2º – Alecsander Portilio

Avaliações:

Luis Henrique Boaventura

Sofre de uma densidade teórica que, diferente dos outros textos, não chega a atrapalhar drasticamente, apenas situa a visão do Alecsander dentro de uma linha lógica entremeada de uma bagagem que vai além da experiência de assistir 2001, simplesmente. Não que eu condene a intertextualidade, apenas não vou com a cara do uso abusivo de nomes, livros, teorias, estudos, quando as referências deixam de ser referências para se tornarem objeto principal do texto, entregando a opinião a um plano de fundo, o que acaba ocorrendo em determinados momentos limitados à menção de fatos e possíveis linhas de interpretação.

Mas curti o texto. Apesar de meio longa, gostei da introdução relatando a experiência e a relação do Alecsander com 2001, num tom mais pessoal que só viria a ser retomado no último parágrafo, infelizmente. E tá bem escrito e tal, o Alecs já tem um ‘estilo’ mais saliente, um jeito mais próprio e seguro de si pra escrever.

6/10

Daniel Dalpizzolo

Bastante ligado ao extra-filme, ou melhor, ao extra-extra filme, à herança. Mas bem escrito e com algumas coisas que seguram as pontas.

5/10

Daniel Costa:

O texto começa lindo, implorando por 10 (e recebendo até então), mas daí resolve contar como Kubrick e Clarke conceberam o filme… Daí pra frente é ladeira abaixo. O texto melhora mais pro final, mas ficou uma sensação de gozo interrompido pelo autor não ter explorado mais a experiência de ver o filme…

6/10

Vinícius Veloso Garcia:

Gostei desse começo do seu texto, foi sincero, verdadeiro, passou isso a quem lê, mas a hora que achei q ia ficar bom, vc me veio com um monte informações retiradas de outro lugar… ahhhh, isso não é uma monografia, é uma resenha, pô, tem que ser criativo, não se prender somente as informações do filme.

Mas só pela coragem de falar das coxas desnudas da polaca loira Xuxa, hahaha…  vou dar um desconto, pq pelo menos me fez rir.

3/10

Cassius Abreu

Alecs, seu texto tem bastante paixão e eu gosto disso – algo que (quase) todos os outros tentaram evocar, porém sempre sem mostrar bem. Apesar de exagerado ao extremo e misturar “Laranja Mecânica” furtivamente no final do seu texto, o penúltimo parágrafo vale algumas gorduras ao longo dos demais. Pena que há pequenos derrapões, como a referência a “AI” como ‘presepada’ (ou deixa a obra intocada ou explane-a, o que seria desnecessário, afinal, falamos de “2001”) e a sua própria contradição em buscar explicações e entendimentos para obra quando afirma que o que vale mesmo é o sensorial – por sinal, a sua oração que determina esta opinião foi um dos exageros descabidos, por mais que vá de encontro com o que muitos de nós viemos dizendo ao longo até de nossa existência cinematográfica, haha. Só não ganhou tantos pontos porque a leitura não flui muito bem, por causa das historinhas – que ainda que não digam exatamente o beabá do filme em si, serve como extra de DVD e queremos sua opinião – mas só por colocar opiniões em um parágrafo e contar uma historinha (que, pô, eu até gostei, mesmo que forçada) sobre toda a aura em volta do filme, já considero o texto como melhor – ou será que é porque foi o que julguei por último e já estava dormindo?, haha.

6/10

Total: 26 pontos

Texto:

2001: Uma Odisséia no Espaço (1968) (4/4)

Não lembro exatamente da primeira vez em que escutei o nome do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, mas certamente eu ainda usava calças curtas (usava?) e estava mais preocupado em assistir Jaspion e A Caverna do Dragão do que fazer qualquer outra coisa. Eventualmente, também nesta época, dividia o tempo entre um ou outro passeio junto com minha avó paterna que me criou até os 7 ou 8 anos, já que meus pais trabalhavam quatrocentas horas por dia. Na TV, lembro da primeira Guerra do Golfo, das novelas da Globo e, inevitavelmente, do programa da Xuxa. Essa polaca-cor-de-camarão que saiu de um filme proibido de Walter Hugo Khouri para me abusar sexualmente a cabeça com suas coxas desnudas e sua nave estelar tosca de papel crepom. Se era difícil conhecer o filme, imagine o diretor: nem pelo sagrado Daileon eu saberia quem era esse judeu.

