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Além da Vida (Clint Eastwood, 2010)

A morte circunda o cinema de Clint Eastwood. Ela ronda como uma assombração os personagens de muitos dos trabalhos que dirigiu, desde os seus melhores westerns (Josey Wales e Os Imperdoáveis), passando por Honkytonk Man, Um Mundo Perfeito, As Pontes de Madison, Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, A Troca, Cartas de Iwo Jima e Gran Torino, entre outros. Não é de estranhar que tenha feito dela o assunto desse seu mais recente longa, Além da Vida, agora com o filme circundando o tema (e não o contrário, como nos exemplos citados acima).

Pena ele ter sido encarado com a expectativa errada: a de filme espírita e sobre o além. Não que não trate dessas questões, mas se conservando o tempo todo no plano terreno, com os seus eixos girando mais em torno da vida antes da morte, e da relação dos personagens com ela. Um filme, sobretudo, de encontros, perdas, procuras e reencontros. Em alguns aspectos não tão diferente, à sua maneira, em relação (e em como lida com o tema) a um filme como Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, que por sua vez desenvolve-se como um filme de fantasia, enquanto Além da Vida permanece no real, bem mais pé-no-chão.

Mas quem chegou mais perto de um paralelo certeiro com o filme de Clint foi o crítico Sérgio Alpendre, ao invocar a obra-prima de Alain Resnais Medos Privados em Lugares Públicos, com a sua junção de histórias paralelas ocorrendo de maneira natural, em torno das dificuldades (ou impossibilidade) de laços permanentes entre as pessoas. Clint o faz com a grande elegância e sensibilidade que lhe são habituais, e dessa vez não faltou quem o apontasse como num meio caminho entre o filme europeu e o hollywoodiano.

Além da Vida não é um filme de respostas, mas de incertezas e de mistério diante de um fenômeno. Que outro filme “espírita” (aqui as aspas fazem todo o sentido) apresentaria uma série de charlatões e embusteiros mediúnicos como os que um dos protagonistas (o garoto) encontra pelo caminho? Mesmo os próprios personagens que vivenciam os flashes mostrados de algum além possível são obrigados a reconhecer a probabilidade de essas visões fugazes serem fruto de uma alucinação provocada por traumatismos decorrentes dos acidentes que sofreram em algum momento da vida. As tais sessões de “comunicação” realizadas a contragosto pelo personagem de Matt Damon nos são transmitidas unicamente por seus relatos, não por visualizações coloridas e exageradas do que ele pudesse estar enxergando. É tudo sóbrio, direto, sem firulas ou rebuscamentos.

Os três personagens centrais de Além da Vida manifestam insatisfações variadas com suas vidas, independente se vítimas ou não, todos são parte de um grande acaso que é a humanidade, que entre outras coisas faz com que um dos garotos escape de um desastre no metrô, ou antes ainda, seja o irmão e não ele quem sofra as consequências de um acidente tão perto da casa onde moram. Na América, George (Matt Damon) é um condenado a relações fadadas a não se consumar, e com potencial, mas sem vocação, para se tornar o guia espiritual incentivado por seu irmão Billy (Jay Mohr). Seu dom mediúnico não é uma benção, mas uma maldição, é o que George tenta lhe explicar, tendo, consequentemente, sofrido com isso desde muito tempo, por praticamente não poder tocar em quem lhe interessa, sem consequências desagradáveis (o que resulta nas cenas de Damon com a personagem de Bryce Dallas Howard, talvez as mais belas do cinema americano nos últimos dois ou três anos).

O filme, na verdade, começa com o famoso e trágico tsunami de 2004, no qual Marie (Cécile de France), uma apresentadora francesa de férias com o namorado em uma praia no Japão, sobrevive após uma experiência de quase-morte. Uma menção especial à cena do tsunami, com mais eficácia e autenticidade que qualquer outra sequência de desastre no cinema contemporâneo. Quanto a Marie, após o breve período entre vida e morte, passa a enxergar e se interessar de maneira diferente pelas coisas terrenas, como se nascesse de novo — o que em momento algum é mostrado como algo edificante, apenas como parte de uma rede de ações e transformações que perpassam ao longo do filme.

O vértice do triângulo de histórias é em torno dos pequenos gêmeos ingleses Marcus e Jason (vividos por Frankie e George McLaren), que cuidam da mãe problemática e desempregada até a inevitável separação. Não é um filme sobre os mortos, mas sobre o apego dos vivos por aqueles, como Marcus preservando em si próprio o antigo chapéu de sua metade que partiu. Os filmes de Clint quase sempre são sobre algum determinado acerto de contas, de seus personagens consigo mesmos (e suas consciências) e frente aos outros, e de um processo de conciliação (ou reconciliação), e Além da Vida não poderia ser diferente. Um filme notável em sua busca bem particular para dar corpo a um encontro: o de duas solidões que se procuram.

