Autor: Luis Henrique Boaventura
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Corrente do Mal (David Robert Mitchell, 2014)
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Por Luis Henrique Boaventura Ao erguer sua alegoria anacrônica da corrosão da juventude americana, terminal, numa Detroit suburbana cansada e quase fantasma, David Robert Mitchell faz retornar o medo à categoria de grande objeto linguístico do cinema fantástico americano. Não a razão para o medo, seu gatilho, mas a própria…
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No Silêncio da Noite (Nicholas Ray, 1950)
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Por Luis Henrique Boaventura 1. Uma história de violência A despeito da fúria que os toma como uma doença, os homens de Nicholas Ray são frágeis feito crianças, vulneráveis às iniquidades de um mundo que se recusa a abraçá-los. A resposta ao deslocamento, como quem responde a um pai, é…
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Tourneur e a rarefação do horror
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Por Luis Henrique Boaventura Há três momentos de assombro em O Homem Leopardo: o galho que se dobra na cena do cemitério, o cigarro jogado na direção do curador do museu quando ele é perseguido pela rua, e os passos invisíveis que se aproximam de Clo-Clo pouco antes de sua…
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Em Plena Forma (Pierre Étaix, 2010)
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Por Luis Henrique Boaventura Em Plena Forma é originalmente uma sequência da colagem de curtas Rir é o Melhor Remédio que Pierre Étaix extraiu do longa original a partir de um novo corte; faz parte dos filmes restaurados e relançados em 2010. Os non-sequiturs de Tati definitivamente encontram uma casa…
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Feliz Aniversário (Pierre Étaix, 1962)
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Por Luis Henrique Boaventura Nada dos metódicos 12 minutos de Heureux Anniversaire denunciam que este se trata apenas do segundo filme de Pierre Étaix (em colaboração com um jovem Jean-Claude Carrière). Do grau de elaboração das cenas externas à montagem rigorosa de alternação de ritmos, rostos e objetos, Heureux Anniversaire…
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Um Método Perigoso (David Cronenberg, 2011)
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Por Luis Henrique Boaventura A narrativa segundo David Cronenberg, embora envolta sempre desse classicismo anacrônico, transpira vez ou outra com o desconcerto, um solavanco gráfico ou rítmico — ecos do horror setentista americano, velha escola dessa geração — que desvia e constrange sua harmonia. Cronenberg desenvolveu durante muitos anos uma…
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“Onde está o quadro?”
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Por Luis Henrique Boaventura Em determinada cena de O Homem Urso Timothy Treadwell deixa uma de suas câmeras sozinha sobre um tripé e some no fim de um caminho de terra. Neste momento (algo em torno de dez ou doze segundos) Herzog aproveita-se da ausência do autor das imagens e…
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Wheel of Time (Werner Herzog, 2003)
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Wheel of Time, documentário das cerimônias de iniciação budista em Bodh Gaya, na Índia, revela muito das vontades e motivações de Herzog diante de um projeto, ou o que o faz perseguir a realização de um. O ritual consiste basicamente em milhões de pessoas em peregrinação (algumas de joelhos, algumas…
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Invencível (Werner Herzog, 2001)
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Por Luis Henrique Boaventura Há um certo eco de Stroszek e Kaspar Hauser (Bruno S.) em Zishe Breitbart (Jouko Ahola), protagonista de Invencível. Os dois partilham da mesma inaptidão em relação ao meio e do mesmo olhar pasmado, de quem lê hieróglifos incompreensíveis, para com o mundo a sua volta.…
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2000 Jahre Christentum: Christ and Demons in New Spain (Werner Herzog, 1999)
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Por Luis Henrique Boaventura Assistir a um documentário de Herzog narrado por outra pessoa (no caso, Donald Arthur) faz sentir uma falta imensa do próprio Herzog colocando-se em cena, ainda que sua visão esteja por demais evidente em mais de uma passagem. Mas Christ and Demons in New Spain não passa…
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The Transformation of the World into Music (Werner Herzog, 1996)
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Por Luis Henrique Boaventura Não passa pela cabeça inicialmente que The Transformation of the World into Music fora concebido como uma simples introdução a uma série de programas de ópera para a TV alemã. A vitalidade do documentário aponta um tema apaixonante para Herzog: não a ópera especificamente (com que o…
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Cobra Verde (Werner Herzog, 1987)
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Por Luis Henrique Boaventura “I think about a time when I will be relaxed. When flames and non-specific passions wear themselves away. And my eyes and hands and mind can turn and soften, and my songs will be softer and lightly weight the air.” — Amiri Baraka É claro que…
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Fitzcarraldo (Werner Herzog, 1982)
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Por Luis Henrique Boaventura A falta de distinção entre o que é ficção e o que é documentário é uma constante em Herzog. Parece não ter havido, como ocorre eventualmente a todo cineasta, a esquize que permite ao olho separar a encenação do que apenas está em cena. Como resultado, esta…
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Joey e o carrossel
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“É incrível que o senhor seja um adulto”. Assim é dito a Lawrence Woolsey (John Goodman), um falido produtor de cinema B de terror nos anos 60, post-mortem da velha e etérea Hollywood, logo ao final de Matinée – Uma Sessão Muito Louca. E é pouco considerando que Woolsey literalmente põe…
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Sobre o abismo e outros vértices
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Foi Christian Metz quem chamou a atenção para uma consciência da imagem de si mesma e uma autoconsciência do espectador, inscrevendo aí uma dinâmica de interdependência entre ambos. Pegando emprestadas algumas noções da Análise do Discurso francesa, Metz ponderou que “a enunciação é o ato semiológico pelo qual certas partes…