Mas, como a gente cresce e os interesses mudam, lembro que a primeira vez em que 2001 sorriu para mim eu tinha 18 anos e estava na casa da avó da minha primeira namorada. Esse sorriso vale também para o ano, já que essa era a exibição do filme na virada do milênio, no dia 31 de dezembro de 2000. Tudo o que eu sabia até então se resumia aos macacos: “o filme dos macacos”. Já tinha topado com ele outras vezes, em apresentações semelhantes, mas nesta idade eu nutria um forte sentimento por experiências não muito longas e que rendessem um prazer acachapante inigualável a qualquer outra coisa, se é que me entendem. Algum tempo depois, pouco antes da faculdade e definitivamente seqüestrado pelo cinema resolvi dar as caras para o filme e o assisti, finalmente. Não entendi quase nada do que tinha assistido, mas sabia que era grandioso demais para minha cabeça adolescente. A única coisa que eu disse foi: “Que porra é essa?”. E foi isso. Durante os últimos anos assisti o filme incansavelmente na esperança de entender uma pequena porcentagem a mais de cada vez. Com a ajuda de alguns livros, é possível hoje, além de entendê-lo, tecer algumas ramificações que extrapolam a obra e revelam algumas inspirações de Kubrick, bem como servem para atestar que ficção científica não é feita só de monstros e efeitos especiais. O mais importante desses livros é de Amir Labaki, com o mesmo nome do filme, editado pela Publifolha em 2000, do qual tiro grande parte das informações deste texto.

No então remoto ano de 1948, Stanley Kubrick já tinha uma certa carreira de fotógrafo na revista Look e casava com sua primeira esposa. Enquanto isso, Arthur C. Clarke, um especialista em radares da Segunda Guerra, criador do conceito de satélite geoestacionário e ávido fã de ficção científica inscrevia uma de suas histórias curtas, A Sentinela, em um concurso literário realizado pela BBC de Londres, onde foi derrotado. Quase vinte anos depois, Clarke já era um escritor consagrado da ficção científica, celebrado principalmente pelo conto O Fim da Infância, de 1953. Nesta época Kubrick já havia lançado Spartacus, Lolita e acabara de finalizar Dr. Fantástico. Embora se saiba que o diretor nutria curiosidade pelos filmes passados no espaço desde 1957, foi só em 1964 que Kubrick seu agente Roger Caras discutiram alguém para colaborar com o roteiro de um projeto propriamente dito. Caras logo aconselhou procurar o melhor, e em 20 de maio do mesmo ano Arthur C. Clarke assinou contrato com Stanley Kubrick a cerca dos direitos de sete contos e histórias curtas, incluindo A Sentinela.

Convencido por Clarke de que A Sentinela fornecia um material narrativo mais rico, Kubrick concordou em utilizá-la como a fonte primordial para o que seria o inicio do projeto de 2001. A estória de nove páginas relatava a primeira vez em que o homem encontrava com uma prova de vida inteligente no universo, antes que a existência de vida na Terra existisse. Esse seria o ponto central de 2001: Uma Odisséia no Espaço, título sugerido por Kubrick um ano depois do inicio do projeto. Há ainda a adição de uma outra novela de Clarke, Encounters in the Dawn, que corresponde ao primeiro ato de 2001, A Aurora do Homem. Os dois concordaram também em uma parceria para desenvolver ao mesmo tempo um romance e depois um roteiro que daria vida ao filme. Depois de várias reuniões, o roteiro ficou pronto em dezembro de 1965 e pouco depois começaram as filmagens nos estúdios da MGM em Shepperton, perto de Londres. Um mês depois Clarke terminou o romance e Kubrick tomaria 1966 e 1967 com filmagens e pós-produção. O filme ficaria pronto para as telas somente um mês antes do lançamento em 1968. No entanto, filme e livro revelariam experiências bem diferentes uma da outra.

De cara, a maior diferença relatada até mesmo por Kubrick e Clarke entre o romance e o filme é a explicação. Enquanto o livro de Clarke explica demasiadamente todos os acontecimentos, como convém à literatura, Kubrick optou por imbuir 2001 de uma aura de arte, grandiosidade e uma notória “falta” de texto. Das mais de duas horas e meia de filme, existem pouco mais de 40 minutos de diálogos. É como se tivéssemos, exemplarmente distintos a história do livro, a do roteiro e a que está na tela. E, é claro, que conhecendo hoje o estilo e a obsessão de Kubrick pela experiência cinematográfica, devem ter existido pelo menos uma mão cheia de versões para o filme antes de seu diretor o declarar pronto para projeção. Até mesmo após a apresentação especial para executivos do estúdio, Kubrick cortou várias cenas ao longo do filme que “o explicavam demais”. Depois das primeiras sessões de lançamento cortou mais 17 minutos, e mesmo assim, ele não perdeu significado, em contrapartida, talvez tenha ganhado em quesito obra-prima. Devo louvar essa decisão, pois filmes “explicados” acabam com a experiência sensorial da obra cinematográfica e o torna um produto barato da teoria hipodérmica (nossa! De onde veio isso?).