Copacabana Mon Amour (Rogério Sganzerla, 1970)

Para início de conversa, uma cena retumbante: Copacabana como microuniverso do mundo-Brasil, todas as cores e contradições banhadas a um sol de deixar qualquer um lelé. De cima do morro ouvimos o narrador cantar a pedra da incrível genealogia que fez surgir Sônia Silk (Helena Ignez). Ela, seu vestido vermelho e sua oxigenada cabeleira contemplam com aflição o reino que lhe cabe como latifúndio.

Assistir aos filmes de Sganzerla hoje e escrever sobre parece bastante oportuno. Em meio a esse novo momento, em que o Brasil se vê em condições de traçar o próprio caminho político e uma boa discussão sobre os retrógrados rumos que o novo ministério da cultura vem tomando ocupam as páginas dos principais jornais e redes sociais, o pós-tropicalismo de Sem Essa, Aranha e Copacabana Mon Amour recriam verdades brasileiras anteriores, aspectos ancestrais captados pela antena sensitiva de Sganzerla.

Num tempo em que estivemos desautorizados a definir a palavra futuro, tudo o que restava para ser pensado aguardava alguém que o soubesse conceituar, justamente como agora. Nosso bandido predileto tomou pra si a responsabilidade, como o ouvimos dizer no documentário A Miss e o Dinossauro: “Falei o que eu acho porque tô interessado em transformar, porque o cinema é um fator transformador. Agora, se ninguém se tocar, a responsabilidade é minha, mas a culpa é dos outros”.

Seriam necessárias várias análises de fôlego que pensassem os aspectos políticos e estéticos (esses dois âmbitos indissociáveis e horizontais) ainda que o diretor afirme seguir por uma lógica do sexto sentido, sem conceitos apriorísticos ou lógica pré-concebida. Ainda assim é possível dizer que Sganzerla produziu a recombinação entre uma antropofagia revisitada unida a toda carga de cultura pop que permeia o mundo-Brasil. Pop de popular, um pouco diferente do pop de Warhol. Pop de macumba, de cerveja no bico da garrafa e pedintes que falam um inglês fuleiro.

Alheios à pajelança criada, os personagens desfilam suas incoerências, exemplificando em unidades celulares a relação do país com sua realidade em conflito, e Rogério Sganzerla constrói imagens com mais força que as 500 páginas de um tratado de sociologia brasileira, triunfando ao significar culturalmente o Brasil a partir dele mesmo. Aos críticos cabe  assinalar que ele foi ajudado pela plasticidade das imagens, em projeto que poucos acadêmicos conseguiram igualar, talvez pela dureza dos academicismos.

Um movimento instigante e ao mesmo tempo feio/belo de ser visto. Os personagens, a paisagem, as cores captadas, guardam em si signos de potência e degradação do qual a narrativa retira sua força. Copacabana morro e praia como espelho da dicotomia sufoco e colosso. Corpos abandonados à deriva num presente contínuo, sem perspectivas de futuro.

Assim é que conhecemos Sônia Silk, mulher que perambula absorta numa espécie de solipsismo vertiginoso ou embriaguez de todo sempre, impedida de enxergar o que lhe espera pela frente, mas consciente da força de sua beleza e dos inevitáveis jogos de azar a que isso a transporta. Sonia maldiz a pobreza, a velhice, os tarados, enquanto é perseguida a todo canto por um fantasma com o qual já aprendeu a conviver. Vidimar (Otoniel Serra), o irmão de Sonia, também berra seus desejos e delírios a beira mar, admitindo a paixão-tabu por seu patrão.

Entre delírios de sol escaldante e pontos de macumba, todas as forças e orixás convocados para se contar essa história apenas reforçam a crueza da realidade subdesenvolvida nas capitais brasileiras em época de desenvolvimentismo, palavra escabrosa que hoje reaparece no cenário político, mais uma vez envolvendo as mãos em nossos pescoços, suplicando furiosa para que calemos nossa potência monstruosa, essa tal antropofagia, coisa que aprendemos a desenvolver desde o primeiro choro, quiçá ainda na barriga de mamãe.

E tudo que se conta e se mostra em Copacabana Mon Amour é fruto desse inconformismo, de se saber fera e de se pôr oxigenada, e mesmo assim ter as forças contidas por inimigos vorazes (fome, miséria, analfabetismo, calor) que nos puxam as rédeas sempre que ousamos mostrar os dentes e dizer que viemos ao mundo pra triunfar a despeito de todas as mazelas.

E Sganzerla se põe como o cronista desse assassinato a luz do sol, assassinato em massa da potência cultural brasileira. Ele nos põe cúmplices apenas para que passemos o resto dos dias com o peso de saber que nossa força emana de algo muito particular que nem nós mesmos compreendemos, mas que ajudamos a matar um pouquinho cada dia. Cada um de nós um pouco Soninha Silk, feras incompreendidas.