha pelas ruas, driblando os demais pedestres e com a cabeça nas nuvens. Faz uma pequena parada em seu caminho e recebe uma carta de sua amada. Ansioso por lê-la, esquece até mesmo de continuar driblando os transeuntes e acaba partindo ao meio a baguete de um deles. Acidente de descuido, coisa sem importância em meio a um dia tão maravilhoso. Chega em casa, senta-se à escrivaninha e abre a carta perfumada… apenas para ler, incrédulo, que sua namorada está terminando com ele. Junto com páginas da carta, um retrato seu rasgado ao meio. O pobre rapaz, até mesmo, se dá ao esforço de juntar os pedaços como para conferir se é a sua imagem mesmo que está ali impressa. O dia maravilhoso se desmancha, a felicidade desmotivada vai por água abaixo e ele decide escrever uma réplica imediata à megera que partiu seu coração.

Rupture, primeiro curta-metragem de Pierre Étaix (em colaboração com Jean-Claude Carrière), é, além de um exercício de estilo competente, um revival do cinema mudo e da comédia baseada em humor físico, com pequenas – porém acertadíssimas – doses de um humor negro elegante e impiedoso. Ao longo dos onze minutos de duração, vemos o pobre personagem de Pierre descobrir que nada é tão ruim que não possa piorar. E que, quando as coisas estão rumando neste caminho… bem, o universo parece conspirar com mais força do que se fosse no caminho oposto. E o universo deste curta conspira freneticamente, a começar por seus sinais de que “um bom dia” pode ser um lobo na pele de cordeiro. A cena do porta-retrato que é derrubado por um beijo soprado pelo protagonista já figura em minha galeria de momentos mais maquiavélicos do cinema. O universo encerrado por aquele apartamento sabe exatamente o que espera pelo rapaz e tem preparada toda sorte de pequenos e grandes azares que podem acontecer em um dia como outro qualquer.

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Apesar da maior parte da projeção se concentrar em um espaço bastante pequeno, a câmera e a montagem e o talento de Étaix para suas gags funcionam em um conjunto impecável, a despeito de todas as possíveis limitações que os diretores tenham encontrado na época. Dessa maneira, eles atingem momentos realmente marcantes, como o melancólico close em um personagem emocionalmente devastado ou o movimentar debochado de um tinteiro sobre uma escrivaninha inclinada – em um jogo de cortes simples e eficaz. Longe de estarem em busca de uma mera emulação de Buster Keaton ou Charles Chaplin, Étaix e Carrière se propõem a usar uma estética bastante consolidada para dar um novo passo na comédia dentro de uma França efervescente de novas ideias e formatos para o cinema.

O ressurgimento das obras de Étaix é, certamente, algo a ser comemorado, não apenas pela possibilidade de, finalmente, podermos conferir a obra do diretor como um todo, mas pela chance de vermos estes primeiros passos que, embora pequenos, são tão marcantes e importantes para a consolidação das bases de todo um movimento.

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