
Antes de se iniciar a escrita de um texto sobre injustiças feitas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – ou de ler um texto a respeito – é necessária a boa premissa de que o Oscar é um prêmio do cinema americano, feito no cinema americano e para o cinema americano. Então é um pouco superficial e sem fundamentos reclamar sobre ausência de reconhecimento de grandes profissionais do cinema mundial, aqueles que fazem (ou fizeram) filmes com um “tipo menos Hollywood de qualidade”, na festa do Oscar, dentro ou fora da categoria de filme estrangeiro. E até mesmo dentro desta, não há muita coerência em se exigir coerência, já que a comissão de membros que votam na categoria (único caso na premiação, já que o restante das categorias é votada por membros de cada departamento, para as indicações, e por todos os votantes, para a premiação em si) é formada por senhores de certa idade, que não estão muito interessados em arroubos de criatividade e genialidade que fujam da sua já confortável burocracia. Ultimamente, a Academia busca uma renovação de sua visão de cinema, digamos assim, abrindo as portas para trabalhos estrangeiros (ano passado, o Oscar de melhor atriz foi para a performance falada em francês, de Marion Cotillard, em Piaf, somente a segunda atriz na história a ganhar falando em uma língua não-inglesa) e com abordagem para um cinema global. Caso substancialmente importante é o provável campeão do Oscar deste ano, Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, profanado aos quatro cantos como um casamento necessário entre Hollywood e Bollywood. Portanto, apesar de qualquer intenção da Academia no que concerne a uma interação maior com o cinema de terras estrangeiras, é sim uma premiação local e deve ser vista assim.
Dito tudo isso, nada no mundo é mais divertido – e em alguns casos, revoltante – que falar mal dos “erros do Oscar”, aqueles esquecidos inacreditáveis, que em muitos casos geram uma série de erros consecutivos. Um caso interessante e primordial foi o que ocorreu com Bette Davis, em 1934, quando a atriz não havia sido indicada ao prêmio por Of Human Bondage e o burburinho na imprensa especializada foi tão grande que a Academia abriu para que as pessoas votassem, de última hora, em Davis, mesmo sem ter sido oficialmente indicada. Davis perdeu o prêmio, mas no ano seguinte foi recompensada com seu primeiro Oscar, por Perigosa, uma atuação que ela mesma sempre classificou como medíocre. E o prêmio foi dado a ela em detrimento de Katharine Hepburn, num trabalho infinitamente superior em Alice Adams, que muito provavelmente perdeu o prêmio por ter levado dois anos antes seu primeiro Oscar. Ou seja, muitas vezes a matemática dos anos gera uma bola de neve que pode ter efeitos muito maiores e patéticos, no futuro. A própria Bette Davis saiu prejudicada, muitos anos depois, quando concorria por A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz, o filme que ressuscitou sua carreira e que é tido como seu melhor, até hoje. Davis concorria ao prêmio com outro “retorno” de Hollywood, naquele ano, Gloria Swanson, em Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, e possivelmente o poder hipnótico dos dois trabalhos dividiram os votantes, que acabaram escolhendo outra atriz no lugar, Judy Hollyday, em Nascida Ontem, de George Cukor, que tinha um trabalho muito menos marcante, mas que levou pela dúvida. Um erro duplo, considerado por muitos como um dos mais ridículos, da categoria de melhor atriz. Humphrey Bogart, não-premiado pelos fantásticos trabalhos em Casablanca ou O Tesouro de Sierra Madre (pelo qual nem foi indicado), recebeu seu único prêmio em 1952, numa boa atuação em Uma Aventura na África, de John Huston, mas que nem de longe tem a mesma potência – e importância – do marcante segundo trabalho de Marlon Brando, fazendo eterno seu Stanley Kowalski, em Uma Rua Chamada Pecado, abrindo caminho para milhares de atores que seguiriam sua esteira (como o próprio James Dean, não-premiado duplamente por suas performances devastadoras em Vidas Amargas e Assim Caminha a Humanidade). Até mesmo a postura distante do desempenho em si pode prejudicar um ator, como o caso de Ingrid Bergman, que levou em 1975 um terceiro Oscar por sua atuação coadjuvante em Assassinato no Expresso Oriente, de Sidney Lumet, e pediu desculpas a Valentina Cortese por levar o prêmio que deveria ser dela, por A Noite Americana, de François Truffaut (que por sinal, era um filme do ano anterior) num erro da Academia. Bergman estava certa, Cortese era a melhor atriz daquele ano, mas a rebeldia lhe custou, como reza a lenda, seu quarto prêmio em 1979, por Sonata de Outono, de Ingmar Bergman, seu último e melhor trabalho.