A recepção não foi das melhores e a crítica especializada dividiu opiniões à cerca do que via na tela. Existiram as mais diversas reações como gente deixando as salas e até mesmo algumas risadas dependendo das atitudes dos macacos na tela. Logo, Kubrick viu seu filme taxado de vazio, pretensioso, grotesco e amador. Sobretudo a crítica defendia que o diretor deveria ter usado “mais palavras”. Dias depois, no New York Times, em entrevista a William Kloman, Kubrick não fez referência a nenhuma crítica específica, apenas disse, com muita elegância: “Isso, claro, é parte da psicologia de resenhadores presos à palavra. Há certas áreas da realidade, ou da irrealidade, ânsia interior, chame isso como quiser, que são inacessíveis a palavras”. É claro que, paralelamente, o filme também despertava ótimas críticas positivas. Mas, a verdadeira intenção do cineasta tinha sido alcançada. Ele queria fazer “uma experiência intensamente subjetiva que alcançasse o espectador em níveis muito íntimos de consciência, como a música faz”.

Existem as referências clássicas de Kubrick no filme. Uma delas está em a Odisséia, referida já no título e ao longo da jornada homérica do herói Bowman à “Júpiter e Além do Infinito”; outra está na mitologia de que todo o herói constitui a elipse da volta para casa, enraizada na obra do antropólogo Joseph Campbell em O Heróis das Mil Faces, a volta de Bowman, no entanto, é acompanhada de uma transformação radical. É nesta transformação que está a mais forte referência de Kubrick, que começa exatamente na música, quando ele evoca a filosofia de Nietzsche a partir da sinfonia Assim Falou Zaratustra, leitura de Richard Strauss para a obra literária homônima. A transformação do homem ao longo do filme acompanha a teoria evolutiva humana de Nietzsche. Essa tal obra, fundamental para compreender a filosofia nietzscheana do super-homem, é, assim como 2001, dividida em três atos: o do homem-macaco, a do homem como conhecemos hoje e a do super-homem. Vemos no filme respectivamente A Aurora do Homem, a epopéia de naves especiais dançando ao som de Danúbio Azul, e o aparecimento da estrela embrionária. Dessa forma, Nietzsche explica: “ E o grande meio-dia será quando o homem se achar na metade de sua trajetória entre o animal e o super-homem e festejar o seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança. […] o que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.”

Kubrick deixa mistérios no ar como se soubesse de algo que todos os outros não sabiam sobre a jornada da vida humana. Inteligência artificial, a evolução do homem, a relação do homem com a máquina, o domínio da máquina, a soberania do homem sobre a máquina, a existência de vida extraterrestre, o encontro do homem com o extraterrestre, a interferência de entidades extraterrestres dotados de inteligência artificial (máquinas) na evolução do homem. Essa última parece se adequar mais ao filme. 2001 é um filme de elipses e elas se fecham sempre no aparecimento do monólito, existindo também uma grande elipse entre a aurora do homem e o aparecimento da estrela embrionária. Mas não é só dentro do filme que aparecem as elipses, elas estão também, na vida real, Pois, exatamente em 2001 veio às telas pelas mãos do Spielberg A. I. – Inteligência Artificial, antigo projeto de Kubrick sobre um robô-criança que lida com a rejeição do homem à máquina. Tirando a presepada de Spielberg na maior parte do filme, seria a evolução do homem um caminho à mistura entre orgânico e mecânico? Ou seria a nossa morte uma passagem para um estado consciência superior chamado por Nietzsche de “super-homem”? Respostas para tantas perguntas só quem sabe é Kubrick, afinal ele já passou para “além do infinito” e infelizmente não teve tempo de nos presentear com sua própria visão de Inteligência Artificial, que seria seu próximo projeto depois de De Olhos Bem Fechados.

Existem muitas outras influências e outros assuntos na obra de Kubrick e também em 2001, mas fico por aqui. Por fim, em uma ridícula, previsível e estapafúrdia elipse, 40 anos depois de o mundo ter visto a mais extraordinária obra cinematográfica de todos os tempos, escrevo essas palavras exasperadas, meio copiadas, meio concebidas, para dizer que me sinto grato por ter tido a chance de participar do que Kubrick chamou de “uma experiência intensamente subjetiva que alcançasse o espectador em níveis muito íntimos de consciência, como a música faz”. Desta forma me sinto muito mais próximo do diretor do que poderia estar. Mas, afinal, não é essa a importância da arte? Como dizia o cartaz para atrair os hippies regados à LSD: “ a viagem máxima”. Agora, toda a vez que pego minha cópia de 2001 me preparo para uma ultimate trip. Mais do que todos os outros diretores, Kubrick fez de cada um de seus filmes uma dose cavalar de ultraviolência em cada sessão, nosso próprio tratamento ludovico. A questão é: você já tomou seu moloko com vellocet hoje? Eu já.   

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