
Na maioria dos filmes de suspense/terror, normalmente os personagens principais se vêem acuados por uma força extremamente amedrontadora e intimidadora (seja ela um assassino em série, um espírito maligno, um ser de outro planteta) que seria, até certo ponto, impossível de doma–lá. Mas se, por um acaso, esses personagens fossem atacados por criaturas que, até onde alcança o nosso conhecimento, não nos fariam nenhum mal?? De certa forma, é o que Hitch aborda em “Os Pássaros”, filme que sucedeu o grande sucesso de crítica e público “Psicose” (e, provavelmente, o seu filme mais conhecido).
Nesse filme, temos a pacata cidade de Bodega Bay, na Califórnia, vive momentos de terror quando milhares de pássaros se instalam na localidade e começam a atacar as pessoas. Um enredo simples, talvez até difícil de se imaginar sendo desenvolvido durante as duas horas de filme. Mas Hitch consegue desenvolvê–lo com maestria, além de conseguir causar uma tensão poucas vezes vista em um filme.
Logo nos créditos iniciais, já temos uma boa idéia do que será o filme: não há trilha sonora (como, aliás, em todo o filme). apenas os créditos mostrando os dados usuais do filme (nome, diretor, roteirista, atores), com imagens de pássaros voando descontroladamente (além de ruídos feitos por eles). Isso cria, antes mesmo do filme começar, uma sensação de que o filme será diferente de outros dirigidos por ele (isso será explicado mais adiante).
Se os créditos iniciais cumprem o esperado (preparar o telespectador para o clima de tensão), o primeiro ato do mesmo serve justamente para quebrar essa sensação. O que vemos é um típico início de uma comédia romântica, com os ingredientes típicos de um filme de Hitchcock: a loira estonteante – no caso, Melaine Daniels (“Tippi” Hendren, em sua estréia no cinema); o “homem comum”, eternizado em seus filmes por Cary Grant e James Stewart (no caso, Mitch Brenner, aqui interpretado por Rod Taylor); o típico humor característico dos seus filmes; a trama amorosa entre os dois personagens principais. Entretanto, através de certos detalhes inseridos na trama (como, por exemplo, a revoada de pássaros observada por Melaine pouco antes de entrar na loja de pássaros), Hitch nos mostra que algo de estranho está por acontecer.
Nesse primeiro ato, temos o encontro entre Melaine e Mitch Brenner (que acontece de forma inusitada) na loja de pássaros. À princípio, Melaine não se interessa por Mitch (especialmente por ele ter judiado dela). Mas, logo depois, ela se vê bastante intrigada em relação àquele homem, e decide, por conta própria, presenteá-lo dois periquitos (que ele pedira na loja de pássaros para dar de presente a sua irmã). Como ele não se encontrava presente em sua residência, Melaine decide ir até Bodega Bay, a fim de concretizar sua pequena ”vingança”.
Aliás, nesse trajeto percorrido por ela (primeiro de carro e depois de barco), vemos a maestria da direção de Hitch: toda a cena é conduzida sem diálogos ou trilhas, apenas com imagens. Mas a beleza dessa cena não advém apenas de um retorno ao cinema mudo: Hitch, como grande manipulador, mantém o estado de tensão constante, à medida de Melaine se aproxima da casa de Mitch. A partir do motor do barco ligado, a câmera mostra, alternadamente, a visão de Melanie da casa de Mitch do outro lado da baía e um plano objetivo em que se vê o barco vindo de frente e a vastidão do mar e do céu ao fundo. Essa alternância de planos e a longa duração da sequência, que mostra todo o percurso de Melanie, sugere ao espectador que algo de extraordinário está na iminência de acontecer. O suspense é garantido até o final da seqüência, quanto Melanie faz o caminho de volta de barco (com Mitch a seguindo de carro pela costa): o ataque inexplicável de uma gaivota à Melanie.
Aqui, cabe explicar o por quê desse filme ter um tom um tanto quanto diferente de outros de Hitchcock: Aqui não há um assassino, e sim uma série de acontecimentos que, ao final, não serão resolvidos! Isso mesmo, não espere que Hitchcock mastigue para você toda a filosofia existente dentro de Os Pássaros. Há um constante tom sobrenatural, e isso ajudou bastante a não haver essa necessidade para o filme. Isso pode ser considerando um ato de coragem por parte de Hitch, pois não podemos esquecer que esse filme sucede “Psicose”, talvez o grande sucesso dele. O filme que seguiria seu grande clássico teria de ser bom o bastante para agradar aos fãs, sedentos por uma nova história que fosse tão boa quanto a anterior.
A partir dessa cena, temos o início do segundo ato: depois do ataque deliberado do pássaro à Melanie, somos apresentados aos outros personagens residentes de Bodega Bay: a irmã de Mitch, Cathy Brenner (Verônica Cartwright, aqui com 13 anos de idade); a mãe de Mitch (interpretada por Jessica Tandy), além da professora de Cathy e ex–namorada de Mitch Annie Hayworth (interpretada por Suzanne Pleshette), que hospeda Melanie durante a sua estadia e Bodega Bay. Ao mesmo tempo, Hitch, ainda nos preparando para o “prato principal”, nos mostra maiores indícios de que algo estranho está acontecendo naquela cidade: pássaros que não param de migrar; galinhas que se recusam a comer a ração; pombos voando deliberadamente em direção a porta, entre outros. Todos esses fatos culminando no que determina, na minha opinião, o fim do segundo ato: O ataque dos pássaros à festa de aniversário de Cathy. Tudo isso conduzido com a maestria de Hitch na direção.