Contexto histórico e política, em quesitos alheios ou não à própria indústria do cinema, podem causar derrotas na premiação injustificáveis. Frank Capra, queridinho da Academia desde sempre, acabou perdendo um quarto prêmio por seu filme mais famoso, A Felicidade Não se Compra, por conta do trabalho contextualizado no pós-guerra Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler, um bom filme, mas que depois acabou de provando muito menos relevante que a obra-prima de otimismo de Capra. Cidadão Kane, que volta e meia figura no topo de uma lista de melhores filmes de todos os tempos, perdeu quase todos os prêmios a que foi indicado no Oscar de 1942, justamente pela manipulação de mídia do biografado não-oficialmente, William Randolph Hearst, que ameaçava quem quer fosse que reconhecesse o filme. A indústria se acuou e lançou o filme a um limbo, do qual só foi retirado anos depois, por críticos franceses da Cahiers du Cinema, que finalmente reconheceram a importância do trabalho de Orson Welles.
Foi a mesma turma, liderada por Bazin, que “descobria” o talento injustiçado de inúmeros autores do cinema americano, quase nunca devidamente honrados pela crítica especializada, e muito menos pelo Oscar. Caso de François Truffaut, com Alfred Hitchcock, tido hoje como um dos maiores diretores de cinema da história, e que por muito tempo era tido nos Estados Unidos como um mero operário de estúdio. Hitchcock nunca levou um Oscar de direção, ainda que tenha conseguido que uma produção sua tivesse recebido o prêmio mais importante do ano, Rebecca, a Mulher Inesquecível, melhor filme em 1941 (que inclusive, foi agraciado quando outros tantos mereciam mais, como As Vinhas da Ira ou O Grande Ditador). Nicholas Ray foi outro expoente do cinema americano, louvado pelos franceses da Cahiers, e basicamente esquecido pelos compatriotas. Ray só teve uma indicação ao Oscar pelo roteiro de Juventude Transviada – e perdeu – e nunca obteve real valor por obras-primas como No Silêncio da Noite e Johnny Guitar completamente esquecidas.
Outros grandes mestres do cinema americano, mesmo que indicados ao Oscar, acabaram sendo premiados, ou por trabalhos de menor expressão ou por pura compensação. John Ford, por exemplo, foi indicado ao prêmio de direção cinco vezes, levou quatro delas, nenhum dos prêmios por um western, a especialidade do diretor. Das grandes obras de estudo do oeste americano de Ford, somente No Tempo das Diligências foi indicado a melhor filme – e perdeu, justamente a quinta indicação não-premiada do gênio -, tendo O Homem que Matou o Facínora e Rastros de Ódio esquecidos completamente (sendo este ignorado no ano que o prêmio principal foi para o ridículo A Volta ao Mundo em 80 Dias). Martin Scorsese um dia disse, numa entrevista, que ganharia o Oscar de direção pelo seu pior filme. Não que Os Infiltrados seja esse pior filme, mas é evidente que é um prêmio compensativo pelas derrotas em anos anteriores, de obras-primas como Taxi Driver (pelo qual ele não foi nem indicado), Touro Indomável e Os Bons Companheiros. Ao menos Scorsese levou o seu, ainda que “menor”, caso que não ocorreu com Stanley Kubrick, um dos artistas mais complexos do cinema, que foi indicado quatro vezes ao prêmio de melhor direção (Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica e Barry Lyndon) e perdeu todos (o único prêmio de Kubrick foi pelos efeitos visuais de 2001).
Para as grandes injustiças do prêmio, a própria Academia criou o fatídico Oscar Honorário, uma espécie de mea culpa diante dos próprios grandes equívocos. Dentre os campeões do Oscar Honorário estão grandes atores não-premiados, como Gene Kelly, Greta Garbo, Bárbara Stanwick, Cary Grant, Deborah Kerr, Kirk Douglas, e mestres absolutos do cinema, como Ennio Morricone, Orson Welles, Howard Hawks, Jean Renoir, Akira Kurosawa, Federico Fellini (estes dois já haviam levado alguns prêmios de filme estrangeiro, somente), Satyajit Ray, Michelangelo Antonioni, Stanley Donen, Andrzej Wajda, Robert Altman e Sidney Lumet. Ou seja, dá para ver que a culpa é grande e uma reflexão sobre as tais injustiças pode ser interminável.
Portanto, eu buscarei um fim para o texto falando justamente da maior das injustiças do Oscar, segundo a própria história do cinema e as considerações da Academia: em 1972, Charles Chaplin finalmente recebeu seu Oscar, sendo ele um revolucionário do próprio caminho da sétima arte, sempre ignorado pelos seus semelhantes. O momento é considerado um dos de maior emoção dentre as cerimônias do prêmio, ainda mais pela humildade de Chaplin em recebê-lo tão tardiamente. Esses prêmios não compensam, de verdade, os reconhecimentos devidos que os profissionais deveriam ter em suas épocas de maior evidência, e isso continuará acontecendo por muitos e muitos anos por vir, enquanto essa tradição da Academia durar. Atualmente, chega a aliviar ver diretores de qualidade indubitável estarem na lista de premiados do Oscar, como Clint Eastwood ou os irmãos Coen. Mas será que chegará o dia de James Gray, Michael Mann, David Cronenberg…? Muitas listas de injustiças ainda virão.
*como curiosidade, a maior injustiça do Oscar, na minha opinião, foi a completa esnobada em O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton, simplesmente um dos melhores filmes do mundo.
Thiago Macêdo Correia
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