Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Steven Spielberg, 2008)

Pense naquele seu avô, ou qualquer outro parente/amigo, que morava numa cidadezinha no interior e que jurava ou tinha um conhecido que jurava ter visto um grupo de luzes estranhas no céu, naquela madrugada de verão há doze anos atrás. Aproveitando que você já está na internet mesmo, abra outra aba do navegador e procure aí por “caso roswell” ou “roswell case” no Google; a primeira opção vai retornar por volta de 151 mil resultados — e são praticamente só páginas em português. Se tentar o segundo, 471 mil. Você pode, como eu, achar todas essas histórias de extraterrestres e discos voadores uma grande besteira, nada mais que uma leitura para se distrair num dia tedioso. Mas essa abundância de páginas apenas sobre um dos casos do gênero serve para provar o que todo mundo já sabe: esse tipo de coisa exerce um fascínio que não é difícil de entender; o gosto humano pelo que é desconhecido ou inexplicável, afinal, é até hoje um dos pilares do cinema-magia, do cinema como fábrica de sonhos, da era de ouro de Hollywood — e, mais que isso, é o pilar de todas as grandes histórias que sobrevivem ao tempo. E outra coisa inegável é que esse fascínio está longe de funcionar só com quem acredita. Quem, afinal, nunca perdeu lá seus minutos lendo alguma coisa sobre OVNIs na internet, ou parou de trocar de canais ao deparar com um programa bom ou ruim sobre o tema?

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, o aguardado retorno do arqueólogo às telas após um longo hiato de dezenove anos, é um mergulho nesse caldeirão de referências, mitos, histórias, lendas e tudo o mais ligado a um tema tão profundamente enraizado na cultura popular (e nisso há também a mão de Spielberg, com E.T. e, principalmente, Contatos Imediatos do Terceiro Grau). Sim, isso significa que o filme é atolado de clichês, que você não vai achar muita coisa nova, que ele se apóia quase totalmente nos ícones que estão lá na memória coletiva — está tudo aqui, a civilização perdida, a suposta inteligência superior que ajudou o povo em questão a alcançar uma evolução tecnológica inimaginável até na nossa época, as promessas de poder absoluto a quem descobrir esse segredo, os monumentos misteriosos ao redor do mundo, e tudo cercado por aquela aura de há-algo-realmente-grande-aqui que Spielberg é mestre em criar. Quase duas décadas passaram entre a produção do terceiro e do quarto filme, quase duas décadas se passaram para Indy, quase duas décadas se passaram para o tipo de narrativa e cinema que é alvo da homenagem da vez: saem os grandes contos de aventura do início do século, as histórias escritas por Rudyard Kipling, as aventuras de Allan Quatermain, permanecem os filmes que se permitiam crer em mistérios grandiosos ocultos nas selvas de um mundo ainda parcialmente inexplorado, e entram as histórias que misturam fantasia e ficção científica, os contos da Amazing Stories, os livros de bolso pulp impressos num papel de péssima qualidade e vendidos a 25 cents numa banca de jornal qualquer no meio dos anos 50 — livros dos quais O Reino da Caveira de Cristal parece ter saído, pulando direto para a tela. Estamos na época da Guerra Fria: os nazistas somem, e os soviéticos comunistas tomam o lugar. Essa mudança de cinema homenageado (que não muda em nada a essência, é bom ressaltar) chega a ganhar ares de crossover em alguns momentos — lembra daquele seu herói preferido da infância, e como você sempre tinha uma história em que queria vê-lo participando? Pois é.

E nem um único dia passou para o espírito da série, o que é o melhor de tudo. Não que isso signifique que Spielberg ignora o tempo que passou e o status icônico alcançado por tudo relacionado a Indiana Jones (é só ver a cuidadosa preparação para a primeira entrada do personagem em cena, ou a atenção a aspectos marcantes como o já mítico chapéu — Indy não o perde nem após ter que enfrentar enormes cachoeiras), mas o filme é bem menos auto-referencial do que se pode imaginar, e nunca soa como uma espécie de especial ou coisa parecida. É mais um episódio da série e é tratado assim.

O episódio que mais euforicamente dá um chute na bunda do realismo, diga-se. O nível aqui é de ponte sendo cortada ao meio em O Templo da Perdição para cima, o que é muito bom, dado a aura pulp que o filme assume. Garantia de narizes torcidos por aí, mas é ótimo que ainda temos Spielberg — e não só ele — mandando às favas essa praga que vem contaminando espectadores e realizadores, chegando ao ponto de termos coisas como Batman Begins e gente que vai ver filmes de aventura ou ação e sai reclamando de passagens ditas forçadas. O Reino da Caveira de Cristal abraça sem remorsos o irrealismo completo, chegando ao seu ápice na incrível e hilária conclusão da perseguição envolvendo os jipes na floresta (cena que já entra sem sustos para a lista que inclui os caminhões nazistas, a mina e a luta no tanque de guerra); e trazendo um Indiana Jones na casa dos cinqüenta ou sessenta anos e fazendo tudo que fazia nos filmes anteriores, com uma ou outra piada ocasional sobre não ser tão fácil quanto antes — mas ele ainda consegue, apesar do aparente esforço maior.

E assim chegamos ao protagonista, que continua carismático e irônico como sempre, num trabalho fantástico de Harrison Ford, definitivamente nascido para o papel, ou o contrário. E que vem cercado por um elenco na maior parte muito bom, incluindo Cate Blanchett, caricatural ao extremo — ponto positivo, sim — como a vilã Irina Spalko, Karen Allen, que, junto com Ford, traz de volta, e ainda funcionando muito bem, a relação explosiva entre o arqueólogo e Marion Ravenwood, e Shia LaBeouf, no papel que gerou mais temores entre os fãs do filme, o jovem Mutt Williams, que procura o auxílio de Indy ao receber uma carta enigmática de sua mãe citando a caveira de cristal do título. Mas não há com o que se preocupar: ele está muito longe de ser uma versão IJ do Scooby-Loo; pelo contrário, faz bem ao filme e é quando ele entra em cena que a coisa engata de vez — e melhora depois da passagem da areia movediça.

O Reino da Caveira de Cristal é, enfim, uma bem-sucedida retomada de um personagem que marcou a infância de toda uma geração que o viu no cinema, e ainda de uma outra geração que o acompanhou na nostálgica Sessão da Tarde. E é talvez para esse segundo grupo que a experiência tenha um significado maior: ouvir a clássica música de John Williams (que teve uma sacada genial ao compor o tema da caveira) numa sala de cinema, ao mesmo tempo em que vemos a sombra do homem do chapéu na lateral de um carro, é para lembrar por muito tempo. Um filme que não tem medo de se assumir feito por uma criança cheia de imaginação para outras. Como, aliás, sempre são, quando querem, embora com diferentes graus de êxito, as obras desse herdeiro dos grandes contadores de histórias que é Steven Spielberg.

4/4

Robson Galluci

7 Comments

Filed under Resenhas

7 Responses to Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Steven Spielberg, 2008)