A partir desse ataque, temos o terceiro ato: cada vez mais ataques acontecem na cidade. Aqui, cabe ressaltar a qualidade técnica do filme: poucos filmes são tecnicamente perfeitos como esse. A edição primorosa, o trabalho primoroso de maquiagem (especialmente nas pessoas vitimadas pelos pássaros), a equipe de efeitos especiais (que fez um dos trabalhos de pintura em matte e chroma key mais primorosos do cinema), todos fizeram um trabalho perfeito. Uma cena que evidencia isso é o ataque dos pássaros ao posto de gasolina, especialmente na cena em que Melanie está presa na cabine telefônica. Essa cena mostra outro aspecto técnico bastante apurado do filme: o fato da diversa sobreposição de películas para criar três camadas na tela. A primeira película tinha Melanie dentro da cabine telefônica, com alguns pássaros atingindo o vidro para ficar real; a segunda camada era alguns pássaros animados que ficavam passando de um lado para o outro em tom ofensivo; e a terceira camada era simplesmente uma pintura! Isso mesmo, usaram uma pintura de fundo e ela ficou simplesmente PERFEITA, irreconhecível, parece até cenário de verdade. Filmado uma película de cada vez, juntaram as três na edição e montaram a aterrorizante cena.
A direção de Hitch não fica atrás e mostra um dos trabalhos mais primorosos aqui, com perfeito domínio da câmera e do efeito que esta irá causar no telespectador. Um exemplo clássico disso é a cena do ataque dos pássaros ao colégio de Cathy: Enquanto Melanie espera no banco do lado de fora do colégio, vemos a câmera acompanhar o vôo de um corvo; em seguida, a câmera foca Melanie e, ao fundo, vemos três pássaros pousados em um cercado; a câmera volta a focar o vôo do pássaro anterior, cortando em seguida para o rosto de Melanie, até que o pássaro pousa no cercado; quando vemos o cercado, temos dezenas de pássaros pousados nele, como se estivessem prontos para o ataque. Essa é uma das cenas mais aterrorizantes do filme para mim, e que mostra o controle absoluto de Hitch na direção a fim de causar a tensão constante ao telespectador. Tensão essa que percorre todo o restante do filme, seja pelos ataques repentinos dos pássaros, que invadem a casa de Mitch Brenner; ou pelo silêncio ensurdecedor que precede (e sucede) o ataque dos pássaros, não dando nenhum momento para o telespectador “decansar”.
Aqui vale ressaltar um dos elementos fundamentais geradores da atmosfera de tensão que recobre quase todo o desenrolar do filme: a falta de explicação do súbito comportamento agressivo dos pássaros de Bodega Bay. O que dá margem, inclusive, à uma sequência deliciosamente cômica, quando vários do habitantes da região discutem sobre o problema dos pássaros em um bar, com destaque para o contraste entre a ornitóloga cética e o bêbado apocalíptico. O absurdo do comportamento dos pássaros que, inexplicável e violentamente, agridem as pessoas às enxurradas e de modo intermitente, acaba por aumentar a angústia do espectador, que não sabe o que esperar para a cena seguinte. Aí é que Hitchcock brinca com nossas expectativas, nos surpreendendo com um violento ataque ou com uma, não menos estranha, quietação momentânea dos pássaros.
Outro ponto importantíssimo a ressaltar é a trilha sonora. Ou, melhor dizendo a ausência dela. Hitch, a fim de criar uma tensão cada vez mais constante, optou por usar apenas efeitos sonoros, além de se utilizar de ruídos (feitos a partir de enormes sintetizadores), especialmente de pássaros. Isso ajudou a criar um clima de tensão constante, que uma trilha sonora não conseguiria dar. Bernard Herrmann, grande colaborador de Hitch nas trilhas sonoras, foi classificado como consultor sonoro desse filme.
Por fim, temos a cereja que faltava para dar o toque final a esse filme: o “final”. Na verdade, não é um final clássico, visto que o filme acaba de forma bastante abrupta, o que com certeza incomodou grande parte do público (e que ainda incomoda muita gente). Após a angustiante fuga dos protagonistas a casa de Mitch, em meio a um sem–número de pássaros, em direção à ponte de São Franscisco, o filme é interrompido, sem a tradicional à época “The End”. O que pode parecer sem sentido param muitas pessoas, para Hitch (e todos aqueles que compartilham da sua visão) é apenas a fria constatação do cenário apocalíptico que os pássaros causaram àquela cidade e aos seus habitantes. Ao determinar essa escolha, Hitch “deixa no ar” se eles realmente conseguiram fugir dos pássaros ou não, levando o telespectador a pensar nisso depois do “fim” do filme, obrigando–o a carregar essa tensão para a saída do cinema. Esse foi mais um toque de mestre de Hitchcock.
“Os Pássaros” pode não ser a obra mais famosa de Hitch (ou mesmo a mais venerada), mas ela pode ser considerada uma das mais emblemáticas de sua vasta carreira. A sensação que se têm depois de assistir essa obra–prima é que, mesmo 48 anos depois, com todos os avanços tecnológicos surgidos desde então, poucos diretores teriam o detalhismo e o perfeccionismo necessário para executar tal façanha, além de coragem suficiente de fazer tantas escolhas que, a princípio, soariam equivocadas. E essas qualidades são dadas a poucos gênios cinematográficos. Hitch tinha isso e muito mais, fato que pode ser comprovado em suas seis décadas de carreira e quase o mesmo número de filmes. Era um dos poucos que sabia criar o suspense como ninguém, mesmo que esse suspense venha de criaturas que nunca imaginaríamos!
4/4
Adney Silva
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