
Até aquela troca de personagens mais pra metade da coisa, PTA passeava largamente por um caminho que o levaria a uma obra-prima. Não sobre cobiça, corrosão do poder, obsessividade auto-destrutiva e outras porras (uma porque não dá pra rivalizar com Cidadão Kane, Sierra Madre ou até Scarface, do Brian, e outra porque seria um rumo constrangedoramente fácil), mas simplesmente sobre a incomunicabilidade de um homem trancafiado no próprio corpo (viés evocado e desenvolvido magistral e surpreendentemente pelo Van Sant em Paranoid Park), que segue reto, num túnel isolado do mundo, com a esperança de encontrar na luz a chave pra escuridão da alma (que se nós não conhecemos, Daniel tampouco). Temos até o famigerado ponto um cinema invasivo, laminal, e pela primeira vez no caso do PTA, gigantesco por si mesmo. A cena do Daniel deitado e abraçado ao filho é de bem longe, pra mim, a melhor do filme. Depois que o mundo bate a porta na cara de Daniel, ele a esmurra e implora para entrar de volta, num misto de ódio, de pena e compaixão, protegendo aquele menino como se buscasse a proteção de si mesmo, abraçando-o como se se abraçasse, fazendo com que (até o momento) se torne impossível determinar se a distância entre ele e o filho é medida em milímetros ou quilômetros.
Eu não sabia bem o que tanto me incomodava até ler o excelente texto do Thiago (que defende brilhantemente o filme, daí a dimensão de se ler a respeito, principalmente opiniões que vão de encontro às nossas). Quando o Thiago cita essa quebra como passaporte de entrada no mundo individual de Daniel Plainview, percebi que todo aquele vácuo entre mim e o PTA havia retornado por inteiro. Estranhamente, aproximando-me do personagem, ele terminou me afastando de tudo. A partir daí, as pretensões vão tentando universos, retornando ao espectador muito pouco do que haviam projetado. O filme quer crescer, inflar, explodir e acaba mirrando, atrofiando, implodindo. Daniel, que era até então um horizonte inexplorado (e inexplorável), é trancado numa 3×4. É sério, a impressão é de que o filme foi pulverizado, restando apenas cacos e escombros do monumento que se estava construindo.
Contribuíram muito pra esta conclusão aquelas investidas irresponsáveis de humor. A coisa pode muito bem ser resumida na cena do batismo, a que eu mais esperei durante o filme, aquela com que mais vibrei pelo início promissor e que mais me decepcionou pelo desfecho imbecil (parece até que falava do filme todo agora, hehe). Eu estava eletrificado pelo close no Day-Lewys, pela virulência no ato do Eli, pela tortura e destruição psicológica do personagem, até que isso tudo desaparece num riso que me atacou primeiro pelo ridículo depois pelo desespero de contemplar a rasura irreparável de uma verdadeira obra de arte.
E foi um elemento que teria dado certo na cena final não fosse a insegurança do Paul Thomas Anderson em relação ao potencial do Dano, do Day-Lewys e, acima de tudo, do seu próprio. Não precisava de nenhum “i drink your milkshake”, não precisava de caricatura, não precisava nivelar no subterrâneo. A diversão meio ingênua (apesar do fundo sádico, mas ainda ingênua) do início (alicerçada em especial por um gosto de vingança sobre Eli) confrontada com o choque final poderia ter gerado um contraste de riso e catatonia no espectador. Acredito até que tenha sido este o objetivo, mas é aquela coisa de pretensões mal realizadas. E teria sido maravilhoso, único, inenarrável. No entanto, a única coisa indizível aqui é o embranco triste do que poderia ter sido e não foi.
Preciso rever Magnólia (não, não será tão cedo), mas creio que fica Embriagado de Amor no topo e este logo abaixo. Não tão “logo”, na verdade. Acho que eu gostava mais do filme antes de começar a escrever, maldição, hahaha. Mas tem umas coisas geniais. Até o abandono na estação tudo corria orgasmicamente, e não é também que a continuidade do filme seja o excremento radioativo maior do cinema, mas diante do que a primeira hora preparou (o palco de uma obra-prima moderna), a pretensa apoteose não apenas decepcionou como decepou a base. No mais, Daniel Day-Lewys absurdo (durante todo o filme, preciso dizer) e aquela trilha (de)composta de arranjos mecânicos e acordes de metais toma conta de tudo, transportando a cena da explosão da bolsa de gás para um plano intermediário, entre os olhos e a tela do cinema. Houve quem tomou cuidado pra não se respingar.
2/4
Luis Henrique Boaventura